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IETI Lança em Davos plano de cinco pilares para a competitividade ibérica

IETI Lança em Davos plano de cinco pilares para a competitividade ibérica

No âmbito da Reunião Anual do Fórum Económico Mundial, a Iniciativa Ibérica para a Indústria e Transição Energética (IETI) apresentou esta quarta-feira a sua visão estratégica para a reindustrialização da Europa.
O índice da IETI acompanha 21 indicadores que permitem compreender o progresso da transição energética e da reindustrialização em Portugal e Espanha.
Portugal e Espanha podem estar na linha da frente da competitividade europeia. Com recursos naturais que se traduzem numa vantagem de cerca de 20% nos custos da energia renovável e uma base sólida em combustíveis renováveis, os dois países podem reindustrializar-se mais rapidamente – apoiando-se em infraestruturas robustas e fortes capacidades industriais – impulsionando o crescimento económico e reforçando a autonomia estratégica. Esta foi a mensagem central da IETI em Davos.
“A implementação de energias renováveis (35% do mix em Portugal), os preços da energia (-27% em Espanha face à média da UE) e a adoção da mobilidade elétrica (40% das vendas de veículos em Portugal) registaram evoluções particularmente positivas. No entanto, continuam a ser necessários incentivos ao investimento nas redes elétricas e à adoção de moléculas renováveis”, defende a IETI.
Pelo segundo ano consecutivo, o grupo liderado pela McKinsey & Company e por gigantes industriais como ACS, EDP, Galp, Iberdrola, Moeve, Naturgy, Repsol e Técnicas Reunidas, defendeu que a Península Ibérica é o motor essencial para a competitividade e autonomia estratégica do continente.
O Índice da IETI, agora atualizado, revela os progressos do último ano e estabelece cinco iniciativas prioritárias para o futuro.
Segundo a análise da McKinsey & Company, Portugal e Espanha têm o potencial conjunto de gerar até 1 bilião de euros em valor acrescentado e criar cerca de 1 milhão de postos de trabalho até 2030.
A urgência dominou as discussões da IETI em Davos este ano. Num apelo direto à ação, líderes e participantes sublinharam que a competitividade europeia depende agora de uma execução célere e de uma liderança corajosa.
Com ativos energéticos e industriais únicos, a Península Ibérica foi apontada como a região estratégica para liderar a transição verde e tecnológica da União Europeia.
Para concretizar este potencial, a IETI identificou cinco iniciativas prioritárias que visam remover obstáculos e acelerar o investimento. A primeira refere-se a “Ecossistemas Industriais de Escala”. Aqui o foco recai na criação de polos estratégicos em áreas como a IA, defesa, baterias e combustíveis renováveis. A IETI defende uma coordenação estreita com a estratégia europeia, utilizando garantias públicas para assegurar a procura e replicando modelos de sucesso, como o Plano Auto 2030 de Espanha, para escalar indústrias de nova geração.
A segunda iniciativa consiste numa “Regulação Amiga do Investimento”. O grupo apela à simplificação radical dos processos. A proposta inclui a implementação do 28.º regime europeu, a criação de “balcões únicos” para investidores e a utilização de Contratos por Diferença (CfDs). O objetivo é um quadro regulatório estável, assente na neutralidade tecnológica, que reduza drasticamente os custos de contexto.
A terceira refere-se ao tem das infraestruturas, e do “gargalo” a resolver.
A situação das redes elétricas é crítica. Com mais de 70 empresas industriais em Espanha a reportar dificuldades no acesso à rede, a IETI urge à revisão dos regimes de remuneração para acelerar o investimento em armazenamento, logística e transporte de energia, garantindo que a capacidade de construção acompanha a ambição climática, defendeu a IETI.
Por outro lado surge a necessidade de inovação “first-of-a-kind”. Portugal e Espanha devem reforçar o investimento em I&D através de incentivos fiscais e centros de excelência. O foco deve estar no cofinanciamento de tecnologias de descarbonização pioneiras, garantindo que a inovação industrial ocorre em solo europeu.
A quinta iniciativa prende-se com o choque de produtividade e talento. Para combater a escassez de mão-de-obra qualificada, o plano prevê programas de up-skilling em larga escala e o uso de IA para potenciar a produtividade. A IETI propõe ainda uma política fiscal mais competitiva e a criação de vistos dedicados para atrair e reter os melhores talentos globais.

“A resiliência da Europa passará pela capacidade de Portugal e Espanha transformarem as suas vantagens geográficas e energéticas em soberania industrial efetiva”.

