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Iberfar quer chegar aos 200 milhões com canábis medicinal

Iberfar quer chegar aos 200 milhões com canábis medicinal

Nas planícies do Alentejo, onde o sol brilha durante grande parte do ano e o clima é seco cresce uma das apostas mais discretas — e ambiciosas — da indústria farmacêutica portuguesa. Em Serpa, rodeada por campos dourados, a plantação de canábis medicinal sobressai pelo seu tom de verde. À primeira vista parece uma quinta agrícola, mas diferencia-se pelas cercas elétricas e videovigilância permanente. É aqui que se desenha um projeto que cruza ciência, indústria e uma ideia arrojada.
A história começou em 2018, quando Pedro Ferraz da Costa, presidente do grupo farmacêutico Iberfar e também do Fórum para a Competitividade, decidiu avançar para um território ainda pouco explorado em Portugal: a produção de medicamentos à base da planta de canábis. Dois anos depois, o Infarmed aprovou o projeto. Desde então, tudo o que ali se faz segue o rigor típico de um grupo farmacêutico já com provas dadas no mercado, — da semente ao doente.
A plantação ocupa atualmente cerca de 5,5 hectares ao ar livre, estando previstos planos de expansão para uma área entre os oito e os 10 hectares, com um pico de produção que poderá atingir as 100 toneladas anuais. O investimento total previsto até 2030 é de 25 milhões de euros e inclui também a reconstrução e ampliação da fábrica de Barcarena, com o objetivo de aumentar a capacidade produtiva do grupo em 50%.
“A meta é clara: alcançar um volume de negócios de 45 milhões de euros por ano, mas com as exportações — o principal motor de crescimento, a expetativa é mais ambiciosa, atingir os 200 milhões de euros”, afirma Pedro Ferraz da Costa. A Alemanha já deu luz verde à entrada dos produtos portugueses no seu mercado, assim como a França e há um pré-acordo com a Inglaterra.
Segundo Pedro Ferraz da Costa, os passos têm sido dados lentamente, mas firmes. Atualmente, a empresa tem seis medicamentos à base de canábis aprovados pelo Infarmed, estando mais dois em fase final de avaliação e outros três em testes clínicos.
O primeiro ensaio clínico com canábis medicinal em Portugal também já foi aprovado em 2025 pelas autoridades competentes. “Este é um marco que muito nos orgulha e nos motiva a continuar empenhados no desenvolvimento da inovação científica e em contribuir para a melhoria da qualidade de vida dos doentes”, diz. A empresa vai iniciar os ensaios clínicos sobre redução da dor crónica numa unidade em Braga. Coimbra está também em negociações e o IPO de Lisboa tem estado a testar o óleo no tratamento de feridas difíceis de sarar em doentes oncológicos. Ferraz da Costa confessa que este tem sido um caminho infernal de percorrer.
Questionado sobre se já se arrependeu de ter investido nesta área de negócio, responde sem hesitar: “Não! Acho isto fascinante”, mas admite os riscos que corre porque sabe que nem todos olham com bons olhos para este tipo de investimento, ou seja, apostar num produto associado a um estilo de vida mais “hippie”, podendo, por conseguinte, prejudicar o legado que já construiu na área farmacêutica. Contudo, Pedro Ferraz da Costa afirma nunca ter hesitado e de ter tido e ter a coragem de tentar ajudar os doentes que vivem situações dramáticas e precisam deste tipo de fármacos.
A produção agrícola alimenta uma cadeia integrada que o grupo estruturou através da FAI Therapeutics, empresa criada em 2022 para assegurar todo o processo, desde o cultivo, extração, investigação e desenvolvimento, formulação e comercialização. “A plantação foi semeada numa terra pouco explorada. Além disso como é produzida ao ar livre, o sol funciona como um poderoso desinfetante, pelo que as nossas plantas têm muita qualidade”, diz.
Outro fator destacado é o facto de como a plantação fica a três horas de Lisboa, as plantas chegarem frescas à fábrica. O gestor realça também a redução do custo de produção e a menor pegada ecológica. A empresa emprega sazonalmente 30 pessoas e orgulha-se de ter uma força de trabalho 100% nacional, incluindo alguns colaboradores com mais de 60 anos.
No entanto, a realidade interna ainda enfrenta desafios. Os medicamentos não são comparticipados pelo Serviço Nacional de Saúde e continuam a ser prescritos por um número reduzido de médicos. Pedro Ferraz da Costa reconhece o desafio, mas mantém-se otimista. “Os produtos que saem de Portugal oferecem garantias de segurança e qualidade aos mercados internacionais. Agora é preciso que essa confiança chegue também aos doentes portugueses”, diz.
Outros problemas apontados relacionam-se com as dores de crescimento do negócio. “Estamos a considerar investir em 40 hectares de olival, pois o azeite é fundamental para a fabricação dos óleos. No entanto, para aumentarmos a produção da canábis e com o olival precisamos de mais água. Já fizemos o estudo de viabilidade, mas ainda não obtivemos autorização para avançar. Além disso, estão a braços com alguns subprodutos que no entender do presidente podem ser reaproveitados e que neste momento estão a ser incinerados.
João Moura, secretário de Estado da Agricultura visitou a fábrica da Iberfar no dia da entrevista do Jornal Económico e ouviu o empresário, tendo-se comprometido a analisar junto do Ministério da Agricultura a questão dos resíduos, “uma vez que tudo o que é natural, produto da terra e puder ser valorizado não deve ir para aterro”.

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