“Se alguém disser que não gostaria de jogar no Benfica, estará a mentir”
José Pedro Jesus Santa Precatado Marques já deu que falar na formação do Benfica, mas atualmente encontra-se ao serviço do Mafra, na Liga 3, de olhos postos no regresso à II Liga, de forma a pode elevar (novamente) o seu nome no panorama do futebol português.
Em entrevista exclusiva ao Desporto ao Minuto, o jovem internacional por Portugal revelou os bastidores de um dia na formação encarnada no Seixal e reforçou a passagem pelas camadas jovens da seleção portuguesa, para além de ter analisado a sua mudança para o Mafra, em busca de cada vez mais minutos às ordens de Orest Shala.
Natural da Lousã, Precatado mudou-se para Lisboa com tenra idade, já depois de integrar a formação de clubes da zona de Coimbra como o Gândaras, o Lousanense e a Académica. Destacou-se de águia ao peito e, galgando os mais diversos escalões de formação, chegou à equipa B do clube da Luz (para além das chamadas aos treinos da equipa principal), deixando-a no verão de 2024, quando se aventurou no emblema mafrense.
O jovem avançado de 21 anos viu a sua equipa cair da II Liga para a Liga 3 na passada temporada e, entre lesões, nada o impede de manifestar o sonho de voltar a representar o Benfica – sem nunca descartar os rivais Sporting e FC Porto – e até mesmo a seleção nacional. Para já, o foco está canalizado para o sucesso do Mafra na presente época.
Do nada, tinha o maior clube de Portugal a demonstrar interesse [em mim]… É uma sensação mesmo inexplicável.
Como nasceu o interesse pelo futebol?
Eu comecei a jogar à bola por causa do meu primo. Dava-me muito bem com ele. A única forma que eu tinha para estar mais tempo com ele era a jogar à bola ou nas festas de aniversário. Ele é dois anos mais velho do que eu. Inicialmente, eu estava a integrar uma equipa de miúdos no meu primeiro ano no Gândaras. Na altura, já me começava a destacar um bocadinho e até me desenrascava. Depois subi para a equipa do meu primo. Mais tarde, fizeram uma diferenciação nas equipas, ao colocar os mais velhos para um lado e os mais novos para o outro. Comecei a jogar com alguns amigos meus e, entretanto, fui para o Lousanense, antes de despertar a atenção da Académica.
Foi na Académica que despertou a atenção do Benfica. O que sentiu nesse momento?
Inicialmente, não sabia de nada. Tinha uns 13 anos quando se despertou o interesse. Eu era benfiquista e, como se pode calcular, foi um sentimento de orgulho e uma sensação inexplicável. Era um miúdo de 13 anos que jogava na Académica e jogava à bola com os amigos na escola. Do nada, tinha, se calhar, o maior clube de Portugal a demonstrar interesse… É uma sensação mesmo inexplicável.
Na altura, já tinha sido chamado às camadas jovens da seleção nacional. Foi algo que teve peso no salto para o Benfica?
Quando eu estava na Académica, creio que já me estava a conseguir destacar. Em outubro já tinha existido o interesse de FC Porto, Sporting e Benfica, ainda que não tenham feito logo propostas. Mais tarde, o Benfica e o FC Porto chegaram-se à frente com algumas propostas. O que pesou um bocadinho foi a questão de eu ser benfiquista. Numa fase inicial, ser chamado à seleção nacional pode ter pesado, mas na reta final já estava tudo mais ou menos decidido.
Não digo que tenha saído da Académica como o melhor do mundo. Éramos todos amigos. Cheguei ao Benfica e era só mais um…Como lidou com a mudança para Lisboa, a duas horas de distância da família?
Inicialmente, foi difícil. Não digo que tenha saído da Académica como o melhor do mundo, mas éramos todos amigos e acho que me podia considerar um dos melhores jogadores. Cheguei ao Benfica e era só mais um. Já sabemos como são os miúdos nestas idades, já com grupinhos todos formados. Para a integração é mais difícil, quer o facto de estar longe de casa, quer integrar-me no grupo em si. Com o passar do tempo, tive a ajuda de colegas como o Hugo Oliveira, o Hugo Faria e o Thiago Pereira, que foram colegas que estiveram comigo. Aí passou a ser mais fácil. Depois apareceu a pandemia do Covid-19. Estávamos no segundo lugar [do campeonato de juvenis], atrás do Sporting, contra quem iriamos jogar nesse fim de semana. Ficou um sabor amargo sem sabermos se íamos ganhar ou perder. Foi tudo mais difícil ao início, mas as coisas acabaram por ficar um pouco mais tranquilas.