“A oportunidade é clara, mas a janela de ação está a reduzir-se”, refere o comunicado da IETI. A mensagem saída de Davos é inequívoca: a resiliência da Europa passará pela capacidade de Portugal e Espanha transformarem as suas vantagens geográficas e energéticas em soberania industrial efetiva.
A apresentação ocorreu numa sessão de trabalho de alto nível que contou com a presença de Enrico Letta (autor do Relatório Letta), Cristina Lobillo (Diretora de Política Energética da Comissão Europeia) e os principais CEOs das empresas que integram a iniciativa.
Os líderes reunidos em Davos alertaram para a “posição frágil” da indústria europeia, marcada por uma produtividade inferior à de outros blocos económicos, fragmentação regulatória e atrasos na inovação. Neste cenário, a transição energética surge não apenas como uma meta ambiental, mas como o catalisador para relançar a economia.
O acesso a energia renovável de baixo custo e a segurança no abastecimento são vistos como os pilares do novo modelo de crescimento. Este movimento promete modernizar setores consolidados — como o cimento, o aço e o automóvel — e impulsionar indústrias emergentes, nomeadamente centros de dados, baterias e moléculas renováveis.
Ao aprofundar estas cadeias de valor, a IETI sustenta que a Península Ibérica está na linha da frente para atrair o investimento necessário que garantirá uma Europa mais resiliente, competitiva e preparada para os desafios geopolíticos de 2026 e das décadas seguintes.
O que dizem os CEO?
Miguel Stilwell, CEO da EDP: “A Península Ibérica já demonstrou que a energia limpa é escalável. A vantagem competitiva da Europa já não virá de mais regulação, mas sim de uma execução mais rápida ­ com processos de licenciamento mais simples e céleres, regras estáveis e previsíveis e redes elétricas modernas e interligadas. Se executarem isto bem, Portugal e Espanha poderão tornar-se um polo de atração para indústrias intensivas em energia e desbloquear até €1 bilião de euros em valor até 2030, impulsionando o PIB em cerca de 15%, aumentando as exportações industriais em aproximadamente 20% e criando cerca de 1 milhão de empregos, maioritariamente qualificados”.
Maria João Carioca, Co-CEO e CFO da Galp, e João Diogo Marques da Silva, Co-CEO e EVP Comercial da Galp: “A transição energética representa uma oportunidade única para reindustrializar a Europa, e a Península Ibérica está particularmente bem posicionada para liderar esta transformação. Portugal e Espanha combinam recursos abundantes, uma base industrial sólida e o talento necessário para desempenhar um papel decisivo no reforço da competitividade europeia. Para transformar potencial em realidade, são necessários enquadramentos claros e previsíveis que viabilizem investimento de longo prazo, acelerem a implementação de infraestruturas e apoiem a escalabilidade de soluções de baixo carbono. Com as condições certas, a Península Ibérica pode tornar-se um pilar da segurança energética, da resiliência industrial e do crescimento sustentável da Europa.”
Agustín Delgado Martín, Chief Innovation and Sustainability Officer da Iberdrola:
“A eletrificação é imparável: tudo o que transforma as nossas vidas funciona com eletricidade. A procura crescerá de forma significativa na climatização de edifícios, nos transportes, na indústria e nos novos usos associados à digitalização, o que tornará necessário dispor de mais redes elétricas, mais armazenamento e mais energias renováveis — recursos endógenos que podem ser implementados rapidamente e que proporcionam preços estáveis e competitividade, além de gerarem indústria e emprego.
A Europa, tal como os Estados Unidos, necessita de autonomia estratégica: aproveitar os seus próprios recursos e dar sinais claros aos investidores através de estabilidade regulatória, planeamento e licenciamento ágil. Na Iberdrola, investimos há décadas com base nestes princípios, com uma forte presença local, para que cada euro investido se traduza em mais emprego e mais indústria.”
Maarten Wetselaar, Chief Executive Officer da Moeve: “O mais recente relatório da IETI demonstra um forte dinamismo da transição energética em Espanha e Portugal, mas é agora necessário acelerar ­ implementando soluções de energia limpa, escalando a procura e construindo infraestruturas transfronteiriças que permitam transportar a abundante energia da Península Ibérica para onde a Europa mais precisa. É isso que transformará o impulso atual numa verdadeira vantagem competitiva e numa maior segurança energética para a Europa.”
Francisco Reynes, Executive Chairman da Naturgy: “Devemos promover a inovação como a principal alavanca do desenvolvimento futuro. Para isso, são essenciais vários fatores: fomentar a ambição, não recear o fracasso, assegurar o acesso a financiamento competitivo, disponibilizar incentivos fiscais e simplificar os processos administrativos de licenciamento. Temos ainda a vantagem de contar com executivos bem preparados e com um acesso facilitado ao capital.”
Josu Jon Imaz, Chief Executive Officer da Repsol: “Iniciativas como a simplificação através de pacotes ‘omnibus’, a reavaliação de alguns setores e das políticas industriais, bem como a nova proposta relativa às normas de emissões de CO₂ para veículos ligeiros, estão a orientar a União Europeia na direção certa. No entanto, isso não é suficiente, sendo necessárias medidas mais concretas, coerentes e escaláveis. O atual contexto geopolítico apenas reforça a urgência de uma ação acelerada. Daqui em diante, é essencial ultrapassar uma abordagem regulatória fragmentada e garantir coordenação e equilíbrio entre as políticas climática, de transportes e industrial, preservando simultaneamente o princípio da neutralidade tecnológica e uma abordagem assente na cadeia de valor.”
Juan Lladó, Executive Chairman da Técnicas Reunidas: “A transição energética oferece uma oportunidade única para a Europa reconstruir a sua base industrial através de soluções escaláveis e competitivas. Desbloquear este potencial exige uma colaboração público-privada sem precedentes e uma execução mais eficiente dos projetos, removendo estrangulamentos no licenciamento, nas redes e no financiamento de novas tecnologias de baixo carbono. Com a sua vantagem em energia limpa e a sua reconhecida capacidade de engenharia, a Península Ibérica pode desempenhar um papel central neste esforço”.

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