Gonçalo Regalado: “BPF vai dar garantia pública a emissões de obrigações agrupadas”
Gonçalo Regalado chegou há um ano a CEO do Banco de Fomento, com um diagnóstico feito e uma estratégia em andamento. O que destaca pela positiva e pela negativa?
A equipa executiva que lidero chegou ao Banco Português de Fomento (BPF) há 12 meses e encontrámos um banco com ambição, mas com muitos desafios. Desafios de enquadramento tecnológico; de orgânica de estrutura; com dívidas de empresas. Encontramos muitas recomendações em aberto e deficiências apontadas pela supervisão. Encontrámos um banco muito difícil e bastante mais duro do que a expectativa inicial. Já a melhor expectativa foi superada na qualidade do talento. Temos colaboradores de altíssima craveira. Esta é uma equipa executiva de mudança, de transformação, de impacto e que tem um mandato claro, que é entregar a Portugal um banco soberano da economia, dos empresários, das empresas e do país, e permitir que esse banco seja um orgulho ao nível do impacto, dos resultados e das conquistas. Em todas as dificuldades vimos uma oportunidade, para que dessa oportunidade víssemos um conjunto de opções, para que um conjunto de opções desse um conjunto de conquistas, para que essas conquistas dessem entregas.
Quando chegámos há um ano, para uma empresa fazer uma candidatura ao Banco de Fomento, era preciso entregar 27 documentos e a candidatura demorava 49 dias úteis. Passámos de 27 documentos para 5, de 49 dias para 10 e hoje são 5 dias.
Tenho orgulho de dizer que chegámos ao final de 2025 e o BPF tem menos de 100 milhões de euros em processos em avaliação. Os bancos comerciais todos do sistema têm mais de 2 mil milhões de euros de processos de candidaturas de empresas que estão aprovadas pelo Banco de Fomento, em mais de 5 mil empresas, em que têm que agora fazer a contratação. Tudo porque montámos soluções digitais de processos e vamos ter muitas novidades no digital em 2026. O grande desafio que nós temos agora é pedir também aos empresários para fazerem esta mudança.
Tinha como meta para o final de 2025 atingir mais de 6 mil milhões de euros de financiamento com garantia e mais de 14 mil empresas apoiadas. Conseguiram atingir esse objetivo? Qual o impacto do BPF no PIB no final do ano?
O Banco de Fomento entregou, no ano passado, 6,5 mil milhões de euros de investimento à economia, que representam 2,2% de impacto no PIB. Para se perceber, nós multiplicámos por 12 o impacto que tínhamos tido em 2024. Num ano de mudança apoiámos quase 17 mil empresas, superámos as 14 mil que apontávamos inicialmente. Isto através de múltiplos instrumentos (de garantias, de capital, de fundos). Nas garantias, que era a pergunta propriamente dita, nós apoiámos praticamente 15,9 mil empresas e colocámos 5,7 mil milhões de euros. Das quais 5,15 mil milhões são garantias nacionais que distribuímos com os nossos parceiros da garantia mútua – a Norgarante, a Garval, a Agrogarante e a Lisgarante (já fizemos a fusão destas sociedades) – e tivemos mais de 700 milhões de euros em garantias internacionais, em particular em convenções. Portanto, o que nós fizemos foi dar à economia portuguesa instrumentos financeiros para ter o impacto de 2,2 pontos percentuais no PIB.
O nosso trabalho é ser o motor da economia, do crescimento, das exportações, da inovação, ou seja, ser o motor do país. É esse o trabalho do BPF que queremos ampliar nos próximos anos. Éramos o 16º banco na Europa em impacto no PIB em 2024, hoje já somos o banco número 5, temos a ambição de, em 2026, o banco ser o número 3 da Europa e temos a ambição de chegar ao final do mandato e sermos o banco número 1 da Europa com 4% de impacto e um valor acima dos 10 mil milhões de euros.
O valor que revelou inclui os 2 mil milhões da linha BPF Invest Export destinada às empresas afetadas pelas tarifas dos EUA?
Exatamente. Dentro da estrutura de garantias há 2 mil milhões de euros da linha BPF Invest Export, criada como resposta às tarifas da Administração dos EUA. Essa linha foi criada com 3.500 milhões de euros de disponibilidade, e assim ainda temos mais 1.500 milhões para disponibilizar este ano. Apoiamos as empresas exportadores, mas também as PME (Pequenas e Médias Empresas). Cerca de 95% do nosso apoio é para PME de múltiplos setores e em praticamente todos os concelhos do país.
Há muitos incentivos para PME, mas as grandes empresas em Portugal têm um peso inferior à média europeia. O BPF devia ter mais apoios às grandes empresas e incentivos à concentração
Portugal precisa de grandes empresas. O objetivo é que as microempresas passem a pequenas, as pequenas passem a médias, as médias passem às grandes, e as grandes passem a globais.