Como conciliou os estudos nessa altura?
Na altura, eu andava num colégio e eu treinava com os mais velhos nesses dias. Não me recordo bem do horário. Havia dias com treino de manhã e escola à tarde e outros dias ao contrário, numa parceria que eles tinham com o colégio, na Aroeira.
Descreva um dia na formação do Benfica.
Dormíamos nos quartos da residência no Seixal, com miúdos dos 11 aos 17 anos. Acordávamos por volta das 7 horas, tomava um banho rápido e tínhamos o pequeno-almoço às 7h30. Chegava lá e tinha uma parte para o pão, o ovo mexido, as papas de aveia, as frutas, outra para os cafés e chás… Tínhamos lá um monitor caso acontecesse alguma coisa, mas nós decidíamos o que queríamos comer, até porque obviamente não havia croissants com chocolate. Dali apanhávamos um autocarro para a escola, onde almoçávamos. Mais tarde um autocarro ia buscar-nos num determinado horário para irmos para o centro de treinos. Às vezes, fazíamos pré-ativações no ginásio antes ou depois do treino. Tomava banho, convivia ali com alguns amigos no quarto, chegava a hora de jantar e era quase ‘xixi e cama’ [risos]. Só não treinávamos quando davam dois dias de folga. Normalmente, a seguir ao jogo tínhamos sempre folga, mas também apanhei treinadores que preferiam treinar no dia a seguir e só depois dar a folga. Dos sete dias da semana, cinco ou seis eram a treinar, com três ou quatro vezes de ginásio, uns para a parte superior, outros para a parte inferior. No dia antes dos jogos também não corríamos como doidos. Era uma gestão muito bem feita.
José Precatado realizou mais de 100 jogos de águia ao peito nos cinco anos em que esteve ligado ao Benfica, entre 2019 e 2024.© Getty Images
As idas a casa complicavam-se?
Normalmente, conseguia ir uma vez por mês, mas também tive a sorte de ter a minha irmã a trabalhar em Lisboa. Os meus pais aproveitavam folgas dela em dias que eu tivesse jogo no Seixal para vir [até Lisboa]. Apesar de ser pouco tempo, sempre consegui ter o apoio deles.
Foi subindo degraus na formação do Benfica, até aos sub-19 e aos sub-23. Por esta altura, já sentia que a equipa principal podia ser uma realidade?
Sim… Claramente que nos sentimos mais perto. Nos sub-23 talvez ainda não, mas nos bês já passamos a ter muito contacto com eles. Lembro-me de ir treinar inúmeras vezes com a equipa A, para além de fazermos jogos-treinos entre equipas A e B, portanto, a partir daí acabamos por sentir que estamos mais perto.
Chegou a ser chamado por qual treinador?
Pelo Roger [Schmidt], durante a época. Podia estar a faltar um jogador e ia [para um treino].
Os meus últimos tempos no Benfica resumiram-se à recuperação de lesões. Foi tudo estranho…Qual foi a sensação de já estar perto das grandes referências do Benfica?
É completamente diferente. Eu olhava para o lado e via [Fredrik] Aursnes e [Ángel] Di María, jogadores de topo, de alto gabarito. Até ia um bocadinho a medo. É um grupo de grandes jogadores e não queres errar…
Cruzou-se com o João Neves na formação em que altura?
Quando o Enzo [Fernández] saiu, ele subiu para a equipa A. Antes até tínhamos entrado juntos para a equipa B, em 2022/23. Ele sempre foi muito diferenciado. É uma pessoa cinco estrelas e, tecnicamente, acabava por ser mais evoluído do que todos nós. Já dava para ver que ele tinha ali qualquer coisa diferente. Há entrevistas e vídeos em que dá ver a humildade e a forma de ser dele. As coisas nunca lhe subiram à cabeça.
Chegou a fazer parte da equipa que venceu a UEFA Youth League em 2022?
Estive lá na Suíça, mas não joguei nenhum jogo. Era o ano dos mais velhos. A competitividade era grande. Acabei por jogar no ano a seguir. Medalha em 2022? Sim, tenho.
