Refinaria de Sines deve ser controlada por Portugal, defende ministro da Economia
O ministro da Economia defendeu esta quarta-feira que Portugal deveria continuar a controlar totalmente a refinaria de Sines.
Manuel Castro Almeida estava a comentar a fusão entre a Galp e os espanhóis da Moeve, uma operação que prevê que a refinaria de Sines passe para uma sociedade em que a Galp fica com 20% e o restante nas mãos da energética espanhola: a IndustrialCo vai agregar a refinaria de Sines às duas da Moeve no sul de Espanha, Huelva e Cádiz.
“Era melhor termos uma refinaria totalmente controlada a partir de Lisboa”, defendeu hoje o governante. “É a única refinaria portuguesa que tem peso relevante na nossa economia e na soberania do país”.
“Da conversa que tivemos, percebi que a empresa está ciente disso. Nas negociações, esta questão está em cima da mesa. O Governo está a acompanhar as negociações para procurar garantir o máximo de preservação em matéria energética”, afirmou na conferência “Conversa Capital” organizada pelo “Jornal de Negócios/Antena 1”.
“Esta é a preocupação que temos de ter. Se queremos exercer bem esta preocupação, quanto menos falarmos publicamente sobre isto, melhor”, acrescentou. “O próprio interesse imediato da empresa pode não ser o próprio interesse de longo prazo. Haveremos de conseguir uma situação equilibrada que acautela o mais possível o interesse estratégico de Portugal”.
“Há questões de concorrência, de defesa dos trabalhadores… aí estou mais tranquilo, a lei resolve isso. Já as questões da soberania estratégica são as mais relevantes”, disse.
O Estado português detém mais de 8,2% na estrutura acionista da Galp, através da Parpública.
A refinaria de Sines abastece 90% dos combustíveis consumidores em Portugal, sendo crucial para a independência energética do país. Mais. É a maior empresa exportadora a nível nacional. A Moeve conta com refinarias em Huelva e em Cadiz.
A fusão entre a Galp e a Moeve vai dar origem a uma empresa com 3.500 postos de abastecimento em Portugal e Espanha, detida em partes iguais pela Galp e pela Moeve.
Já a empresa industrial, vai ser detida a 20% pela Galp e a 80% pela Moeve e vai ter a capacidade para processar 700 mil barris diários de petróleo e combustíveis, com três refinarias: Sines, mais Huelva e Cadiz. Juntando tudo, esta fusão vai gerar mais de 2,8 mil milhões de euros por ano.
No Parlamento, o PCP já enviou perguntas à ministra do Ambiente e ao ministro das Finanças sobre este negócio. “Perante uma empresa estratégica para a economia nacional, e na qual o estado português detém 8,2% do capital, qual a posição do Governo português face a esta operação?”.
“Como pretende o governo português salvaguardar o futuro da Refinaria de Sines, e a capacidade soberana do País de proceder à refinação de produtos petrolíferos, no quadro do negócio em curso entre a Galp e a Moeve?”, segundo o PCP.
“Avaliou o Governo os impactos para a soberania económica do País da transferência para as mãos de capital estrangeiro de áreas nevrálgicas de uma das mais importantes empresas nacionais”, pode-se ler no requerimento.
Galp passa a ter “influência” sobre três refinarias, diz ministra
A ministra do Ambiente e da Energia está otimista sobre o negócio entre a Galp e a Moeve. Esta operação implica que a refinaria de Sines passa para uma sociedade onde a Galp deverá ficar com uma participação de 20%, com os restantes 80% a serem detidos pela empresa espanhola.
“Eu vejo isto por outro prisma: quando diz que perdemos o controlo de uma refinaria, eu digo que ganhamos o controlo de outras duas. Em Espanha, há duas… vão ser três refinarias em que a Galp passa a ter uma influência”, disse a ministra do Ambiente e da Energia ao JE a 13 de janeiro quando foi questionada se o negócio poderia ser chumbado pelo Governo com base na lei da salvaguarda dos ativos estratégicos.
A refinaria de Sines abastece 90% dos combustíveis consumidores em Portugal, sendo crucial para a independência energética do país. Mais. É a maior empresa exportadora a nível nacional. A Moeve conta com refinarias em Huelva e em Cadiz.
Maria da Graça Carvalho destacou que este dossier envolve o seu gabinete, mas também os gabinetes do primeiro-ministro e ministros das Finanças e da Economia.
“Temos que continuar a discutir este assunto. Há um ano para as duas empresas privadas negociarem as condições. Estamos no início do processo. Se correr bem, ficamos com uma empresa de grande dimensão”, acrescentou.
“Vamos acompanhar muito de perto todo o assunto. Estamos conscientes das vantagens e desvantagens. Estamos convencidos de que vai ser positivo. Vai dar massa crítica grande à empresa a nível ibérico e mundial”, defendeu a governante.
A governante destacou que uma “empresa de grande dimensão traz vantagens: mais investimento, mais criação de riqueza, mais emprego. A dimensão neste momento é importante, há uma grande competição”.
Destacando que na Europa “houve uma redução grande do número de refinarias”, a possibilidade de vir a ser criado um “grupo forte a defender estas refinarias é muito importante”.
