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Gronelândia: “Não conseguimos mudar a posição dos EUA”, diz ministro dinamarquês

Gronelândia: “Não conseguimos mudar a posição dos EUA”, diz ministro dinamarquês

Ao cabo de menos de duas horas de reunião entre os ministros das Relações Exteriores da Dinamarca e da Gronelândia com o vice-presidente norte-americano JD Vance e com o secretário de Estado Marco Rubio, ficou tudo na mesma: os EUA insistem em controlar a ilha e os responsáveis políticos tanto da Dinamarca como da Gronelândia estabelecem com alternativa o aprofundamento da cooperação multilateral. O ministro das Relações Exteriores da Dinamarca, Lars Løkke Rasmussen, afirmou que o país deseja trabalhar com os Estados Unidos, mas que isso deve respeitar as linhas vermelhas estabelecidas pela parte europeia. “Podemos cooperar sem sermos controlados pelos EUA”. “Ainda temos uma discordância de fundo”.
A ministra das Relações Exteriores da Groenlândia, Vivian Motzfeldt, disse que é possível fortalecer a cooperação com os Estados Unidos, mas isso não significa que a Groenlândia queira ser sua propriedade. “Mostrámos onde estão os nossos limites”, acrescentou, dizendo que é do interesse de todos “encontrar o caminho certo”.
Para os participantes, a reunião foi construtiva e focada em questões de segurança. Mas o ministro dinamarquês insistiu que não existe nenhuma ameaça imediata da China ou da Rússia que o seu país não possa enfrentar.
Lars Rasmussen disse ainda que “Tivemos uma “discussão franca, mas também construtiva” com as autoridades americanas. “As nossas perspetivas continuam a divergir e ainda temos uma discordância de fundo”. “A Dinamarca acredita que a segurança a longo prazo da Gronelândia está acautelada no atual quadro regulatório”, pelo que “ideias que não respeitam a integridade territorial da Groenlândia são totalmente inaceitáveis. Continuaremos em diálogo e concordamos em formar um grupo de trabalho de alto nível que se reunirá dentro de algumas semanas”.
Antes do encontro, um grupo de trinta eurodeputados, incluindo a portuguesa Catarina Martins, escreveu esta quarta-feira uma carta a pedir para o Parlamento Europeu congelar a aprovação do acordo comercial com os Estados Unidos devido às ameaças sobre a Gronelândia. A carta, divulgada nas redes sociais pelo eurodeputado dinamarquês Per Clausen, é dirigida à presidente do Parlamento Europeu, Roberta Metsola, e a todos os líderes dos grupos políticos europeus, e foi subscrita por 30 eurodeputados, num total de 720 (4,2%).
Na cata, citada pela Lusa, os eurodeputados referem que o Parlamento Europeu “está prestes a concluir os trabalhos para aprovar (ou rejeitar) o acordo comercial fechado entre a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, e o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump”, este verão, estando prevista uma votação em plenário em fevereiro. “Caso avancemos e aprovemos este acordo que Trump viu como uma vitória pessoal, numa altura em que faz reivindicações sobre a Gronelândia e se recusa a excluir qualquer forma de as concretizar, isso será facilmente visto como dando-lhe uma recompensa a ele e às suas ações”, afirmam.
Para estes eurodeputados, de 13 Estados-membros da União e que pertencem aos grupos dos Socialistas e Democratas (S&D), Verdes Europeus e A Esquerda, “nem a Gronelândia, nem a Dinamarca, nem a UE sairiam beneficiadas” caso seja ratificado o acordo com os Estados Unidos no atual contexto. Nesse sentido, o grupo pede que o Parlamento Europeu “congele imediatamente qualquer trâmite relativo ao acordo comercial com os EUA enquanto forem feitas reivindicações ou ameaças sobre a Gronelândia” pela administração de Donald Trump.
Enquanto a reunião decorria, ou imediatamente antes, Donald Trump foi publicando nas redes sociais matéria sobre a Gronelândia, aumentando a pressão das negociações. Numa delas, apelava à Dinamarca para combater a alegada ameaça russa e chinesa à Gronelândia, para concluir que “só os EUA podem” fazer isso. Trump também partilhou um link para uma notícia sobre um relatório da inteligência dinamarquesa, publicado no mês passado, que alertava que “a Rússia, a China e os Estados Unidos têm interesses divergentes no Ártico, mas os três países procuram desempenhar um papel maior na região”.
Recorde-se que a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, prometeu também esta quarta-feira aos habitantes da Gronelândia que podem contar com o bloco para respeitar os seus direitos, interesses e aspirações. “O Ártico e a sua segurança é, sem qualquer dúvida, um tema para a UE”, disse em conferência de imprensa em Bruxelas, garantindo a importância de os habitantes da ilha saberem “por ações e não só palavras” que a UE os apoia em todas as circunstâncias. “Podem contar connosco”, afirmou.
Uma sondagem da Reuters/Ipsos revelou que cerca de 66% dos norte-americanos estão preocupados com o facto de os esforços dos Estados Unidos para tomarem o controlo da Gronelândia tenham um efeito negativo sobre a NATO e as relações do país com os seus aliados europeus.
Ao mesmo tempo que decorria a reunião em Washington, o ministro da Defesa dinamarquês, Troels Lund Poulsen, falava em conferência de imprensa em Copenhaga, para dizer que a Dinamarca aumentará a sua presença militar na Gronelândia e terá uma presença mais permanente no país no futuro, ao mesmo tempo que afirmava que “é improvável que um país membro da NATO ataque outro país membro da NATO.
“A partir de agora, haverá uma presença militar ampliada na Gronelândia e nas suas imediações, em estreita colaboração com aliados da NATO”, afirma por seu turno o governo dinamarquês em comunicado. Copenhaga disse ainda que exercícios e atividades navais e aéreas ocorrerão na ilha nas próximas semanas. A Dinamarca já começou a enviar equipamentos militares e tropas para a Gronelândia. Um avião da Força Aérea pousou na capital, Nuuk, esta segunda-feira, que teria a bordo uma divisão de soldados para estruturar a logística necessária para receber tropas.
Por outro lado, a Suécia vai enviar um grupo de militares para Gronelândia a pedido da Dinamarca, indicou o primeiro-ministro sueco, Ulf Kristersson. “Vários oficiais das Forças Armadas suecas chegam hoje (quarta-feira) à Gronelândia. Fazem parte de um grupo de diversos países aliados. Juntos, vão preparar-se para os próximos elementos do exercício dinamarquês Operação Arctic Endurance”, anunciou Ulf Kristersson.
A Noruega parece estar a juntar-se aos exercícios na Gronelândia: o ministro da Defesa norueguês, Tore O. Sandvik, disse de que dois militares noruegueses serão enviados para a ilha para “mapear uma maior cooperação entre os aliados”.
Segundo informações veiculadas pela imprensa norte-americana, Trump insistiu esta quarta-feira que o país “precisa da Gronelândia por razões de segurança nacional”, considerando a ilha como ponto vital para a Cúpula Dourada – o projeto de escudo antimíssil norte-americano que ‘copia’ o escudo que defende Israel. “Os Estados Unidos precisam da Gronelândia por razões de segurança nacional, é vital para a Cúpula Dourada que estamos a construir”, escreveu Trump nas redes sociais. E defendeu que “a NATO deve liderar o caminho” para que os Estados Unidos “conquistem” o território.
 

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