União Europeia decide aumentar pressão sobre a Rússia
A chefe da diplomacia da União Europeia, Kaja Kallas, afirma que o Kremlin não está a levar as negociações com a Ucrânia a sério e que, por isso, Bruxelas pondera nomear um enviado especial para representar os 27 países na mesa de negociações. Kallas alertou para que os esforços de paz na Ucrânia correm o risco de consolidar a agressão russa, a menos que Moscovo seja forçada a fazer concessões reais.
Em declarações ao programa Europe Today, da agência Euronews, Kallas expressou preocupação com as negociações mediadas pelos Estados Unidos entre a Rússia e a Ucrânia – de onde os europeus estiveram afastados desde a primeira hora, uma responsabilidade direta de Kallas, dizem os seus críticos – que até agora, e depois de duas rondas de três encontros, não produziram quaisquer resultados. O impasse reflete a falta de seriedade do Kremlin, refere Haja Kallas, uma vez que a Ucrânia é pressionada a fazer concessões que interessam a Moscovo. Os negociadores russos “não têm pessoas realmente sérias atrás daquela mesa”, disse. “Não espero que nada resulte desta ronda de negociações.”
Kallas reconheceu que o governo Trump conseguiu sentar os dois os lados à mesa de negociações pela primeira vez desde o início da invasão, mas enfatizou que o desequilíbrio entre as exigências feitas a Kiev em comparação com as de Moscovo é gritante. “Só vemos o que os ucranianos estão dispostos a ceder para pôr fim a esta guerra”, “não vemos nenhuma concessão por parte da Rússia.”
Kallas afirmou que as concessões dolorosas, centradas principalmente em questões territoriais, devem ser feitas exclusivamente pelos ucranianos. “Cabe aos ucranianos decidir que tipo de concessões estão dispostos a fazer”, disse. Para a responsável pela diplomacia do bloco, Moscovo limita-se a exigir o máximo, fazer ameaças e continuar os ataques em larga escala, como tem sucedido ao longo de todos o inverno.
Entretanto, crescem os apelos para que a União nomeie um enviado especial para representar o bloco e apoiar a Ucrânia na mesa de negociações, depois de o bloco ter sido marginalizado pelos esforços mediados pelos Estados Unidos. Ainda assim, Kallas – que tem sido fortemente criticada pela sua postura muito pouco proativa – minimizou a importância de nomes e personalidades, insistindo que o foco deveria estar no mandato e no objetivo por trás da nomeação de um enviado. “A questão agora não é quem o faz, mas sim como e o que queremos obter com isso”, disse à Euronews. “Se os russos acham que estão a atingir os seus objetivos máximos com os norte-americanos, por que deveriam querer conversar com os europeus?”
Kallas argumentou que a Rússia deve ser colocada numa posição em que passe “de fingir negociar para negociar de facto”, o que exigiria uma forte unidade do Ocidente. Que não existe: União e Estados Unidos entraram em conflito quanto à estratégia para acabar com a guerra na Ucrânia, com um plano de paz inicial negociado diretamente com a Rússia gerando preocupações entre os europeus. Desde então, o plano passou por inúmeras alterações, juntamente com um plano de reconstrução e e desenvolvimento económico para a Ucrânia até 2040, mas as negociações de paz não avançaram.
Mais um pacote de sanções
O 20.º pacote de sanções da União contra Moscovo já está a ser preparado e prevê uma proibição total dos serviços marítimos. Se aprovado, refere os analistas, o pacote eliminaria o teto de preço do petróleo russo que os aliados ocidentais aplicam desde 2022 – que tinha como objetivo impedir que a venda de crude ou de petróleo refinado service para financiar a guerra.
Para o novo pacote de sanções, a Comissão Europeia propôs a proibição total da prestação de serviços marítimos a navios-tanque que transportam petróleo bruto russo, independentemente do valor pago pelos clientes. Até agora, a União permitiu condicionalmente que suas empresas prestassem serviços a navios petroleiros russos que cumprissem o teto de preço do G7, recentemente ajustado para 44,10 dólares por barril. Os petroleiros que ultrapassaram o limite tiveram o acesso a seguros, serviços bancários e transporte marítimo negado, forçando o Kremlin a criar uma ‘frota paralela’ de navios navegando sob propriedade obscura.
