KPMG: 88% das empresas já investem em Agentes de IA, mas retorno financeiro continua por provar
O estudo “Global Tech Report 2026”, publicado hoje pela KPMG, revela que embora metade das empresas mundiais prometa atingir a maturidade tecnológica plena até ao final deste ano, apenas 11% das organizações se encontram atualmente nesse patamar.
Esta discrepância revela um claro fosso entre a ambição e a realidade, num contexto em que a transformação digital deixa de ser opcional e passa a ser um fator crítico de competitividade.
O relatório, que analisa a governança tecnológica em 27 países, destaca um cenário de forte investimento, mas com bases frágeis. Se por um lado a transformação digital é vista como fator crítico de competitividade, por outro, o passado “pesa” em 63% das empresas que admitem que o custo para corrigir a dívida técnica (sistemas obsoletos e remendos de software) está a travar novos investimentos.
“Enquanto 63% admite que o custo de corrigir a dívida técnica acumulada está a travar novos investimentos. Em paralelo, 69% das empresas afirma ter feito compromissos em áreas como a segurança ou a normalização de dados para ganhar velocidade e reduzir custos, aumentando o risco operacional a médio prazo”, refere a Deloitte.
Além disso, a falta de recursos humanos é um entrave real já que 53% dos executivos reconhecem não ter o capital humano necessário para as metas traçadas. “Já não se trata apenas de investir em novas ferramentas, mas de garantir bases estruturadas — dados, arquitetura e talento”, alerta Rui Gonçalves, Partner da KPMG em Portugal.
A Inteligência Artificial entrou numa nova fase. O estudo indica que 88% das organizações já investem em “agentes de IA” — sistemas capazes de executar tarefas de forma autónoma.
No entanto, esta evolução traz novos desafios, pois embora 74% das empresas afirmem que a Inteligência Artificial já cria valor para o negócio, apenas 24% conseguem demonstrar retorno do investimento consistente em múltiplos casos de uso. O estudo revela ainda que 58% dos executivos considera que as métricas tradicionais de ROI são insuficientes para avaliar investimentos em IA, e 55% admitem dificuldades em comunicar o valor destes projetos a stakeholders e acionistas.
“A transformação tecnológica entra numa fase decisiva, pois já não se trata apenas de investir em novas ferramentas, mas de garantir que existem bases estruturadas (dados, arquitetura, talento e governance) que permitam escalar a tecnologia de forma sustentável e com impacto real na competitividade e no negócio”, explica Rui Gonçalves, Partner e Head of Technology Consulting da KPMG em Portugal
São quatro pilares críticos que o Global Tech Report 2026 identifica como os “estranguladores” da maturidade digital:
O primeiro é o que a Deloitte chama de paradoxo da Inteligência Artificial. A grande novidade de 2026 é a IA Agente (Agentic AI). Ao contrário dos chatbots tradicionais, estes agentes operam autonomamente nos sistemas.
O estudo diz que 88% das empresas já têm “trabalhadores digitais” em operação. O estudo revela também uma crise de confiança nas métricas. Como 55% dos executivos não conseguem explicar o valor dos projetos aos acionistas, o investimento corre o risco de ser cortado se não houver uma transição para métricas de “valor de decisão” e “resiliência” em vez de apenas lucro direto.
O segundo pilar é a “fatura” da dívida técnica. O relatório é incisivo ao dizer que a inovação está a ser asfixiada por decisões do passado.
A Deloitte aponta que existe uma certa inércia operacional, já que 63% das organizações gastam tanto a manter ou a “remendar” sistemas antigos que não sobra orçamento para a transformação real.
Depois, e para tentar compensar este atraso, 69% estão a ignorar normas de segurança e padronização de dados. A KPMG alerta que isto é uma “bomba-relógio” para a integridade dos dados necessária à IA.
O terceiro pilar é o fosso do talento. Pois a tecnologia evoluiu mais rápido que as equipas. Mais de metade das empresas (53%) admite que o seu plano estratégico é impossível de executar com as competências atuais da sua força de trabalho.
Rui Gonçalves, Partner e Head of Technology Consulting da KPMG em Portugal, enfatiza que a maturidade não se compra; constrói-se com governance e talento que saiba orquestrar a arquitetura tecnológica.
O quarto pilar é o contexto em Portugal. Ainda que o estudo seja global, o diagnóstico para o tecido empresarial português aponta para dois riscos específicos. Por um lado a escala. As empresas portuguesas, muitas vezes menores, têm menos margem para errar no investimento em IA. Por outro lado, a produtividade. A falta de “bases sólidas de dados” mencionada pela KPMG pode impedir que as PME nacionais tirem partido da automação para resolver o histórico problema de produtividade do país.
Na pressa de ganhar mercado, 69% das empresas confessam ter sacrificado a segurança ou a normalização de dados para acelerar processos. Para a KPMG, este “atalho” aumenta o risco operacional a médio prazo e pode comprometer a resiliência do negócio.
Embora o relatório não isole dados de Portugal, Rui Gonçalves sublinha que as conclusões são um aviso para o mercado nacional: sem uma governança sólida, a aceleração da IA pode agravar riscos em vez de aumentar a produtividade.
O mercado de 2026 irá, assim, separar as empresas que escalam com disciplina daquelas que ficam presas a projetos dispersos e sistemas legados.
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