Foi jogando por várias ocasiões na equipa B do Benfica, mas sem se conseguir destacar com golos. Isso conduziu à saída do Benfica?
Se formos analisar os números, até uma dada altura estava a entrar mais vezes. A partir da janeiro [de 2024], nos últimos seis meses de contrato, acabei por deixar de jogar. Outra questão foram as lesões… Ali em março, comecei a sentir dores no joelho e só acabei por ser operado ao menisco em maio. Já jogava há algum tempo e surgiu a oportunidade de ir jogar nos sub-23 em dois jogos, contra Famalicão e Estrela da Amadora, até que, depois, comecei a sentir o meu joelho com mais dores. Fui fazer uma ressonância e tinha uma rotura no menisco, que na realidade não me estava a incapacitar de jogar. Acabei ainda por rasgar a coxa… Os meus últimos tempos no Benfica resumiram-se à recuperação de lesões. Foi tudo estranho…
Mafra? Acabei por dar prioridade a ficar em Portugal. Se já a duas horas de casa sinto saudades da minha família, então no estrangeiro ainda seria pior.Como aconteceu a mudança para o Mafra?
Em janeiro, já tinha a percepção que não ia renovar [com o Benfica], fosse por que razão fosse. Surgiu um contacto do Midtjylland junto dos meus agentes, para onde foi o Franculino Djú, um antigo colega meu. Tendo o Mafra a parceria com eles, ia para lá e, se conseguisse bons números, poderia mudar-me. Em termos financeiros e desportivos, o Mafra estava a crescer enquanto clube. Na altura, foi uma diferença um pouco grande, dado que não tínhamos as infraestruturas que temos agora, nas quais temos melhores condições do que algumas equipas da I Liga. Não foi uma escolha propriamente difícil. Acabei por dar prioridade a ficar em Portugal. Se já a duas horas de casa sinto saudades da minha família, então no estrangeiro ainda seria pior.
Não se arrepende?
Não posso dizer que me arrependo. O clube tem todas as condições para um jogador evoluir. O facto de termos descido para a Liga 3 foi algo menos bom. Todos podíamos ter feito um pouco mais… Foi uma época de aprendizagem. Este ano, estamos bem. Já garantimos a fase de subida e somos verdadeiros candidatos ao título.
Dividiu-se entre os sub-23 na Liga Revelação e a equipa principal na II Liga. A mudança constante de treinadores foi um obstáculo para que se afirmasse na principal equipa?
É um bocado por aí… Tivemos o mister Carlos Vaz Pinto e até acho que acabámos por melhorar com o mister Tiago [Ferreira], mas as mudanças foram muito repentinas. De dois em dois meses, estávamos a trocar de treinadores. Nos últimos cinco anos no Benfica tinha tido três treinadores. Num ano, no Mafra, tive o mesmo número… Torna-se um bocado difícil para conseguir assimilar as ideias de cada treinador. Isso pode ter dificultado.
Jovem internacional português reencontrou alguns antigos companheiros do Benfica, ao serviço do Mafra, no confronto (2-0) da época passada na II Liga.© Getty Images
Ultrapassada a mais recente lesão, tem somado minutos ao longos dos últimos jogos, embora a partir do banco. A oportunidade de chegar ao onze inicial estará ali ao virar da esquina? Diria que sim, mas ao mesmo tempo tenho de ter um bocado de noção. Tudo aconteceu numa altura em que a equipa meteu o pé no acelerador. Após a eliminação na Taça de Portugal, conseguimos quatro vitórias seguidas [na Liga 3]. Fisicamente, recuperar ritmo após lesão é um bocado difícil. Sentia que ainda não estava com capacidade para poder lutar pelo onze. Tudo muito realista nesse sentido. Quem lá está [no onze], está a fazer um ótimo trabalho. O último jogo que perdemos foi contra o Belenenses [2-1 no dia 9 de novembro] e aquilo nem devia ter sido uma derrota…
Só tenho de fazer o meu trabalho. Quando surgir a oportunidade, procurarei agarrá-la. No jogo frente ao Caldas (4-2), tive a oportunidade de surgir um pouco mais tempo para dar o meu máximo. Estive na jogada de um dos golos e foi importante. Os jogadores da minha posição estão bem e todos têm feito golo. Sou extremo, mas se for necessário poderei jogar na posição de lateral. Temos estado com excelentes resultados, pelo que a única coisa que posso fazer é trabalhar e esperar pela minha oportunidade. Num jogo que esteja empatado, por exemplo, posso fazer a diferença ao sair do banco.
