Rui Borges não é um treinador sexy, tudo bem. Não pode é ser panhonha
Pode não ser consensual, mas começo logo por dizê-lo. Rui Borges é o melhor treinador do futebol português. Poucos (ou mesmo nenhum) seriam capaz de fazer o que fez, na passada temporada, ao pegar numa equipa do Sporting totalmente ‘esfrangalhada’, do ponto de vista físico e anímico, e conduzi-la à conquista do título de bicampeão nacional.
O problema de Rui Borges nunca foi de competência, até porque, nesse ponto, não fica a perder em nada para os mais diretos rivais. O problema sempre foi o de imagem. O de não ter o ‘sex appeal’ de nomes como Ruben Amorim, José Mourinho ou Francesco Farioli, que foram capazes de ‘seduzir’ para junto de si a opinião pública, acima de tudo, com um discurso diferenciador, mais próximo daquilo que pede o ouvido comum.
Ao invés, Rui Borges convence, acima de tudo, pelo trabalho, pela maneira como passa a mensagem àqueles que verdadeiramente importam (os jogadores) e como consegue ultrapassar as adversidades que lhe foram surgindo pela frente. No entanto, é também esta última caraterística que não pode deixar que seja a morte do artista.
Em 2024/25, nunca usou as lesões de pedras basilares como Pedro Gonçalves, Nuno Santos ou Hidemasa Morita para justificar as exibições menos conseguidas do Sporting. Disse sempre que o seu trabalho passava por encontrar soluções, e assim foi, ‘sacando da cartola’, por exemplo, João Simões, ou até mesmo um Zeno Debast convertido a médio.
Algo que, aliás, até lhe custou caro, precisamente, perante a opinião pública, que confundiu o discurso corajoso de um homem que luta com o que tem com o de ‘Zé ninguém’ que se dá por satisfeito com serviços mínimos. O que não se imaginava era que este discurso também lhe viria a custar caro, no seio do próprio clube.
A maré de lesões de 2024/25 não valeu, aparentemente, de lição para a direção do Sporting (mesmo que, curiosamente, esta seja liderada por um Frederico Varandas, que foi já diretor clínico), visto que o cenário que vai assolando o plantel vai ficando cada vez mais assustador a cada semana que passa.
Pedro Gonçalves parece não conseguir aguentar mais de um mês sem recaídas. Nuno Santos, que já devia ter regressado, continua ‘desaparecido em combate’. Daniel Bragança e Zeno Debast só agora parecem mais perto de voltar a ser opções. Há, ainda, a acrescentar Ousmane Diomande e Geny Catamo a disputarem a CAN, assim como Geovany Quenda, operado em Londres.
Aliás, chegou-se ao ponto de se ‘chorar’ pela ausência de Ricardo Mangas, quando, há menos de meio ano, a esmagadora maioria fazia troça da sua contratação. Isto, para não falar do castigado Jeremiah St. Juste, que tanto daria jeito, no jogo perante o Vitória SC, onde Eduardo Quaresma se apresenta como o único defesa-central ‘de raiz’ disponível.
Esta ‘razia’, aliado ao fracasso que foi a aquisição de um extremo-esquerdo (uma necessidade que estava identificada há meses), no verão, tem de levar Rui Borges a dizer ‘basta’, até porque a linha que separa a coragem da estupidez é ténue, e o próprio tem de ter cuidado para não a pisar, nesta altura do campeonato.
Em 2022, Ruben Amorim não se coibiu de demonstrar a ‘azia’ que lhe provocou a decisão de Frederico Varandas vender Matheus Nunes ao Wolverhampton, a três dias de um Clássico com o FC Porto, e quando a temporada tinha já sido planeada em seu redor. O ‘desastre’ confirmou-se, em maio, com o Sporting num miserável quarto lugar, na I Liga.
O recado surtiu, ainda assim, efeito, e, no verão seguinte, a história foi outra. Agora, chegou a altura de Rui Borges fazer o mesmo. Citando Rui Vitória, curiosamente, outro treinador que fez a travessia de Guimarães para Lisboa, tem de avisar que não admite ser “comido de cebolada”, até porque, apesar de difíceis, as metas para 2025/26 continuam em pé.
Deu ‘galo’ em Barcelos. Sporting trava no vermelho e FC Porto pode fugir
Luis Suárez marcou para o conjunto de Rui Borges na visita, esta sexta-feira, ao Gil Vicente, mas uma expulsão de Gonçalo Inácio nos últimos minutos abriu caminho ao que foi a igualdade. FC Porto pode ficar mais longe.
Rodrigo Querido | 20:44 – 02/01/2026
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