Através do Banco de Fomento, em parceria com o PRR e com a Estrutura de Missão, lançámos o IFIC, o Instrumento Financeiro para Inovação e Competitividade, no âmbito do PRR, em que as grandes empresas das áreas de defesa e reindustrialização são já abrangidas. Recebemos praticamente 500 candidaturas dessas empresas, e, só das grandes empresas, nesses dois avisos, estão mais de 1.500 milhões de investimento, que esperamos aprovar. O processo tem decorrido com celeridade, esperamos aprovar e colocar no mercado entre o final do mês de janeiro e meados do mês de fevereiro.
O BPF vai conceder subvenções (apoio a fundo perdido), que serão cerca de 30% em cada projeto, mas também, vai conceder uma garantia pública que pode ir até 50%. O que significa que os apoios podem chegar aos 80% do investimento. Isto é, uma empresa que tenha um projeto de 10 milhões, por exemplo, pode ter 3 milhões de subvenção, a fundo perdido, e depois ter 5 milhões de garantia pública para levantar na banca comercial. Ao todo pode ter 8 milhões de euros, ou seja, 80% do projeto de investimento é financiado com apoio público.
Depois estamos a criar outros instrumentos e um deles, que para nós é absolutamente crítico, é a capacidade de existirem empréstimos obrigacionistas agrupados [Basket Bonds – são instrumentos de dívida emitidos por PME para financiarem investimentos, em que o BPF concede garantias públicas]. As empresas terão a oportunidade, já em 2026, de terem empréstimos obrigacionistas agrupados com garantia pública. Será uma das novidades de 2026.
Em cima disso, vamos receber de uma forma estrutural a Agência de Crédito à Exportação Portuguesa. Durante seis meses, haverá um período de transição em que trabalharemos com a Allianz e Cosec, e depois a partir do dia 1 de julho, passa de forma definitiva, permanente, independente e autónoma para o BPF. São normalmente as grandes empresas que utilizam estes instrumentos de seguro de crédito à exportação, pelo que terão aqui uma grande alavanca de investimento para as exportações.
Vamos ainda ter outros dois instrumentos para as grandes empresas em 2026. A primeira é que nós vamos integrar a Sofid, que basicamente é o nosso porta-estandarte para financiamento de investimento português no estrangeiro, e as grandes empresas, normalmente são multigeográficas nos seus investimentos. Assim vão ter crédito feito ao investimento português no estrangeiro a partir de Portugal. Por fim, também vamos ter um instrumento de crédito ao importador, isto é, uma grande empresa que tenha hoje uma exportação por exemplo para os Estados Unidos, ou para a Itália, ou para a China, o seu cliente estrangeiro pode fazer crédito através do BPF em Portugal.
Como é que os bancos comerciais podem ajudar mais o BPF a apoiar a economia?
Costumo dizer que os bancos comerciais são a nossa liga portuguesa, são os clubes que competem entre si, e o Banco de Fomento é a seleção nacional que joga pela bandeira nacional. Portanto, somos parceiros e complementares em tudo.
A pedra de toque e a chave da mudança que implementámos é que o BPF deixou de estar sentado no banco e passou a jogar no campo. Em abril de 2025 concedemos 125 mil garantias pré-aprovadas, no valor de, à data, 24 mil milhões de euros, às micros, pequenas e médias empresas. Os empresários receberam as nossas garantias por e-mail, por telefone, por sms, por whatsapp, por chamada. Dissemos aos empresários, sem eles nos pedirem nada, que tinham uma garantia pré-aprovada firme do Banco de Fomento e das Sociedades de Garantia Mútua, para descontarem num banco comercial à sua escolha. Ao mesmo tempo demos à banca comercial a lista destas empresas que tinham garantias pré-aprovadas e o resultado foi que as empresas começaram a ser visitadas por dois, três, quatro bancos na mesma semana. Isto é que fez com que se passasse de pouco mais de 500 milhões de euros para 6.500 milhões de impacto, Nós casámos os empresários com a banca comercial e assim o país teve acesso ao financiamento, ao investimento e ao crescimento. Vamos continuar a fazer isto com mais amplitude, porque de três em três meses estamos a renovar os limites destas garantias pré-aprovadas e na última vez, no final de novembro, já não emitimos apenas 125 mil garantias, mas sim 145 mil garantias e não foram 24 mil milhões, foram 38 mil milhões.
Em cima disso, também durante o ano de 2025 negociámos o maior contrato da Europa com o Fundo Europeu de Investimento (FEI), de 7 mil milhões. As empresas portuguesas e os empresários vão passar a contar com Garantias Europeias do FEI e do Banco Europeu de Investimento. Ou seja, além dos 8 mil milhões de euros de garantias públicas que estão inscritos no Orçamento de Estado, e que é o nosso orçamento para o ano 2026, haverá ainda a disponibilidade de 7 mil milhões de garantias europeias. Portanto, a economia portuguesa tem 15 mil milhões disponíveis, entre garantias nacionais e garantias europeias, para fomentar o investimento.
Hoje, pela primeira vez, desde 1980, segundo dados do Banco de Portugal de novembro, os depósitos de todas as empresas em Portugal, superaram o crédito de todas as empresas em Portugal.
Isso é bom para o BPF?
