Dona da Havaianas perde 23 milhões em bolsa após anúncio que provocou boicote da direita
A Alpargatas, dona dos chinelos Havaianas, enfrentou uma sessão de fortes perdas no pregão da B3 desta segunda-feira (22), devido à polémica que envolveu a última campanha publicitária da empresa.
O tombo de 2,4% nos papéis, agora cotados a R$ 11,44, levou à perda de R$ 152 milhões (22,7 milhões de euros) em valor de mercado da empresa, segundo a consultoria Elos Ayta. O Ibovespa, índice de referência do mercado acionário brasileiro, caiu 0,21%.
A campanha protagonizada pela atriz Fernanda Torres passou a ser alvo de críticas de apoiadores da direita nas redes sociais. A reação se concentrou em um trecho do comercial em que a atriz afirma não desejar que o público comece 2026 “com o pé direito”, mas “com os dois pés”.
A frase foi interpretada por políticos e influenciadores como uma mensagem de cunho político. Entre os que se manifestaram estão o ex-deputado federal Eduardo Bolsonaro e o deputado federal Nikolas Ferreira (PL), que associaram o conteúdo da propaganda a uma suposta posição ideológica da marca.
Questionada pela Folha, a Havaianas não respondeu até a publicação desta reportagem.
A reação no mercado reflete temores de que o boicote gere queda na faturação da Havaianas, afirma Gustavo Cruz, estrategista-chefe da RB Investimentos. Ele avalia que impacto deve ser de curto prazo.
“Já vimos isso acontecer outras vezes com empresas que tiveram alguma exposição nesse sentido, e de ambos os lados do espectro político, como Smartfit, Madero, Magazine Luiza, JBS… Para a empresa ser afetada porque se envolveu com alguma polémica política teria que ser algo muito maior”, diz.
Este especialista acrescenta ainda que a companhia “deu azar” de enfrentar uma polêmica no fim de ano, época tradicionalmente de baixa liquidez no mercado. “Uma notícia negativa nesses momentos causa uma oscilação maior, mas é difícil ver isso se estendendo por muito tempo.”
A polémica foi inflamada através de postagens nas redes sociais de autoridades do lado direito do espectro político.
Num vídeo publicado em seu Instagram, Eduardo Bolsonaro afirmou que achava que a Havaianas era um símbolo nacional. “Só que eu me enganei, eles escolheram para ser a garota-propaganda da sandália uma pessoa declaradamente de esquerda”, disse. Ele também criticou a frase da propaganda sobre não começar o ano com o pé direito, afirmando que “isso não foi por acaso”. De seguida, ele jogou os dois pés do chinelo no lixo.
No vídeo publicado nas redes, o ex-deputado ainda escreveu que “quem lacra não lucra”. A publicação já conta com mais de 5 milhões de visualizações e 600 mil curtidas.
Em seguida, grupos conservadores iniciaram uma campanha de boicote acusando a cerveja de patrocinar pautas transgênero, de gozar com as mulheres e de expor crianças à sexualidade. A polémica derrubou as vendas da companhia e resultou na troca de dois executivos.
No X (ex-Twitter), Nikolas Ferreira comentou o caso. “Havaianas, nem todo mundo agora vai usar”, disse.
O senador por Minas Gerais Cleitinho Azevedo (Republicanos) também publicou vídeos em suas redes sociais comentando a propaganda. Ele afirmou que o pedido para não começar o ano “com o pé direito” funcionaria como uma metáfora.
“A gente sabe o recado que a Havaianas quis deixar aqui, até porque o ano que vem é um ano eleitoral e o país está extremamente polarizado. E quem ela contrata para poder fazer essa propaganda? Uma atriz que é declaradamente contra a direita, que faz várias entrevistas dizendo que é contra a direita, que subiu no trio elétrico agora para dizer que é contra amnistia“, afirmou. A publicação é a mais visualizada entre os vídeos recentes do senador, com 2,8 milhões de visualizações e mais de 200 mil curtidas.
O empresário Luciano Hang, dono da rede Havan, também publicou conteúdo sobre o caso. Em postagem nas redes sociais, afirmou que, neste verão, passaria a usar apenas chinelos da marca Ipanema, principal concorrente da Havaianas.
Em 48 horas, o perfil da Ipanema no Instagram registou um salto de mais de 490 mil novos seguidores.
Segundo o site InsTrack, que monitora estatísticas de páginas no Instagram, o @sandaliasipanema saiu de 510 mil seguidores no sábado (20) para 1 milhão na tarde desta segunda. A página também recebeu comentários de apoiadores da direita, muitos deles anunciando que pretendem trocar de marca.
O movimento nas redes, em especial, pressionou mais as ações, afirma Alison Correia, analista de investimentos e cofundador da Dom Investimentos. “Os investidores entenderam como uma indireta, em um momento já sensível ao considerar que o próximo ano que ela menciona [na propaganda] é um ano de eleições”, afirma.
Apoiantes da direita também passaram a comentar publicações da Ipanema no Instagram. A postagem mais recente da marca soma mais de 614 mil curtidas, número superior ao registado em publicações anteriores, que costumavam variar entre 10 mil e 30 mil curtidas. Nos comentários, usuários dizem que irão começar 2026 “com o pé direito” usando Ipanema e pedem para que a marca aproveite a “oportunidade” para vender.
No campo da esquerda, as críticas feitas por grupos da direita também geraram reação. A deputada federal Erika Hilton (PSOL) questionou nas redes sociais a tentativa de boicote à marca. “Como assim os bolsonaristas tão cancelando até as Havaianas? Será que não serve direito nos cascos deles?”, escreveu.
O vereador Pedro Rousseff (PT), sobrinho da ex-presidente Dilma Rousseff, também comentou o episódio. Em publicação no X, disse que apoiantes da direita passariam a usar tornozeleiras eletrónicas para deixar de usar chinelos da marca.
Além das manifestações de políticos, usuários passaram a compartilhar nas redes sociais imagens geradas por inteligência artificial e montagens de chinelos em formato de ferradura.
Com a proximidade do Natal, também surgiram comentários segundo os quais a repercussão negativa poderia, na prática, ampliar a visibilidade da marca, além de brincadeiras sobre presentear familiares alinhados à direita com produtos da Havaianas.
Share this content:


Publicar comentário