Que Precatado podemos ter no próximo ano caso o Mafra regresse à II Liga?
Ficando no Mafra, aquilo que posso prometer é que vou dar tudo pelo clube. Enquanto equipa, já tivemos a experiência de II Liga e podemos aprender com os erros do passado. Isso é fundamental. É preciso é jogar. Assim estou mais perto de me destacar e, assim, de dar o próximo passo. O Mafra é o clube ideal para esse palco.
Se algum jogador disser que não gostaria de jogar no Benfica, estará a mentir. FC Porto e Sporting? A resposta seria igual.Sonha com o regresso ao Benfica?
O Benfica, pelo menos para mim, é o melhor clube de Portugal. Se algum jogador disser que não gostaria de jogar no Benfica, estará a mentir. Claro que seria um grande objetivo. FC Porto e Sporting? A resposta seria igual. São os três melhores clubes de Portugal.
Aos 21 anos, qual o maior sonho de carreira?
Um clube onde eu gostava muito de jogar seria o Borussia Dortmund. Jogar na Liga dos Campeões pelo Borussia Dortmund seria um dos meus melhores sonhos de carreira.
Já não representa as camadas jovens da seleção nacional desde 2023. Estando no Mafra, ainda é possível voltar ou é necessário um contexto diferente?
Pela porta dos sub-21, parece-me um pouco difícil. A verdade é que agora não estou a jogar tanto no Mafra, mas isto muda tudo muito rápido. De repente posso começar a jogar e ter uma chance. No ano passado, tivemos o caso do Lourenço Henriques, antigo colega no Benfica, que estava na Liga 3 [Varzim] e foi convocado para a seleção de sub-21. Quem me diz que não posso fazer igual? A verdade é que temos de olhar para os jogadores que lá estão, com titulares do FC Porto, do Sporting, do Club Brugge, do Olympique Lyon… Acaba por ser muito difícil porque é um espaço muito competitivo. Sendo realista, os sub-21 já deve ser tarde. Um dia, quem sabe se não posso chegar à seleção A. É trabalhar para isso.
Qual foi o treinador que mais o ajudou a evoluir?
Um treinador que eu gostei particularmente foi o Tiago Ferreira, que esteve nos sub-23 e depois na equipa principal, sobretudo pela forma como ele dá a confiança aos jogadores e aquilo que nos pede.
E no Benfica?
Lembro-me do Filipe Coelho, atual treinador adjunto do Strasbourg, nos sub-17 do Benfica. Gostei também do Nélson Veríssimo, apesar de as coisas não terem acontecido como eu queria.
Recuperado de lesão, José Precatado leva quatro jogos pela equipa principal do Mafra na presente temporada, ambicionando cada vez mais minutos, de olho na subida à II Liga.© Getty Images
Afinal, gosta de ser tratado por José Marques ou por Precatado?
Na formação [do Benfica], usava o primeiro e último nome, mas quando subi à equipa B passei a ter o nome Precatado na camisola. A partir daí, começou a ser só Precatado. Foi o que sempre quis. É diferente.
Nunca ponderou jogar numa posição diferente da de extremo?
Talvez a questão de ser lateral… Até me vejo a jogar numa linha de cinco. Acho que tenho capacidade para fazer a linha toda. Houve jogos mais complicados nos sub-19 [do Benfica] em que fizemos linha de cinco, onde acabei por jogar a lateral. Lembro-me do último jogo no campeonato de sub-19 [conquistado pelo Benfica em 2022], em que estava 0-0 aos 80 minutos e precisávamos de marcar golos. Metemos a carne toda no assador e eu entrei para a lateral. Acabámos por ganhar 3-0.
Quando terminar carreira, pondera tornar-se treinador ou manter-se ligado ao futebol?
Em relação a ser treinador, ainda não me surgiu aquele bichinho que a malta fala. Seria bom manter-me na área desportiva, como por exemplo em clínicas de alto rendimento. Tenho interesse na área da psicologia e da nutrição. Gosto imenso. São áreas que me vejo a explorar mais.
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Miguel Simões | 08:25 – 02/01/2026
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