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Bad Bunny e Rosalía atestam crise no domínio dos EUA na música

Bad Bunny e Rosalía atestam crise no domínio dos EUA na música

Bad Bunny, com a conquista do Grammy de melhor álbum do ano e o espetáculo do Super Bowl, tornou-se o símbolo máximo de um colapso que ameaça a hegemonia dos Estados Unidos na música.
Num palco profundamente americano, o porto-riquenho decidiu apresentar-se a cantar só em espanhol e lotou o espetáculo de símbolos compreendidos só por quem é latino. Foi uma afronta ao imperalismo e às políticas ultranacionalistas de Donald Trump.
Com os olhos do planeta voltados para ele, Bad Bunny desfilou entre bancas de água de coco, interagiu com idosos que jogavam dominó e deu palco a crianças adormecidas em cadeiras de plástico. No fim, homenageou Porto Rico, ilha que é parte do território americano, e reforçou que a América é um continente, formado na sua maioria por nações latinas.
Foi um protesto contra as políticas anti-imigração de Trump, que nas redes sociais classificou o show de nojento, uma afronta, e disse que tudo o que Bad Bunny cantava era incompreensível. “Não representa os padrões de sucesso, criatividade e excelência da América. Ninguém entende uma palavra do que ele está a dizer.”
Muita gente entende, sim. Bad Bunny foi o artista mais ouvido no Spotify no ano passado, com o álbum “Debí Tirar Más Fotos”, cantado em espanhol e formado por sonoridades tradicionais da ilha caribenha —bateu nomes como Taylor Swift e Lady Gaga.
Gaga, aliás, juntou-se ao porto-riquenho no Super Bowl para dançar salsa e cantar que continuaria sorrindo com ele mesmo neste fim de mundo, verso de “Die with a Smile”. A escolha da canção não parece aleatória diante dos protestos recentes da diva pop ao governo americano.
Embora questionada por parte do público, a presença de uma artista que é a cara dos Estados Unidos pode ser lida como um reforço da vontade de Bad Bunny de unir, não separar. É como se ele implodisse os muros de Trump e suas definições do que é mais ou menos americano, mais ou menos digno.
Antes disso, no Grammy, pela primeira vez na história um disco em espanhol saiu premiado na categoria de álbum do ano. No palco, Bad Bunny usou sua língua materna para discursar, e quando recorreu ao inglês, disse “fora, ICE”, em protesto à polícia de imigração dos Estados Unidos.
Bad Bunny, porém, surfa na crista de uma onda muito maior. Dono de um dos álbuns mais aclamados pela crítica no ano passado, a espanhola Rosalía canta em 13 línguas em “Lux”, obra que deve fazer a limpa na próxima edição do Grammy, apontam os especialistas, depois da artista ser limitada às categorias de música latina nos prémios de 2023.
Rosalía diz que canta em tantos idiomas porque o mundo é conectado e porque não quer pôr uma venda nos olhos ao ver outros territórios. Ao lançar “Lux”, a espanhola entrou para os mais vendidos nos Estados Unidos no seu lançamento, numa prova de que a língua também vem deixando de ser uma barreira para os americanos.
A mudança encontra amparo no crescimento da música pop sul-coreana, o k-pop. Embora a explosão do género tenha ocorrido na última década, no ano passado os Estados Unidos tornaram-se um dos principais consumidores dele no mundo. Em dezembro, o grupo Stray Kids destronou Taylor Swift nas paradas musicais.
O ponto é que o k-pop nunca precisou dos americanos —encantou os fãs por lá depois de já estar consolidado no globo. E, ainda que alguns artistas da Ásia formem alianças com grandes nomes dos Estados Unidos para consolidar sucessos —caso de Rosé, do grupo Blackpink, que chamou Bruno Mars para o hit “Apt.”—, esses artistas vêm crescendo no país sem ter de fazer tantas concessões como o pop latino no passado.
A colombiana Shakira e o porto-riquenho Ricky Martin, por exemplo, tiveram de se aproximar da estética americana e cantar em inglês para serem totalmente aceites. Coincidentemente, no meio dessa onda latina, ela foi a escolha para cantar no megashow “Todo Mundo no Rio”, na praia carioca de Copacabana, em maio, na esteira de Lady Gaga e Madonna.
Géneros estrangeiros, especialmente os latinos, ainda são mais populares entre os imigrantes, mas os nascidos americanos estão cada vez mais abertos a esses estilos, afirma Steven Loza, professor de etnomusicologia na Universidade da Califórnia, em Los Angeles. “Eles ficam intrigados, gostam da batida, de dançar, especialmente os mais jovens. O reggaeton, por exemplo, ainda não se tornou exatamente mainstream, mas está a chegar”, afirma o investigador.
Os americanos estão mais atentos até à arte brasileira. O álbum “Rock Doido”, de Gaby Amarantos, foi eleito um dos melhores do ano passado por Anthony Fantano, crítico do canal The Needle Drop, que tem mais de 3 milhões de seguidores no YouTube. Isso vem na esteira dos esforços de Anitta, que nos últimos anos ficou fluente em inglês para fazer bons contatos e tentar consolidar o funk brasileiro por lá.
Bad Bunny, na contramão, desafia os americanos a procurarem a sua música se quiserem apreciar suas letras. Além de mal cantar em inglês, o porto-riquenho tomou uma decisão antes impensável para um artista que desejasse uma carreira internacional — recusou-se a levar a sua tour para a terra firme dos Estados Unidos. Disse que temia que os seus fãs latinos fossem hostilizados pelo ICE.

