Eleições antecipadas no Kosovo: primeiro-ministro Albin Kurti é o favorito
As eleições parlamentares antecipadas do Kosovo, as décimas desde a introdução do sistema multipartidário, estão marcadas para 28 de dezembro próximo e foram convocadas porque o parlamento não conseguiu formar governo após as eleições de 9 de fevereiro de 2025, seguidas de uma segunda tentativa, igualmente mal sucedida. A crise política daí decorrente teve como resultado tornar-se inevitável um novo ciclo eleitoral: para além das eleições parlamentares, espera-se também que um novo presidente seja eleito logo após serem conhecidos os resultados da consulta pública. Refira-se ainda que eleições autárquicas foram realizadas anteriormente, no dia 12 de outubro de 2025 – com o ‘normal’ desentendimento entre os partidos kosovares e aquele que defendem os interesses da minoria sérvia.
Um total de 24 entidades políticas inscreveram-se para participar: 18 partidos políticos, três coligações, duas iniciativas de cidadãos e um candidato independente. O recenseamento eleitoral lista um pouco mais de dois milhões de eleitores, dos quais quase 80 mil estão inscritos no estrangeiro. De acordo com o censo populacional realizado em abril e maio de 2024, residem no Kosovo quase 1,59 milhões de eleitores.
De acordo com a decisão da Comissão Eleitoral Central (CEC), a votação será organizada em 38 municípios do Kosovo e em 36 países estrangeiros, sendo o custo total das eleições estimado em 11,49 milhões de euros.
A Assembleia do Kosovo é composta por 120 membros, dos quais 20 ocupam lugares reservados às comunidades minoritárias: 10 à comunidade sérvia, três à comunidade bósnia, dois à comunidade turca, quatro às comunidades cigana e egípcia (RAE) e um à comunidade gorani. O limiar eleitoral para a representação na Assembleia é de 5%, sendo necessários 61 votos para garantir a maioria parlamentar.
Os três principais rivais políticos são: o Movimento pela Autodeterminação de Albin Kurti, o atual primeiro-ministro, juntamente com os seus parceiros Alternativa, Guxo e o Partido Democrata Cristão Albanês (PSD); a Liga Democrática do Kosovo (LDK), liderada por Lumir Abdixhiku; e o Partido Democrático do Kosovo (PDK), liderado por Bedri Hamza. A Lista Sérvia (SL), enquanto principal partido político dos sérvios do Kosovo com o apoio de Belgrado, e a Aliança para o Futuro do Kosovo (AAK), liderada por Ramush Haradinaj, têm uma influência limitada na dinâmica política mais ampla do Kosovo.
Os principais partidos da oposição não registaram uma coligação pré-eleitoral conjunta junto da Comissão Eleitoral Central, “o que reflete ainda mais as complexas relações e rivalidades no panorama político albanês”, segundo avança a organização The International Institute for Middle East and Balkan Studies (IFIMES), especialista em política dos Balcãs.
O Movimento para a Autodeterminação (LVV) “posiciona-se como uma opção política fortemente orientada para a justiça social, o desenvolvimento económico, o reforço do Estado de Direito e a soberania do Kosovo. O partido combina os princípios do Estado-providência com aspirações de crescimento económico sustentável, ao mesmo tempo que enfatiza o combate à corrupção, a promoção da igualdade e a proteção dos cidadãos comuns e dos grupos marginalizados. Procura, ainda, equilibrar os interesses nacionais e o princípio da autodeterminação com políticas socioeconómicas progressistas”. Fundado em 2005, o movimento completa 20 anos de participação ativa na vida política do Kosovo em 2025.
Albin Kurti e o LVV continuam a usufruir de um forte apoio eleitoral, graças à sua agenda reformista, às políticas anticorrupção e aos esforços para desmantelar as estruturas político-criminais. “Kurti é tido como um líder de convicções firmes, comprometido com as suas decisões e determinado a levá-las avante”.
As sondagens pré-eleitorais indicam que a LVV está bem posicionada para uma vitória convincente, com potencial para conquistar mais de 50% dos eleitores já decididos, fazendo das próximas eleições uma nova oportunidade para Kurti. Os seus principais desafios incluem a preservação da unidade dentro da comunidade política albanesa. Resistir aos ataques internos da oposição e de segmentos do poder judicial, continuar os esforços para desmantelar as redes político-criminosas — incluindo a potencial presença de mercenários estrangeiros e tentativas de desestabilização — e abordar questões sensíveis das minorias, principalmente a formação da Associação de Municípios Sérvios (ASM), são, na ótica dos especialistas, os seus principais desafios.