Maria da Graça Carvalho destacou a importância da aposta que está a ser feita na refinaria de Sines, com o investimento em combustíveis para aviação de menor carbono (SAF) e biocombustíveis.
“Tem tudo o que é preciso para uma descarbonização. É importante termos uma empresa forte”,
Questionada se a soberania energética nacional está em risco, rejeita essa possibilidade. “Sou muito apologista de um mercado aberto. Temos muito a ganhar com um mercado aberto. Quem se fecha é porque tem medo”.
Este tipo de operação “está a acontecer por todo o mundo. Pode ser positivo para todos nós”, defendeu.
A posição da ministra do Ambiente já levou a Comissão de Trabalhadores da Galp a reagir: “Não, senhora ministra. A Galp não vai ser muito maior do que é hoje, ao contrário, vai ser menor”, segundo um comunicado recente citado pela “Lusa”.
Para os trabalhadores da energética, a ministra “até inventou que com uma posição a rondar os 20% na empresa a ser criada (…) a Galp passará a ter duas refinarias em Espanha. Esta posição é inaceitável e expõe a cumplicidade da ministra mas, sobretudo, o grau de deturpação da realidade a que está disposta a assumir para justificar mais um negócio desastroso para o país”.
Repsol é o alvo a abater na nova empresa que junta Galp e espanhóis
A fusão entre a Galp e a Moeve vai dar origem a uma empresa com 3.500 postos de abastecimento em Portugal e Espanha e vai ter a capacidade para processar 700 mil barris diários de petróleo e combustíveis. Juntando tudo, esta fusão vai gerar mais de 2,8 mil milhões de euros por ano.
A Galp e os espanhóis da Moeve vão juntar esforços para criar uma grande rede ibérica de postos de combustível, que fica numa empresa chamada RetailCo. Ao mesmo tempo, criam um dos maiores grupos a nível europeu em termos de refinação, isto é, a produção de combustíveis a partir de petróleo, uma sociedade com o nome de IndustrialCo.
A fusão dos postos de combustível da Galp e da Moeve vai fazer frente à gigante espanhola Repsol. A nova empresa – RetailCo – vai ficar com 3.500 estações de serviço na Península Ibérica.
A companhia passa a deter uma quota de 30% deste lado da fronteira e de 18% no outro lado da raia. A Repsol lidera em Espanha com uma quota de 25%.
Isto inclui 960 estações de serviço em Portugal (mais de 700 da Galp e mais de 250 da Moeve). Em Espanha, são 1.500 da Moeve, mais de 500 da Galp e 350 da gasolineira low-cost Ballenoil, comprada em 2023 pela Moeve. A estes valores é preciso incluir os postos de operadores independentes que usam as marcas.
A Galp lidera em Portugal em número de postos, mas em Espanha a grande líder é a Repsol com mais de 3.220 postos, seguida da Moeve. Em Portugal, a Repsol ocupa a segunda posição com mais de 500 postos e uma quota de 16%.
Somando os dois países, a Repsol conta com mais de 3.700 postos de venda (23%) face aos 3.500 do novo grupo que fica com uma quota de 22%, muito próximo da Repsol.
Olhando para o negócio da refinação, a Repsol conta com quatro refinarias em Espanha: Corunha, Tarragona, Cartagena e Puertollano, com capacidade para processar 670 mil barris diários, 45% do total do país, segundo os dados do “Cinco Dias”.
Já a Moeve conta com duas refinarias na Andaluzia: Cádiz e Huelva com uma capacidade de processamento de 468 mil barris, mais de 31% da capacidade em Espanha. Por sua vez, a refinaria de Sines da Galp conta com uma capacidade diária de 220 mil barris. Desta forma, a capacidade industrial do novo grupo fica com uma capacidade de produção de combustíveis de 700 mil barris diários, conforme apontam, ultrapassando a Repsol.
Para ter uma ideia da escala a nível europeu, uma das maiores refinadoras da Europa, a francesa TotalEnergies, produz diariamente quase 1,5 milhões de barris por dia em várias refinarias em vários países. Já os americanos da Exxon Mobil contam com quatro refinarias em diferentes países europeus produzindo mais de um milhão de barris.
A “Reuters” destacava na quinta-feira que esta fusão vai dar origem a uma das “maiores refinadoras europeias”.
De Espanha, chegaram notícias de que dada a importância destes ativos energéticos – as refinarias -, ambas as petrolíferas informaram antecipadamente os governos de Portugal e de Espanha desta operação, O JE pediu reações aos ministérios da Economia e do Ambiente e Energia, mas não obteve respostas.
A Galp obteve o seu segundo maior lucro de sempre em 2024, com 961 milhões com um EBITDA de 3,3 mil milhões, com 60% a terem origem no petróleo. Já a Cepsa obteve lucros de 92 milhões em 2024 face a prejuízos em 2023, impactada negativamente pelo preços dos combustíveis fósseis, descida nas margens de refinação e o impacto do imposto extraordinário em Espanha. Já o lucro líquido ajustado atingiu 444 milhões. O seu EBITDA atingiu mais de 1,8 mil milhões de euros.
A companhia tem feito um esforço para vender ativos fósseis nos últimos anos, com a venda da sua unidade de gás engarrafado e da venda de ativos de de petróleo no Suriname, Colômbia, Peru ou Abu Dhabi.
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