Energia, a diplomacia da transição
A transição energética deixou de ser nota de rodapé na agenda política. É hoje peça central da realpolitik do século XXI. Se o carvão e o petróleo desenharam as fronteiras do poder no passado, agora são eletrões renováveis e moléculas de hidrogénio a redesenhar o mapa da influência. Esta diplomacia assenta na interdependência das redes e na responsabilidade entre gerações. No eixo atlântico, onde Europa e Américas partilham valores, a energia afirma-se como moeda de paz para lá de ciclos eleitorais.
A resposta à crise energética de 2022 foi o “teste de stress” deste tabuleiro. Quando o risco é sistémico, diversificar deixa de ser conselho académico e passa a segurança nacional. O Conselho de Energia UE-EUA, reunido em Washington em março de 2024, cristalizou esta leitura: reafirmou o papel do GNL norte-americano na segurança de abastecimento europeia e aprofundou o trabalho de alinhamento de normas tecnológicas e regulatórias para acelerar a descarbonização.
A autonomia estratégica define-se pela escolha de parceiros e pela qualidade das interligações. É neste contexto que a relação com a América Latina ganha outra escala. A entrada em vigor, em fevereiro de 2025, do Acordo Comercial Interino entre UE e Chile garante acesso mais estável a lítio e cobre, e cria um enquadramento preferencial para o hidrogénio verde, aproximando a procura europeia da capacidade de produção chilena.
Portugal ocupa um vértice desta geometria atlântica. Em 2024, a produção renovável nacional abasteceu cerca de 70% do consumo de eletricidade ao longo do ano e ultrapassou os 90% em vários meses. Isto mostra que parte relevante da segurança energética assenta já em recursos endógenos, apoiada por planeamento de rede e investimento em flexibilidade. Essa ambição já não cabe dentro de fronteiras.
O Porto de Sines deixou de ser apenas ponto de receção para se afirmar como plataforma atlântica. O memorando de entendimento assinado em 2024 entre Sines e o Porto do Pecém, no quadro da estratégia Global Gateway, desenha um corredor logístico verde que prepara o terreno para o fluxo de hidrogénio e derivados entre continentes e para uma cooperação industrial com valor acrescentado em ambos os lados do oceano.
Esta infraestrutura é também política de paz. Projetos como o H2Med, que liga a Península Ibérica ao coração industrial da Europa, ou a aposta na eólica offshore f lutuante, testada na Zona Livre Tecnológica de Viana do Castelo e com meta de 2GW até 2030, representam mais do que investimento em MW, funcionando como apólices de resiliência, diversificando rotas, criando capacidade local e reduzindo a margem de manobra de quem usa a energia como arma.
Ao integrar redes elétricas, infraestruturas de hidrogénio e cadeias de valor críticas com parceiros democráticos nas Américas, o eixo transatlântico constrói um sistema menos exposto à coerção de autocracias energéticas e a choques súbitos de oferta, mais ancorado em contratos de longo prazo, normas comuns e transparência.
Para Portugal e para os seus parceiros, a segurança energética assenta em redes interligadas. Estes corredores de energia limpa constituem o sistema nervoso de uma aliança que procura reduzir a exposição à instabilidade. Se o Atlântico se está a tornar a nossa bateria comum, o teste à diplomacia da transição será a velocidade com que ligarmos as duas margens. Cada nova interligação corresponde a uma escolha política sobre a paz que cada geração decide deixar à seguinte.
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