Uma sondagem independente de opinião pública realizada este mês indica que, entre os eleitores que já decidiram o seu voto, o Movimento para a Autodeterminação (LVV) goza do nível mais elevado de apoio, com 50 a 53%, enquanto o Partido Democrático do Kosovo (PDK) se situa entre os 16 e os 19%, a Liga Democrática do Kosovo (LDK) entre os 15 e os 17%, e a coligação AAK-NISMA entre os 7 e os 9%. Os inquéritos indicam ainda que a Lista Sérvia irá conquistar todos os 10 lugares reservados à comunidade sérvia, reafirmando o seu papel como principal representante dos interesses das minorias no Kosovo. Os eleitores indecisos, que representam aproximadamente um quinto do eleitorado, podem desempenhar um papel decisivo na definição do resultado final.
A Liga Democrática do Kosovo (LDK) define-se como um partido de centro-direita com uma orientação “pró-Rugova e euro-atlântica”, reflectindo um firme compromisso com a integração europeia e euro-atlântica do Kosovo e com uma estabilidade mais ampla. O partido defende os valores familiares tradicionais, considerando a família um pilar fundamental da política social e de bem-estar, ao mesmo tempo que advoga abordagens mais modernas em áreas como a economia, a tecnologia e as infraestruturas. A LDK procura equilibrar a preservação da tradição com os esforços para trazer estabilidade, segurança e desenvolvimento sustentável ao Kosovo. No entanto, continua a sentir os efeitos de uma longa crise de identidade e da falta de reformas internas no partido.
O Partido Democrático do Kosovo (PDK) promove os princípios do mercado livre, o crescimento económico, a criação de emprego e um sector privado mais forte, com foco na proteção social e no apoio a grupos vulneráveis. O partido equilibra elementos conservadores e nacionalistas, incluindo o legado histórico do Kosovo, com políticas económicas liberais. O PDK dá especial ênfase à modernização da educação, ao fomento da inovação e à melhoria do nível de vida dos cidadãos, procurando posicionar-se como garante da estabilidade e da construção institucional, ao mesmo tempo que promete, nas suas próprias palavras, uma “vida melhor” para o Kosovo. O PDK sofreu uma mudança de liderança, com Bedri Hamza a assumir a presidência do partido. O LDK, liderado por Lumir Abdixhiku, ainda não tem experiência e autoridade suficientes para consolidar o partido num ambiente político desafiante.
A Aliança para o Futuro do Kosovo (AAK), liderada por Ramush Haradinaj, apresenta-se como uma opção de centro-direita focada no crescimento económico, no investimento e no desenvolvimento de infraestruturas e educação, com um forte apoio da diáspora. O partido visa promover a estabilidade e a prosperidade no panorama político do Kosovo, com uma clara orientação internacional em favor da União Europeia e da NATO.
Segundo a mesma fonte, se o Movimento para a Autodeterminação garantir uma nova maioria parlamentar, Albin Kurti poderá dar continuidade à sua agenda de reformas e fortalecer as instituições, consolidando potencialmente a estabilidade política no Kosovo. Caso contrário, o cenário político poderá voltar a ficar instável, com o risco de aumento das tensões tanto no seio da Assembleia como entre os principais atores políticos.
De qualquer modo, a normalização das relações com a Sérvia continua a ser o grande desafio dos kosovares. O diálogo facilitado pela União Europeia e pelos Estados Unidos continua a ser essencial, mas, no terreno, os dois países continuam separados por enormes diferenças de pontos de vista em matérias sensíveis. E a Sérvia tem demonstrado ser um vizinho difícil – que o espectro da guerra a pairar de forma persistente na fronteira comum. O Kosovo continua a ser uma área geopoliticamente sensível, marcada por rivalidades regionais e pela intervenção de atores externos. “A capacidade de lidar eficazmente com os desafios de segurança internos e regionais continuará a ser essencial para a estabilidade a longo prazo e para o desenvolvimento sustentável”, concluiu a organização.
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