É ótimo para a economia portuguesa e é muito bom para o BPF porque os empresários são impelidos a aplicar esses depósitos em novo investimento. O grande objetivo é que quem tem depósitos invista. As empresas não têm de ser caixas de depósitos.
Portugal vai ter em 2026 o encerramento do PRR com uma boa dotação de subvenções, de investimento, de depósitos, de capacidade de multiplicação de investimento nas empresas. Vamos ter uma aceleração muito forte no Portugal 2030, onde o BPF também vai ajudar com as suas garantias, juntamente com os nossos parceiros do Compet, com os Programas Operacionais Regionais. Portanto, os empresários têm hoje todos os estímulos para investir.
O BPF vai reanimar o Conselho Consultivo que vai ser liderado por Nuno Amado. Qual o papel deste Conselho?
O conselho consultivo para nós é um conselho estratégico de consulta ao Conselho de Administração e à Comissão Executiva e confirmo que terá uma nova composição. A nossa ambição é clara, queremos um conselho consultivo que tenha pessoas experientes com carreiras feitas. Queremos dois grandes tipos de personalidades. Por um lado, teremos um conjunto de pessoas de banca e de alta finança com uma visão global e multinacional e que lideraram grandes instituições em Portugal.
Depois a grande novidade é que vamos ter grandes empresários nesse Conselho. Líderes e fundadores de grandes grupos, embaixadores da economia portuguesa, mas também jovens que começaram com start-ups, porque o banco também tem essa visão de ecossistemas. Em resumo queremos um conselho com “gente para fazer”.
Quando será essa renovação? Só estar administradores de grandes empresas ou há também de PME?
Há de tudo. As pessoas não vão representar as suas empresas mas sim o país e a si mesmas. O processo está relativamente avançado. Acreditamos que no final de fevereiro estaremos em condições de apresentar ao país aquela que será a nova composição do Conselho Estratégico. Vamos fazer um Conversas com Fomento no final de fevereiro que será um evento em Lisboa que mobilizará mais de mil empresários. Contará com a presença do Ministro do Estado e das Finanças e terá um conjunto de empresários e de empresas a darem o seu testemunho real. Será anunciado nessa altura.
O Conselho Estratégico terá um modelo de organização bastante impactante. O grande objetivo é beber do melhor que se faz no mundo e trazer para Portugal boas ideias. Vamos fazer reuniões do Conselho Estratégico em vários bancos soberanos do mundo porque queremos perceber o que esses bancos – hoje mais avançados do que o Banco de Fomento em dimensão e experiência – fazem. Queremos ver como é que esses bancos soberanos trabalham o capital, a dívida, o crédito, os seguros, os fundos de investimento… Os estatutos do banco são muito claros, dizem que é o Conselho de Administração do banco, o ministro do Estado e das Finanças e o ministro da Economia que fazem a escolha do Conselho Estratégico. Obviamente que há um trabalho de grande cooperação entre mim, que sou o presidente executivo, o presidente do Conselho Estratégico, e o presidente do Conselho de Administração.
Vão apresentar um plano estratégico de 2026 a 2028…
Sim. Chama-se Pulsar Portugal, porque temos de ser o pulso da economia portuguesa. É um plano com metas ambiciosas. No somatório dos três anos queremos superar os 30 mil milhões de euros de impacto em todos os instrumentos de apoio ao investimento (nas garantias, no capital, nos fundos imobiliários, em toda a dimensão dos seguros de crédito, no crédito e na atração de investimento direto estrangeiro). É um impacto muitíssimo relevante, são mais 10 pontos percentuais do PIB, é essa a nossa ambição. Queremos um banco com três P’s, um banco de parceria, de proximidade e de progresso, porque o que nós queremos é que Portugal seja sempre o país que mais cresce na Europa. Queremos ser a economia da década, que cheguemos a 2030 e sejamos um país com um rating AAA em todas as agências, com uma dívida pública abaixo de 80%, a crescer entre 3% e 5% ao ano. Queremos que a economia portuguesa seja a estrela da economia europeia.
Como é que vai ser Portugal depois de acabar o PRR?
Eu espero que seja um país mais avançado, mais empresarial e que paulatinamente vamos utilizando estes sistemas de subvenções para criar competitividade. Se me pergunta há os dois grandes desafios para Portugal. O primeiro é a competitividade e o segundo é a produtividade. Ou seja, é preciso ter produtividade, para que os empresários possam subir os salários e é preciso que haja competitividade nas empresas, para ganharem face aos nossos concorrentes em qualquer geografia. É um desafio de gestão porque os colaboradores portugueses são os mais produtivos no contexto internacional. Não falta ambição, falta organização. Devemos começar pelo Estado que tem de dar o exemplo. No BPF damos o exemplo.
Em que fase está e quais as metas da Direção de Habitação para impulsionar a habitação acessível?
O que nós vamos fazer na habitação é apoiar os empresários que são promotores de construção de habitação, em parceria com o Ministério das Infraestruturas e da Habitação, utilizando aquilo que já está a ser muitíssimo bem feito. Vamos pegar nos 308 municípios e vamos conceder-lhes garantias públicas para acelerarem a execução e terem financiamento mais competitivo e com uma maturidade mais longa.
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