Madeira aquece dois terços das casas em Portugal
Enquanto o debate energético se concentra na eletricidade renovável, a biomassa continua a aquecer silenciosamente dois terços das casas portuguesas (66,6%), segundo o Balanço Energético Nacional da Direção-Geral de Energia e Geologia (DGEG), publicado em outubro de 2025. A indústria surge como o segundo maior consumidor (30,6%), seguindo-se os serviços (2,4%), com a agricultura, pescas e transportes a terem um peso residual de 0,2%.
Em 2024, a biomassa representou 6,9% do consumo final de energia em Portugal. “É um valor subestimado no debate público, dominado pela eletricidade e pelos transportes, mas que ganha outra dimensão quando se olha para o mercado do calor”, afirma João Pedro Bernardo, presidente do Conselho de Administração do Centro de Biomassa para a Energia (CBE).
A biomassa é há décadas um pilar do aquecimento nacional, apesar de raramente surgir nas manchetes. O desafio, sublinha, “não é aumentar indiscriminadamente o consumo, mas modernizar equipamentos, garantir qualidade do combustível e alinhar a biomassa com as políticas climáticas, florestais e de qualidade do ar”.
Os números ajudam a explicar o paradoxo. Segundo o Relatório do Estado do Ambiente da Agência Portuguesa do Ambiente, a biomassa foi responsável por 42,5% da produção de energia renovável em 2023, superando a eletricidade renovável. Em 2024, a produção doméstica de biomassa (3.529 ktep) quase igualou a da eletricidade renovável (3.466 ktep). Ainda assim, cerca de dois terços da biomassa primária são consumidos em processos de transformação, como eletricidade e cogeração, reduzindo a sua visibilidade no consumo final direto.
Do ponto de vista económico, a biomassa pode ser competitiva no custo do calor útil, sobretudo face à eletricidade resistiva ou a combustíveis fósseis como o GPL ou o gasóleo.
No primeiro semestre de 2024, o preço médio da eletricidade doméstica rondava os 0,24 euros/kWh, enquanto o gás natural se situava perto dos 0,15 euros/kWh. Após os picos de 2022, os pellets estabilizaram em 2023-2024 nos 0,33 euros/kg, valor que pode traduzir-se num custo por kWh útil inferior ao da eletricidade e, em certos períodos, competitivo com o gás.
As bombas de calor surgem, contudo, como concorrentes diretas, sobretudo em edifícios bem isolados. “A biomassa não é um substituto universal da eletrificação, mas um complemento estratégico onde a eletrificação total é mais difícil ou dispendiosa”, defende o presidente do CBE.
O principal limite ao crescimento da biomassa está na qualidade do ar, sobretudo em zonas urbanas. A regulamentação europeia Ecodesign impôs limites mais exigentes às emissões e requisitos mínimos de eficiência, tornando a substituição de equipamentos antigos por soluções modernas de pellets decisiva. “Quando se queima lenha ou biomassa não estamos sempre a falar do mesmo processo porque há muitas variáveis que estão em jogo desde a recolha, preparação e utilização deste combustível endógeno”, alerta João Pedro Bernardo.
Portugal é um produtor relevante de pellets, com 750 a 800 mil toneladas anuais, mantendo um perfil exportador, embora o consumo interno esteja a crescer. Segundo o CBE, este rondará algumas centenas de milhares de toneladas por ano, valor consistente com o peso da biomassa no aquecimento doméstico. Para os lares portugueses, os pellets são melhores para habitações com necessidades térmicas significativas, espaço de armazenamento e acesso a equipamentos modernos.
Contudo, há um aceso debate ao redor deste produto pelo uso da madeira que no entender dos ambientalistas poderia ser aproveitada em áreas mais nobres. João Pedro Bernardo refere ainda que a valorização da biomassa para a energia só deve recorrer a frações da madeira (sobrantes) que não sejam interessantes ou utilizadas na fileira das indústrias florestais. “Não se trata de uma competição, mas de uma complementariedade para fechar a cadeia de valor”. O consenso setorial aponta para um futuro em que a biomassa continuará relevante no aquecimento, mas de forma mais seletiva e regulada. “O futuro não está em queimar mais, mas em queimar melhor”, acredita, João Pedro Bernardo.
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