Por isso, Bad Bunny fez 31 espetáculos em Porto Rico, nove deles restritos à população local, o que gerou 169 milhões de euros à economia da ilha, historicamente menosprezada pelo governo americano. Agora viaja pelo mundo, com apresentações em São Paulo neste mês.
Faz parte da mensagem de Bad Bunny dizer que as fronteiras entre Porto Rico e os Estados Unidos continentais são, de certa forma, imaginárias, diz o docente Steven Loza. “É tarde demais para limitar a imigração cultural. Já aconteceu. Os efeitos dela só vão aumentar.”
Isso reforça um senso de identidade plural na cultura que existe em fãs de artistas como o mexicano Peso Pluma, o primeiro a cantar “corrido tumbado”, tipo de música regional do seu país, no talk show The Tonight Show, de Jimmy Fallon, um dos maiores da TV americana. “Ele foi convidado porque há um grande público interessado. Um público bilíngue, bicultural, que ouve hip-hop em inglês, depois reggaeton em espanhol, e ‘corrido tumbado’”, afirma Loza.
Essa é a tónica de Kali Uchis, americana criada na Colômbia que usa ritmos de sua infância para incrementar o repertório. Num espetáculo em São Paulo neste domingo, ela foi aplaudida pelo público brasileiro ao dizer que não é fácil ser latina nos Estados Unidos. “Somos trabalhadores. Somos humanos.”
São frequentes as reportagens que falam sobre uma crise de criatividade a abater-se sobre a música americana. Uma investigação da revista The Atlantic discute se estamos diante da pior era da cultura popular nos Estados Unidos, e outra do jornal The New York Times traz uma ilustração em que cartazes de Madonna, Elvis Presley e Metallica são substituídos por outros de Bad Bunny, Rosalía e do grupo sul-coreano Blackpink.
O jornalista americano Kelefa Sanneh, autor do livro “Na Trilha do Pop”, publicado no Brasil pela Todavia, tocou no mesmo assunto, em reportagem da revista The New Yorker. Em entrevista, ele diz que a música feita fora dos Estados Unidos nunca foi tão proeminente, se compararmos com os anos 1970, 1980 ou 1990, e atribui isso ao streaming. “Hoje é fácil”, ele diz. “Se quiser, posso ouvir ‘Feliz no Simples’, do MC IG, ou Babalwa M, da África do Sul.”

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