Reedição de títulos emblemáticos de Eduardo Lourenço chega em março às livrarias
Fazem falta livros provocadores e lúcidos. Para melhor compreendermos os tempos turbulentos em que nos movemos. Ou paralisamos. O Labirinto da Saudade e O Fascismo Nunca Existiu inscrevem-se naquelas ‘categorias’. Ou como refere a editora que os reedita, a Gradiva, em comunicado, se o primeiro, publicado originalmente em 1978, é “provocador e lúcido”, não menos será “um dos mais marcantes éditos sobre a condição humana e as imagens que criamos de nós mesmos.”
Palavra a Eduardo Lourenço. “Não é possível construir nem viver de uma imagem nacional asséptica, à margem de toda a hipótese ideológica, ou, se se prefere, de qualquer preconceito explícito. Mas, justamente por isso, nada é mais necessário do que rever, renovar, suspeitar sem tréguas as imagens e os mitos que nelas se encarnam inseparáveis da nossa relação com a pátria que fomos, somos, seremos, e de que essas imagens e mitos são a metalinguagem onde todos os nossos discursos se inscrevem.” – in O Labirinto da Saudade.
Sensibilidade literária, sim, e olhar crítico. Sem esquecer uma rara capacidade de interpretação cultural, que permite a Eduardo Lourenço mostrar como a saudade – mais do que sentimento – se tornou a chave simbólica para entender a forma como os Portugueses se pensam e se narram. Nele, o pensador convida os leitores a atravessar o “labirinto” que ele próprio cartografa: “um espaço onde convivem memória, melancolia, projeções de grandeza e inquietações modernas.”
A lucidez também está presente em “O Fascismo Nunca Existiu”, lançado em 1976. A par de doses nada homeopáticas de ironia. É uma “provocação intelectual, uma vez que se trata de um texto que não se limita a discutir o fascismo como fenómeno histórico ou político, questionando-o como mito, como construção imaginária e como espelho das angústias da modernidade europeia”, realça o comunicado da editora.
“À Democracia cumpre pensar‑se como a estrutura mais adequada para que no seu seio se realizem progressivamente as condições de libertação dos indivíduos. A Democracia não tem outro conteúdo que esse mesmo de promover essas condições”, escreve Eduardo Lourenço. Um livro que é, acima de tudo, “sobre a fragilidade da democracia, o poder das palavras e a inquietação do homem moderno”, sublinha a editora.
Eduardo Lourenço nasceu a 23 de maio de 1923, em S. Pedro de Rio Seco, Almeida. Formado em Ciências Histórico-Filosóficas pela Universidade de Coimbra, onde foi professor entre 1947 e 1953, lecionou depois em várias universidades, como a da Baía, no Brasil, e nas Universidades de Hamburgo, Heidelberga, Montpellier, Grenoble e Nice. Fixou residência em Vence e lecionou, até à sua jubilação, na Universidade de Nice.
Marcou o pensamento português ao longo de cinquenta anos, com especial ressonância no pós-25 de abril. Uma voz que surpreendeu pela “capacidade de ser portador de um olhar sempre diferente e inquietante sobre os problemas de que se ocupa”, espantando pela “pluralidade de interesses, a imensidão de uma cultura que não se entrincheira em redutos de erudição, o jogo ilimitado das referências”, como realça Eduardo Prado Coelho em “Eduardo Lourenço: Um Rio Luminoso”, in A Mecânica dos Fluídos.
Em 2010, passou a residir entre França e Portugal, até se radicar definitivamente em Lisboa, onde morreu em 1 de dezembro de 2020. Nos últimos anos, Eduardo Lourenço recebeu inúmeras distinções, entre as quais se destacam o Prémio Camões, em 1996, o Prémio Pessoa, em 2011, o Prémio da Academia Francesa, em 2016, e ainda o Prémio Vida e Obra, da Sociedade Portuguesa de Autores, para citar apenas alguns que reconheceram a ‘lucidez’ de um dos expoentes máximos do ensaísmo literário e cultural contemporâneo.
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