Da Austrália à Argentina, passando pelo Congo. O que liga estes países?
Começar um texto por uma citação pode provocar uma espécie de náusea em certos leitores. No caso, não é petulância, apenas uma frase certeira. “Pergunte sempre a cada ideia: a quem serves?”. Brecht não imaginou, ao escrevê-la, que viria a ser usada nesta conversa com David Gought e Walter Demirci. E a quem serve a ideia deste duo? Aos leitores. Mas também a eles, aficionados de Literatura (com maiúscula, claro), com quem falámos às “sete semanas” de vida da Gondwana. Uma das mais recentes livrarias a abrir portas em Lisboa.
O nome, obviamente, não é fruto do acaso. Remete para a designação do continente hipotético que ligaria as atuais América do Sul, Índia, Austrália e Antártida. O “hipotético” não os incomodou. Dava sentido ao conceito que tinham em mente: uma livraria dedicada à literatura do hemisfério sul. E não, não corresponde ao Sul Global, conceito político/geopolítico, que também pode englobar países do hemisfério norte.
Cidadãos do mundo, os fundadores da Gondwana partilham o hemisfério sul como berço. David nasceu na África do Sul e trabalhou muitos anos na área das microfinanças, numa organização fundada pelo Prémio Nobel da Paz Muhammad Yunus. Viveu no Canadá e nos EUA, e trabalhou na América Latina e Ásia Central, explica ao JE este sul-africano formado em finanças. Walter é argentino e trabalhou duas décadas na área das relações-públicas, sobretudo com governos, para o desenvolvimento de turismo sustentável e cultural.
De Nova Iorque a Lisboa
Conheceram-se na Grande Maçã. Cansaram-se do frenesi nova-iorquino e, desiludidos com o Sr. Trump e suas diatribes, que envolviam beber lixívia para sanar um malfadado vírus, decidiram começar uma vida nova, num país novo, numa cidade não tão nova para eles. Lisboa.
Onde vieram várias vezes de férias e onde se redescobriram numa vida também ela nova. Daí à Gondwana não foi um tirinho, mas um ano e meio em busca do espaço onde as escolhas de dois leitores compulsivos se abrem aos leitores que os procuram. Foi um acaso que levou David a passar pela Avenida Óscar Monteiro Torres. O letreiro e um telefonema fizeram o resto. Habemus livraria, que antes foi uma pastelaria e que hoje guarda vestígios dessa vida anterior.
Ecletismo. Como aquele que encontramos nas prateleiras habitadas por livros, “qual gabinete de curiosidades, onde qualquer livro que escolha pode ser uma porta de entrada para o espírito da literatura do Hemisfério Sul”. [sorrisos] Os mentores da Gondwana falam português. “Com sotaque”, frisa David, rindo. Não é isso que impede a comunicação. Pelo contrário, acrescenta-lhe musicalidade. “A maior parte dos nossos amigos são portugueses. E até aqueles que inicialmente falavam connosco em inglês, agora já conversam em português”, realça Walter, visivelmente satisfeito.
Os vizinhos, mais próximos e não só, “receberam-nos muito bem”, sublinha David. Mesmo durante as obras, deram-nos um apoio imenso”, acrescenta. “E são leitores ativos, trazem ideias e sugestões”, completa Walter, antes de confirmar que a maior parte dos clientes “estão abertos a novas propostas. Também vêm cá porque querem descobrir coisas novas”. E solta o entusiasmo. “Nós vendemos autores que são do sul do Equador. Há autores que eles já conhecem, especialmente se forem lusófonos. Mas o que foi para nós uma surpresa enorme – porque vendemos muitos títulos que nunca foram traduzidos ao português – é vendermos muito na língua original. Pode ser inglês, espanhol, francês”. A surpresa, admite Walter, foi ainda maior no que toca ao volume de vendas de livros em espanhol.
Não há hierarquia, há conexões
No total, entre livraria e pequeno armazém, haverá cerca de mil títulos disponíveis. 700 em exposição, pois gostam de ir rodando. E o que liga países de latitudes tão distintas? “Aqui, um escritor da Indonésia pode partilhar a prateleira com um romancista da Bolívia porque estão em conversa sobre a memória. Uma memória do Zimbabué pode estar ao lado de uma fábula chilena porque ambas falam com os fantasmas da terra”. Resumindo, as diversas vozes que habitam a Gondwana são organizadas em torno das suas ideias. Voltamos a Brecht?
Não é preciso, pois a conversa já seguiu outro rumo. Falamos de um singelo antídoto para a obsessão por algoritmos e pelo eterno scrolling na atualidade: conexões. E nada melhor do que explorar as duas acolhedoras salas e um recanto (onde tanto pode saborear um chá fumegante como um copo de vinho), perdendo-se aqui e ali nas tais conexões. E se quiser uma sugestão, basta pedir. Foi o que fizemos. Um livro cada um.
David destaca “Modo Linterna”, do argentino Sergio Chejfec, pela sua escrita subtil e “porque entra na nossa mente como que por osmose” [risos]. Walter escolhe “Demain j’aurais 20 ans”, do autor franco-congolês Alain Mabackou, atualmente a viver nos Estados Unidos, onde leciona literatura francesa na Universidade de Califórnia. “Não é um livro autobiográfico. É uma história que fala da política global nos anos 70, na perspetiva de um rapaz de dez anos que está a crescer no Congo. É duro, mas tem muito humor”.
Já sabemos que o público da Gondwana é aberto à descoberta e ficámos também a saber que a grande maioria, 90%, são portugueses.
Étransversal e muitos vêm “com uma recomendação de amigos, vizinhos”. Aopassa-palavra juta-se “uma clientela que vem da Faculdade de Letras e gente que trabalha na indústria do cinema, em busca de ideias novas ou de outras perspetivas”, conta Walter. Dar e receber poderia ser a fórmula ‘gondwaniana’. A ideia agrada-lhes, mas David confessa que, acima de tudo, querem vir a ser “ um polo cultural bem integrado na vida cultural de Lisboa. Porque a cidade tem uma oferta cultural muito intensa e nós queremos fazer parte dela.”
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