Na essência, o teto de preços foi um compromisso entre a União e os Estados Unidos: o bloco queria esvaziar os cofres do Kremlin – o que claramente não conseguiu – e os EUA pretendiam controlar a instabilidade do mercado.
Desde a introdução do teto de preços, em dezembro de 2022, a Comissão tem defendido a iniciativa e divulgado os seus resultados. “Este mecanismo foi especificamente concebido para pressionar ainda mais as receitas petrolíferas da Rússia, mantendo simultaneamente os mercados globais de energia estáveis através da continuidade do fornecimento”, afirmou o executivo comunitário em comunicado recente.
A Suécia e a Finlândia lideraram a exigência de uma proibição total dos serviços marítimos, argumentando que isso aumentaria significativamente os custos da operação do setor petrolífero russo, reprimiria a disseminação de documentos falsificados e facilitaria a vida das empresas da União. “Sem embarques. Sem seguro. Sem reparações nos portos. A pressão sobre a Rússia precisa de aumentar”, disse a ministra das Relações Exteriores da Suécia, Maria Stenergard.
A Comissão parece ter sido sensível ao apelo e adicionou a proibição total ao 20º pacote de sanções, que também inclui a proibição de fornecer manutenção a quebra-gelos russos e navios-tanque de gás natural liquefeito. A União acredita que a proibição dos serviços marítimos fechará uma brecha criada pelo complexo sistema de dois níveis do teto de preços, segundo o qual alguns petroleiros russos têm direito aos serviços, enquanto outros não.
“É claramente um reforço das sanções. Até agora, com um teto de preços, ainda havia exportações de petróleo. Com essa proibição, qualquer exportação de petróleo da Rússia ficará ainda mais difícil”, disse Paula Pinho, porta-voz da Comissão. “Essa é, portanto, a lógica que fundamenta esta proposta.”
Em 2022, o limite de preços foi celebrado como prova da unidade e da audácia do Ocidente diante do neoimperialismo de Moscovo. O então presidente dos Estados Unidos, Joe Biden, atribuiu a si mesmo o mérito de ter mobilizado os aliados do G7 e a Austrália para adotar o projeto sem precedentes, apesar das acusações de abuso de poder legislativo por parte dos clientes energéticos da Rússia. Mas, com o tempo, o impacto do limite diminuiu.
O Kremlin intensificou a compra de navios em ruínas para expandir a ‘frota fantasma’, contornando efetivamente a supervisão do G7. A partir de meados de 2023, o preço do petróleo bruto Urals começou a subir, ultrapassando o limite de 60 dólares por barril acordado pelos aliados ocidentais. “A União pressionou por uma proibição total em 2022, mas as circunstâncias impediram que isso acontecesse: apoio morno da administração Biden e mercados globais de energia restritos”, afirma Ben McWilliams, investigados do think tank Bruegel, citado pela Euronews.
No ano passado, a União propôs transformar o limite máximo num mecanismo dinâmico que seria adaptado periodicamente de acordo com as tendências de mercado. Mais tarde, a Casa Branca decidiu sancionar as duas maiores companhias petrolíferas da Rússia, a Rosneft e a Lukoil , depois de perceber, tardiamente, que as exigências do presidente Vladimir Putin permanecem inalteradas.
O duplo golpe atingiu duramente Moscovo: em 2025, as receitas de petróleo e gás da Rússia caíram 24%, atingindo o nível mais baixo desde 2020, sob o peso das sanções, um rublo mais forte e uma procura global mais fraca. A proibição tem o potencial de representar um golpe significativo para os cofres de Moscovo, afirmam alguns analistas.
“O novo pacote de sanções abrange a energia, os serviços financeiros e o comércio”, referiu a líder do executivo comunitário quando se referiu pela primeira vez ao plano, o 20.º, na passada sexta-feira. Ursula von der Leyen apelou a que os Estados-membros “aprovem rapidamente estas novas sanções” pois “tal enviaria um sinal poderoso antes do sombrio 4.º aniversário” do conflito, assinalado no próximo dia 24 de fevereiro.
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