Comprar uma casa com 90 metros quadrados exige uma taxa de esforço superior a 50% em Lisboa, Porto e Faro
Comprar casa é um cenário cada vez mais difícil em termos gerais e para uma família média portuguesa tornou-se impossível em Lisboa, Porto e Faro. A conclusão é da edição de 2026 do estudo “Acessibilidade à Habitação” da Century 21 Portugal divulgado esta quinta-feira, onde indica que a aquisição de uma habitação de 90 metros quadrados exige uma taxa de esforço superior a 50% nestas três cidades.
O estudo analisa o período entre 2022 e 2025, comparando os rendimentos líquidos médios anuais das famílias (com base nas declarações fiscais publicadas pelo INE) com os custos de acesso à habitação (preços de venda e rendas contratadas), apurados pela Confidencial Imobiliário. A análise incide sobre 40 municípios, incluindo capitais de distrito de Portugal Continental, concelhos das Áreas Metropolitanas de Lisboa e Porto e municípios do Algarve, tomando como referência habitações de 90 metros quadrados.
Nas áreas metropolitanas destas três cidades, uma habitação considerada financeiramente acessível e sem esforço (<33%) tem atualmente em termos médios regionais, entre 35 e 50 metros quadrados.
De resto, o número de capitais de distrito onde a compra de casa era acessível (<50% de esforço) passou de 16, em 2022, para 15 em 2025, sendo que mais de metade exige atualmente um esforço entre 34% a 50%. Existem 12 capitais consideradas “acessíveis” para arrendar (taxa de esforço <50%), maioritariamente no interior. Destas, 10 estão “em esforço” (34%-50%). As restantes 6 são “inacessíveis” (>50%) para o arrendamento de uma casa de 90 m².
Ricardo Sousa, CEO da Century Portugal, alerta que “Lisboa, Porto e Faro saíram completamente do mapa da compra acessível para as famílias das respetivas cidades. Isto significa que, em três anos, a habitação tornou-se um desafio intransponível nas principais capitais de distrito para quem compra a sua primeira casa na sua cidade. “Os dados mostram que o problema não está a abrandar – está a alastrar-se para os mercados periféricos de Lisboa, Porto e Faro e a concentrar-se nos grandes centros urbanos e turísticos”.
Uma situação que tem vindo a ser agravada pelo desequilíbrio nos rendimentos familiares que entre 2022 e 2025 aumentaram a um ritmo médio de 16%, traduzidos numa média de pelo menos mais 200 euros por mês. Se olharmos para a Área Metropolitana de Lisboa, os rendimentos mensais variam aproximadamente entre 1.600 euros na Amadora e 2.300 euros em Oeiras, mas os preços das casas apresentam diferenças muito mais acentuadas.
Em Lisboa e Cascais os valores variam entre os 420 mil e 450 mil euros por uma habitação de 90 m², em Oeiras ronda os 380 mil euros e na Amadora os 210 mil a 240 mil euros. Nos restantes concelhos, os valores situam-se, em geral, entre 210 mil e 290 mil euros.
“Este não é um fenómeno apenas dos grandes centros. A pressão alastrou-se de forma brutal sobre as áreas metropolitanas de Lisboa, Porto e Algarve. Em 2025, todas as cidades das áreas metropolitanas de Lisboa e Porto, e do Algarve, tornaram-se inacessíveis no arrendamento para uma família média que entra pela primeira vez no mercado na sua cidade”, sublinha Ricardo Sousa.
O estudo aponta ainda que desde 2022, preços e rendas aumentaram 40% ou mais na maioria dos concelhos, enquanto os rendimentos cresceram cerca de 15% – um ritmo três vezes mais lento. Comprar uma casa de 90 metros quadrados implica atualmente mais 68 mil a 114 mil euros do que há três anos, o que se traduz em prestações cerca de 300 euros superiores. No arrendamento, os aumentos rondam os 400 euros mensais, contra subidas salariais próximas de 200 euros.
No Porto comprar continua mais barato, mas 90 metros são quase inacessíveis
Olhando para o a Área Metropolitana do Porto, os rendimentos situam-se entre cerca de 1.600 euros na Póvoa de Varzim e 1.950 euros no Porto. Comprar uma casa de 90 metros quadrados custa 324 mil euros no Porto, mas pouco mais de 180 mil euros em Valongo e Gondomar. Na Póvoa de Varzim, o valor ronda os 220 mil a 240 mil euros, ficando a maioria dos mercados abaixo dos 225 mil euros. Já as rendas oscilam entre 900 euros e 1.400 euros.
Na região Norte, os preços e rendas subiram mais de 50% na maioria dos concelhos desde 2022, enquanto os rendimentos aumentaram 18%, com o aumento absoluto do preço de compra situa-se entre 66 mil e 102 mil euros, implicando prestações adicionais de 230 a 400 euros. No arrendamento, os acréscimos rondam 280 a 500 euros mensais.
Contudo, comprar uma casa de 90 metros é “inacessível” (>50%) no Porto, Matosinhos e Póvoa de Varzim, e exige um esforço elevado (34%-50%) em 5 outros concelhos (Valongo, Maia, Gondomar, Vila do Conde e Vila Nova de Gaia. Arrendar é “inacessível” (>50%) em todos os concelhos.
Salários baixos e pressão externa tornam Algarve inacessível
O cenário mais preocupante verifica-se na região do Algarve, onde os rendimentos mensais rondam os 1.400 euros na maioria dos concelhos. Em Faro e Portimão os preços rondam os 60.000 euros para 90 metros quadrados, enquanto Lagos e Loulé ultrapassam os 300 mil euros, sendo Loulé o mercado mais caro, com cerca de 360 mil euros.
Nos últimos três anos comprar passou a exigir mais 65.000 a 106.000 euros, enquanto arrendar implica acréscimos mensais de 300 a 570 euros. Os rendimentos, porém, subiram apenas 170 a 240 euros. Já as rendas variam entre 1.100 e 1.400 euros, após subidas superiores a 60% desde 2022.
O estudo conclui ainda que os preços das casas praticamente duplicaram nos últimos cinco anos, com uma nova aceleração de 23,4% em 2025, enquanto os rendimentos cresceram a um ritmo muito mais lento.
Menos de metade (48%) das casas à venda estão no patamar de preço adequado a 77% das famílias portuguesas (até 330 mil euros). A mediana do rendimento disponível ajustado em Portugal (14.446 euros em 2024) fica muito abaixo da média da União Europeia (21.245 euros) e de Espanha (20.800 euros).
“A oferta não está alinhada com a realidade económica das famílias. Isso empurra muitos agregados para taxas de esforço incompatíveis com uma vida estável”, aponta o CEO, que defende a implementação de um conjunto de medidas “imediatas e urgentes” para resolver um problema estrutural do país.
Entre elas destacam-se o aumento do parque de habitação social de forma sustentada, a revisão dos Planos Diretores Municipais numa escala metropolitana integrada, bem como rever os códigos de construção para agilizar e modernizar o processo e investir em I&D para impulsionar a industrialização da construção.
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