Risco climático: Exposição das seguradoras em Portugal ultrapassa um bilião de euros
“Estima-se que a exposição agregada do setor segurador aos riscos climáticos físicos, associados à carteira de apólices de seguro de incêndio e multirriscos, tenha evoluído para cerca de 1.010 mil milhões de euros (o que traduz um aumento de 11,7%).
Esta exposição agregada distribui-se por níveis de riscos diferenciados ao longo do território, e reflete predominantemente o segmento de habitação e a cobertura de edifícios”, refere o Relatório Anual de Exposição ao Risco Climático 2025 da Autoridade de Supervisão de Seguros e Fundos de Pensões (ASF).
A ASF alerta para a necessidade urgente de mecanismos nacionais de resiliência e lembra que o novo relatório aponta um crescimento de 11,7% na exposição a riscos físicos, numa altura em que a tempestade Kristin sublinha a vulnerabilidade do país.
A crescente gravidade dos fenómenos meteorológicos extremos está a colocar pressão sem precedentes sobre o sistema financeiro português, diz a ASF.
Para o presidente da ASF, Gabriel Bernardino, o país não pode continuar a depender de respostas isoladas. “A crescente materialidade dos riscos de catástrofes naturais exige soluções que ultrapassem a capacidade de resposta individual”, afirma Bernardino na nota de abertura do relatório.
O supervisor defende a criação de mecanismos de resiliência partilhada, envolvendo o Estado e os privados, para colmatar a “lacuna de proteção” — uma percentagem significativa de agentes económicos e famílias continua sem qualquer seguro contra fenómenos extremos.
Retrato do Risco: Incêndios e Inundações
O RAERC 2025 detalha onde se concentra o perigo. Desde logo no “incêndio rural”. Embora a maioria do capital seguro esteja em zonas urbanas de risco baixo, persistem concentrações críticas de risco médio a “muito alto” no Interior e Centro de Portugal, defende a ASF.
Depois nas inundações. O risco é considerado “globalmente moderado”, com a maioria das apólices em zonas de pontuação inferior a 0,5 (numa escala de 0 a 1). Mas, a Proteção Civil mantém alertas ativos para cheias e derrocadas em regiões como Lisboa e Vale do Tejo.
Por outro lado, e o que toca aos riscos de transição (ligados à descarbonização da economia), o setor segurador mostra sinais de adaptação.
A ASF nota uma tendência de as seguradoras e fundos de pensões privilegiarem dívida soberana de países com melhores avanços climáticos.
Nos títulos de dívida privada, cerca de 50% do capital está alocado a empresas de menor intensidade carbónica. Entre os cinco soberanos com maiores pesos nas carteiras de investimento das seguradoras e dos fundos de pensões, apenas um apresenta um score climático global abaixo da média da UE. O soberano doméstico viu o score subir de 5,9 para 6,1 (em 10), com o mais baixo a ser equivalente a maior risco.
A totalidade das carteira de dívida pública revelou uma subida anual do score climático médio, segundo a ASF.
A exposição a riscos climáticos de transição por via de títulos de dívida privada, caiu em 2024. Nos títulos de dívida privada reforçou-se a proporção de dívida alocada a empresas com menor intensidade carbónica, isto é, com menor rácio de emissões carbónicas por volume de negócio (50% e 46%, respetivamente nos setores segurador e de fundos de pensões).
Ao nível das posições acionistas, existe alguma vulnerabilidade teórica aos riscos climáticos de transição, fruto da maior proporção a contrapartes com intensidades carbónicas intermédias. Contudo, esta é mitigada pelo peso contido dessa classe de ativos nos portefólios dos setores supervisionados.
Apesar do otimismo nos investimentos, o supervisor avisa que a incerteza geopolítica e o protecionismo económico podem dificultar o cumprimento de metas como o Acordo de Paris.
O futuro passará pela revisão da regulamentação europeia para simplificar e acelerar a competitividade sem descurar a sustentabilidade.
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