Angola: Bank of America prevê que produção de petróleo se mantenha estável
A produção de petróleo em Angola deve manter-se estável, sem uma recuperação ou diminuição significativa em 2026, de acordo com uma nota do Bank of America Global Research, resultado de um trabalho de campo em Angola.
De acordo com a instituição bancária a produção de petróleo, em Angola, “deverá estabilizar” perto de um milhão de barris por dia (bpd) até 2030, a não ser que “ocorra uma grande descoberta”. O Bank of America considera que a entidade reguladora “está a implementar ativamente” medidas para manter a produção de petróleo acima do limite simbólico de um milhão de bpd e para sustentar o investimento.
“A sua abordagem favorável aos negócios é bem vista pelas empresas petrolíferas internacionais; consideram-na eficaz. Desde 2024, a ANPG [regulador do setor petrolífero angolano] introduziu incentivos fiscais tanto para a produção como para a exploração, ao mesmo tempo que acelerou os processos de licenciamento”, acrescenta a instituição bancária.
A research do Bank of America diz que como resultado destes incentivos, pelo regulador petrolífero angolano, as empresas petrolíferas internacionais reportaram uma “aceleração” no desenvolvimento de campos adjacentes e na perfuração de mais poços. “Com base no feedback do setor, não vemos grandes riscos de queda, mas também não esperamos qualquer aumento significativo nos próximos dois a três anos, na ausência de grandes descobertas”, reforça a nota da instituição.
“A agência reguladora do petróleo prevê um investimento de 60 mil milhões de dólares (50,3 mil milhões de euros à taxa de câmbio atual) nos próximos cinco anos. Novos investimentos deverão ser suficientes para compensar o declínio natural dos poços de petróleo. Os níveis de equilíbrio continuam competitivos e esperamos que as grandes empresas continuem a investir, a menos que o preço do barril desça abaixo dos 50 dólares (41 euros), considerando os custos médios de investimento e manutenção”, acrescenta.
Angola não enfrenta risco imediato de incumprimento
O Bank of America diz ainda que o governo angolano “não enfrenta um risco imediato” de incumprimento, uma vez que dispõe de reservas cambiais e activos líquidos “suficientes” para cobrir os seus passivos este ano, mesmo em situações de stress. “No entanto, a trajetória orçamental e a avaliação cambial tendem para baixo, sugerindo uma deterioração gradual em vez de uma mudança abrupta”, acrescenta a research global do Bank of America.
“Esperamos que os riscos fiscais e cambiais comecem a impactar o mercado assim que o preço do petróleo descer abaixo dos 50 dólares (41 euros) por barril”, alerta o Bank of America.
A mesma instituição diz ainda que um programa do Fundo Monetário Internacional (FMI) parece “improvável” antes das eleições, uma vez que o governo “não está disposto” a remover os subsídios aos combustíveis ou permitir a depreciação da moeda antes da votação.
“As pressões fiscais devem, por isso, persistir, sem que se espere uma reforma dos subsídios a curto prazo. Além disso, a taxa de câmbio deverá manter-se estável até às eleições, embora a maioria dos participantes locais prever uma depreciação de pelo menos 20% posteriormente”, salienta a research da instituição bancária.
O banco acrescenta que cortar nos subsídios aos combustíveis é “extremamente impopular” e pode “potencialmente causar grandes” distúrbios sociais. “Por conseguinte, é provável que as autoridades os mantenham nos níveis atuais até às eleições, mas poderão reduzi-los posteriormente”, acrescentou o Bank of America.
A research do Bank of America defende que a remoção dos subsídios será “fundamental” para o retomar das negociações com o FMI. “Tal como na Nigéria, estes subsídios não direcionados podem ser incorporados em transferências de rendimentos direcionadas para famílias de baixos rendimentos”, refere. “O governo reduziu drasticamente os subsídios ao gasóleo em 33% (em termos nominais) em 2025, o que desencadeou protestos generalizados em todo o país em julho, resultando em, segundo os relatos, 22 mortes e 1.200 detenções. Isto ocorreu após um aumento de quase 100% nos preços da gasolina em junho de 2023, o que também levou a protestos”, recorda a instituição bancária.
