Trump ameaça Reino Unido depois da visita de Keir Starmer à China
O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, considerou “muito perigoso” que o Reino Unido, um país aliado próximo dos Estados Unidos, negoceie diretamente com a China. O primeiro-ministro britânico, Keir Starmer, esteve na China durante uma visita de três dias no final da passada semana, e apesar de ter feito saber que deu antecipadamente conhecimento da visita à Casa Branca e ter enfatizado que o próprio Donald Trump visitará o país asiático em abril, não conseguiu livrar-se das ameaças do presidente norte-americano. Questionado sobre a possibilidade de o Reino Unido “entrar em negócios” com a China, Trump disse, citado pela imprensa norte-americana: “Bem, é muito perigoso para eles fazerem isso”.
O primeiro-ministro canadiano, Mark Carney, também visitou a China em meados de janeiro e chegou a acordos sobre comércio e turismo. Posteriormente, Trump ameaçou aplicar direitos aduaneiros de 100% às importações canadianas se Carney fizesse novos acordos com Pequim, uma ameaça que o primeiro-ministro canadiano rejeitou mais tarde como uma tática de negociação. “É ainda mais perigoso, penso eu, para o Canadá negociar com a China. O Canadá não está a ir bem. Está a ir muito mal, e não se pode olhar para a China como a resposta”, disse Trump.
Entretanto, Starmer esteve no centro financeiro chinês de Xangai numa tentativa de aumentar as oportunidades de negócio para as empresas britânicas junto da segunda maior economia do mundo. O primeiro-ministro fez-se acompanhar por mais de 50 líderes empresariais e afirmou que tinha mantido “reuniões muito proveitosas” com Xi Jinping, o presidente chinês, que tinham proporcionado “exatamente o nível de envolvimento que esperávamos”. Ambos destacaram a necessidade de estreitamento das relações entre os dois países para enfrentarem as turbulências geopolíticas mundiais. “É vital construir uma relação mais sofisticada, na qual identifiquemos oportunidades de colaboração, mas que também permita um diálogo significativo nas áreas em que não estamos de acordo”, disse o primeiro-ministro britânico a Xi Jinping. O presidente chinês também destacou a necessidade de estreitar os laços com uma “visão de longo prazo”, no contexto do que chamou de situação internacional “complexa”. “China e Reino Unido devem reforçar o diálogo e a cooperação, seja para manter a paz e a estabilidade mundiais ou para promover as economias e os meios de subsistência dos dois países”, disse o presidente da China em resposta, tendo também destacado que será necessário superar dificuldades para avançar, mas que a cooperação abriria um “novo capítulo” nas suas relações.
Starmer garantiu diversos acordos – cujo valor o gabinete do primeiro-ministro não especificou. Mas, segundo os analistas, o melhor acordo conseguido resulta da decisão de uma isenção de vistos para cidadãos britânicos que queiram visitar a China por menos de 30 dias, o que permitirá que férias e viagens de negócios aconteçam sem a burocracia habitual. O acordo alinha o Reino Unido a outros 50 países que já possuem isenção de vistos para viagens de até 30 dias, incluindo França, Alemanha, Itália, Austrália e Japão.
Por outro lado, o Reino Unido é um dos principais exportadores de serviços, fornecendo quase 10 mil milhões de euros à China, anualmente. Não foi fechado um acordo de livre comércio sobre serviços, mas os dois países concordaram em realizar um “estudo de viabilidade” sobre a possibilidade desse acordo. Se concretizado, poderia significar regras claras e juridicamente vinculativas para empresas de serviços do Reino Unido que estão no mercado da China.
Segundo a imprensa britânica, nomeadamente o ‘The Guardian’, os responsáveis empresariais presentes na viagem ficaram satisfeitos com os progressos conseguidos. Melissa Geiger, presidente da consultora KPMG no Reino Unido, afirmou, citada por aquele jornal: “A maior abertura deste novo e importante mercado desbloqueará oportunidades significativas de comércio bilateral e no investimento, além de criar empregos em todo o Reino Unido.”
Starmer e Xi Jinping assinaram um acordo para partilha de informações sobre operações ilegais – que pode ter impacto tanto nas viagens ilegais com imigrantes ao longo do Canal da Mancha, como no que tem a ver com o trafico de opiáceos para o Reino Unido. Foram também assinados diversos memorandos de entendimento visando aprimorar a colaboração em setores empresariais específicos. Entre eles, estão promessas de maior cooperação em normas de produtos de saúde, indústria desportiva, educação e treino técnico e segurança alimentar. Starmer afirmou que as empresas britânicas vinham solicitando mais formas de expandir a sua presença na China, pedindo regras mais claras, melhor acesso ao mercado e apoio prático para atender à procura dos consumidores no país asiático. Na prática, Starmer conseguiu uma redução das tarifas pagas sobre a exportação de whiskey para a China – não será muito, dizem os apoiantes do primeiro-ministro, mas é um começo.
Entretanto, Starmer deu um grande passo rumo à reaproximação com a China abrindo as portas a uma visita de Xi Jinping ao Reino Unido, uma medida que provocou imediata indignação entre os críticos britânicos de Pequim, ainda segundo a mesma fonte. Durante sua viagem a Pequim, Starmer afirmou que o governo britânico permanece “lúcido e realista” em relação às ameaças à segurança nacional vindas da China.
Para os analistas, a visita de três dias de Starmer à China representa uma mudança significativa nas relações do Reino Unido com Pequim, após quase uma década de hostilidade por parte das administrações conservadoras e, mais recentemente, preocupações com a confiabilidade dos Estados Unidos como parceiro comercial.
Cinco deputados conservadores, que estão entre os críticos mais veementes de Pequim no parlamento, e dois membros da Câmara dos Lordes estão entre os nove britânicos que sofreram sanções impostas pela China em 2021 em retaliação às medidas tomadas pelo Reino Unido devido a violações dos direitos humanos contra o povo uigur. Os analistas dizem que é politicamente desafiador para Starmer convidar Xi Jinping para o Reino Unido enquanto as sanções permanecessem em vigor – embora o gabinete do primeiro-ministro tenha afirmado que houve progresso nessa matéria.
Share this content:



Publicar comentário