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Floresta Amazónica vale 18 mil milhões de euros em chuva

Floresta Amazónica vale 18 mil milhões de euros em chuva

A floresta não é apenas um reservatório de biodiversidade ou um sumidouro de carbono. É também uma fábrica de chuva. E essa chuva tem preço.
Um novo estudo científico conclui que cada metro quadrado de floresta tropical gera, em média, 240 litros de chuva por ano nas regiões circundantes. No caso da Amazónia, o valor é ainda maior: 300 litros por metro quadrado por ano. Traduzido em valor económico, este “serviço invisível” representa milhares de milhões para a economia.
A floresta como motor da chuva
A ligação é conhecida há décadas: menos árvores significam menos evapotranspiração, o processo pelo qual a água regressa à atmosfera através das folhas e, consequentemente, menos precipitação. Mas até agora faltava uma quantificação sólida e consensual.
Os investigadores cruzaram dados de satélite com modelos climáticos da mais recente geração, analisando o impacto da desflorestação tropical na precipitação regional. A conclusão é clara: por cada ponto percentual de floresta perdido, a chuva anual diminui cerca de 2,4 milímetros.
Pode parecer pouco. Mas à escala de milhões de hectares, o efeito é colossal.
No caso da Amazónia, os números são ainda mais expressivos: cada metro quadrado de floresta gera cerca de 0,3 metros cúbicos de água por ano — o equivalente a 300 litros.
Para perceber o significado prático: culturas como a soja ou o algodão consomem entre 500 e 600 litros de água por metro quadrado por ano. Ou seja, são necessários cerca de dois metros quadrados de floresta intacta para garantir a água consumida por um metro quadrado de cultivo agrícola.
Quanto vale a chuva?
Com base no preço médio da água no setor agrícola brasileiro, os autores estimam que cada hectare de floresta amazónica gera aproximadamente 54 euros por ano em valor associado à chuva que produz.
Multiplicando pela dimensão da Amazónia Legal brasileira, cerca de 330 milhões de hectares, o resultado impressiona: cerca de 18 mil milhões de euros por ano em serviços de geração de precipitação.
Só as áreas protegidas da Amazónia brasileira representam cerca de 12 mil milhões de euros anuais neste serviço climático. As terras indígenas contribuem com cerca de 6 mil milhões de euros.
Para comparação, a agricultura representa cerca de 138 mil milhões de euros do PIB brasileiro, sendo que 85% depende diretamente da chuva. A fiabilidade do regime de precipitação é, por isso, um pilar silencioso da economia do país.
O custo da desflorestação
Desde as últimas décadas, o Brasil perdeu cerca de 80 milhões de hectares de floresta amazónica. Segundo os cálculos do estudo, isso significa uma perda anual de cerca de 4,4 mil milhões de euros em serviços de geração de chuva.
Menos chuva não afeta apenas as colheitas. Tem impacto no abastecimento de água potável, na produção hidroelétrica, na navegabilidade dos rios e até na capacidade da própria floresta remanescente armazenar carbono.
Num cenário extremo de colapso da Amazónia, já anteriormente estimado por outros trabalhos, os custos económicos poderiam atingir cerca de 110 mil milhões de euros por ano.
Dinheiro para proteger a floresta?
Apesar de existirem instrumentos financeiros “verdes” como obrigações ligadas à reflorestação ou fundos de investimento sustentáveis, os montantes mobilizados continuam muito abaixo do valor anual que a floresta gera apenas em precipitação.
Iniciativas internacionais pretendem remunerar países pela manutenção da floresta em pé. O estudo agora divulgado fornece um argumento adicional: proteger a floresta não é apenas uma questão ambiental, é um investimento económico racional.
Um argumento que pode mudar o debate
Durante anos, a conservação florestal foi apresentada como um custo ou um obstáculo ao crescimento agrícola. Este trabalho sugere o contrário: sem floresta, a própria agricultura perde o seu “seguro” climático.
Ao atribuir um valor económico concreto à chuva produzida pelas florestas tropicais, e em particular pela Floresta Amazónica, os autores defendem que as políticas públicas podem ganhar um novo enquadramento.
A floresta deixa de ser vista apenas como património natural ou compromisso climático internacional. Passa a ser entendida como infraestrutura essencial, tão estratégica quanto uma barragem ou uma rede elétrica.E, talvez, isso faça toda a diferença nas decisões que se avizinham.
 

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