O Bank of America dá ainda conta que as autoridades angolanas pretendem angariar 4,1 mil milhões de dólares (3,4 mil milhões de euros) em apoio orçamental este ano através de eurobonds, empréstimos comerciais, operações de troca de dívida e financiamento do Banco Mundial. Consideramos que os 1,5 mil milhões de dólares (1,2 mil milhões de euros) previstos da troca de dívida e da operação de troca de dívida do Banco Mundial serão difíceis de obter e esperamos que o défice seja coberto por empréstimos comerciais adicionais”, diz a unidade de research da instituição bancária.
A research da instituição bancária refere que a Unidade de Gestão da Dívida prevê emitir entre 1,5 e 2 mil milhões de dólares (1,2 mil milhões de euros e 1,6 mil milhões de euros) nos mercados internacionais através de um título a 10 anos algures este ano, mas sem um calendário definido. “Os spreads diminuíram substancialmente desde o Dia da Libertação [anunciada pelo Presidente norte-americano, Donald Trump] (cerca de 500 pontos base) e o preço do barril está atualmente acima dos 65 dólares (54 euros), abrindo assim uma janela ideal para o governo garantir cupões mais baixos e assegurar que as necessidades de financiamento para este ano são satisfeitas”, explica o Bank of America.
O Bank of America adiantou também que as autoridades [angolanas) confirmaram que estão a trabalhar em duas trocas de dívida, contudo a instituição bancária refere que “não espera” que a conclusão das mesmas “reduza materialmente” o risco soberano de Angola em 2026, dado o tempo necessário para estruturar tais transações. “Os benefícios são esperados para 2027”, perspetiva a research do banco.
“Uma primeira troca de dívida por cuidados de saúde, no valor de mil milhões de dólares (840 milhões de euros), foi mencionada na Estratégia de Dívida a Médio Prazo 2026-2028, e uma segunda troca de dívida por educação, no valor de 400 mil milhões de dólares (335,5 mil milhões de euros), foi citada na imprensa na semana passada. A troca de dívida por saúde, no valor de mil milhões de dólares (840 milhões de euros), se for executada, poderá proporcionar um alívio significativo às pressões externas de liquidez, mas a estruturação deste tipo de transações demora geralmente mais de um ano. Por isso, não esperamos que impacte as finanças do governo antes do próximo ano”, diz o Bank of America.
“A troca de dívida por educação no valor de 400 milhões de dólares (335,5 milhões de euros), à semelhança da Costa do Marfim, teria como alvo empréstimos comerciais dispendiosos com vencimento nos próximos dois a três anos e permitiria uma melhor distribuição das amortizações. Embora positivo, acreditamos que esta troca não teria um impacto significativo”, prevê a research. “Para a Costa do Marfim, a troca teve um valor semelhante e gerou uma poupança de cerca de 330 milhões de dólares (276,8 milhões de euros) no serviço da dívida ao longo de cinco anos, ou seja, cerca de 66 milhões de dólares (55,3 milhões de euros) por ano. Se as poupanças forem de dimensão semelhante, isto representaria apenas 0,7% do serviço da dívida previsto de 9,6 mil milhões de dólares (oito mil milhões de euros) em 2026”, acrescentou a nota do Bank of America.
Desvalorização do kwanza pode levar a aumento “impopular” da inflação
O Bank of America adianta também que a narrativa para o kwanza (moeda angolana) é a mesma que para os subsídios [ligados aos combustíveis]. “Deixar a moeda desvalorizar desencadearia um aumento impopular da inflação que o governo provavelmente quer evitar antes das eleições”, diz a research.
“A inflação em Angola é impulsionada principalmente pelo cabaz alimentar, cujos artigos são na sua maioria importados. Além disso, a grande fatia do serviço da dívida externa denominada em dólares americanos é um incentivo adicional para manter a moeda estável”, explica a nota de research.
“A taxa de câmbio oficial do kwanza mantém-se estável desde a desvalorização em 2023, atualmente a rondar os 912 kwanza por dólar norte-americano. No entanto, os participantes dos mercados financeiros locais com quem falámos relatam que a moeda negoceia a cerca de 1.100 kwanza por dólar americano no mercado paralelo. Esperamos que o governo deixe a moeda desvalorizar em direção a estes níveis após as eleições”, perspetiva o Bank of America.
A nota diz ainda que o mercado cambial “continua sob pressão”, com a procura dos importadores e do governo superando a oferta. “A oferta líquida de moeda estrangeira no mercado local é impulsionada principalmente pelas empresas petrolíferas e de diamantes que, em conjunto, representam quase 80%. Empresas com quem falámos relataram que o mercado está sob pressão nos meses em que o serviço da dívida externa aumenta e o governo absorve a liquidez cambial disponível”, refere o Bank of America.
Instituição destaca importância do Corredor do Lobito
O Bank of America assinala que o Corredor do Lobito, devido à sua ligação da costa atlântica de Angola à República Democrática do Congo e à região do Copperbelt, na Zâmbia, posiciona-o como uma “importante rota logística estratégica”. Para a instituição bancária as vantagens a médio prazo parecem “significativas”, mas é “improvável” um impacto relevante no Produto Interno Bruto (PIB) e nas finanças públicas durante pelo menos dois a três anos, dado o tempo necessário para investir em infraestruturas e lançar novos projetos ao longo da ferrovia.
“O sector privado vê o projeto como uma importante alavanca de diversificação para além do petróleo”, diz a research do Bank of America. “O impacto no investimento direto estrangeiro não petrolífero deverá materializar-se este ano”, diz a nota da instituição bancária.
A unidade de research do Bank of America diz que se prevê que o Corredor [do Lobito] tenha um impacto significativo na economia de Angola, gerando entre 1,6 mil milhões e 3,4 mil milhões de dólares anuais (1,3 mil milhões de euros e 2,8 mil milhões de euros) durante os próximos 30 anos, tendo por base as estimativas do governo para 2022. “As entradas fiscais diretas serão marginais por enquanto, mas o aumento mais amplo dos impostos indiretos (imposto sobre o rendimento das empresas, imposto sobre o valor acrescentado e impostos sobre as exportações) poderá ser mais substancial, embora difícil de quantificar por enquanto”, salienta a nota.
O Bank of America assinala que o Corredor do Lobito “está no centro” da política externa de Angola e coloca “potencialmente o país como um aliado estratégico” dos Estados Unidos para garantir minerais críticos. “A Corporação Financeira de Desenvolvimento dos EUA (DFC) anunciou um empréstimo de 553 milhões de dólares (463,9 milhões de euros) à LAR em dezembro de 2025. O projeto do Corredor do Lobito foi concebido para contrariar a revitalização do corredor ferroviário Tanzânia-Zâmbia, apoiado pela China”, refere a nota.
“Uma reunião de coordenação de alto nível entre Angola, a Zâmbia e a República Democrática do Congo teve lugar em Luanda durante a nossa visita, onde os três governos anunciaram o desenvolvimento de um plano diretor conjunto para orientar a implementação do Corredor do Lobito. Sinalizaram também uma visão mais ampla para o projeto: ir além da infraestrutura de transportes para atrair investimento público e privado ao longo da rota, incluindo no processamento de minerais, energia e agronegócio, em vez de servir apenas como uma ferrovia para exportação de matérias-primas”, sublinha a unidade de research do banco.
A unidade de research do banco considera que a agricultura e o setor mineiro (excepto diamantes) surgiram como os mais promissores para diversificar a economia.
“O potencial do agronegócio em Angola foi um tema recorrente em diversas discussões, particularmente no âmbito das oportunidades de substituição de importações. Investidores locais com quem nos reunimos referiram um potencial significativo em Angola para a extração e processamento de minerais para além dos diamantes, como o cobre”, salienta a nota.
Angola: eleições sem influência nas perspetivas fiscais
Relativamente às eleições, previstas em Angola, em 2027, a unidade de research do Bank of America diz que as empresas “não pareceram preocupadas” com o resultado das eleições. “Não esperam que uma nova administração, seja MPLA ou UNITA, prejudique, por enquanto, materialmente as perspetivas fiscais ou o ambiente de negócios”, salienta a nota.
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