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O serviço nacional de saúde depois da pandemia

O serviço nacional de saúde depois da pandemia

A Covid-19 não foi apenas uma crise sanitária; foi, também, um teste a fragilidades e resiliências que fez acelerar em meses, o que poderia levar vários anos a atingir, no que à inovação diz respeito. O serviço nacional de saúde (SNS) foi o principal visado. Sofreu grandes impactos e esteve (e está) sob grande pressão. E no meio de tudo, precisou de se reinventar, adaptando-se às soluções tecnológicas que existiam no momento. E no futuro, como será a medicina?
Covid-19: o impacto
2020 será sempre um marco na história de Portugal. O ano em que a Covid-19 por cá chegou e que mudou formas de viver, de trabalhar, de conviver, de tratar. As vidas alteraram-se, as relações passaram a ser feitas à distâncias, mas os profissionais de saúde não arredaram pé dos hospitais. O desconhecido coronavírus e as suas implicações levaram várias pessoas a necessitarem de cuidados de saúde, muitas com internamento. As consequências? Hospitais lotados, cirurgias em espera e rastreios adiados. No total, foram “25 mil mortes a mais do que seria expectável, de acordo com a tendência histórica, perto de 21 mil mortes atribuídas diretamente à doença, uma queda acentuada da esperança média de vida e dois processos de confinamento”, refere-se no livro “Impactos da Pandemia de Covid-19 em Portugal”, da Fundação Francisco Manuel dos Santos (FFMS). Contudo, é importante salientar a forma como o SNS reagiu: se antes da pandemia, demonstrava uma capacidade de resposta a um risco sistémico inferior è média dos restantes países da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico (OCDE) — no que a número de médicos, enfermeiros e consultas por mil habitantes diz respeito —, nas fases iniciais da pandemia, Portugal esteve no grupo da frente no que respeita à quantidade de testes realizada (11.ª entre os países da OCDE). Porém, o excesso de mortalidade na altura da Covid-19 incorpora também o aumento de mortes por outras causas não diretamente relacionadas com a pandemia (como por doença cardiovascular), devido a uma resposta menos eficaz por parte do SNS, assim como por quebras na prestação de serviços de saúde e a autoexclusão por parte da população devido ao medo de contágio. “Em alinhamento com este excesso de mortalidade, verificamos que durante 2020–2021, os portugueses estão, em termos comparativos na OCDE, entre os que mais referiram necessidades médicas extra-Covid-19 por satisfazer”, lê-se no livro da FFMS.
A pressão no SNS
Ainda durante a pandemia, os profissionais de saúde foram aplaudidos, às janelas, pela população. O reconhecimento possível a quem passava horas e dias dentro de hospitais, a fazer os possíveis e impossíveis, independentemente dos recursos que se tinha. Este trabalho constante levou profissionais de saúde a um estado de exaustão. Exaustão essa que, aliada à pressão constante durante os picos pandémicos, a turnos excessivos e à estagnação de carreiras, levou a um descontentamento por parte dos profissionais de saúde que ainda hoje se sente. E os médicos mais novos não são excepção: num estudo desenvolvido pela Plataforma de Jovens Profissionais de Saúde, para avaliar o bem-estar de jovens médicos, farmacêuticos e enfermeiros até aos 35 anos, pelo menos 65% dos inquiridos pensam em emigrar. Ainda que o salário seja uma das principais insatisfações apresentadas por quem planeie sair do país, há algo que é transversal: a insatisfação com a falta de reconhecimento. E ainda que o setor público seja o predileto pelos jovens profissionais da saúde, as condições de trabalho fazem-nos optar pelo privado: “Perante a igualdade de situação contratual, mais de metade dos jovens profissionais prefere trabalhar no setor público. Dois terços dos profissionais atualmente a trabalhar no setor privado optariam pelo setor público em condições de trabalho equivalentes”, lê-se no estudo. Esta fuga de talento do setor público leva a menos trabalhadores no SNS, criando uma pressão para os que aí desempenham funções e para o próprio sistema.
A telemedicina
Foi durante a pandemia que a telemedicina ganhou destaque. Numa informação de monitorização da Entidade Reguladora da Saúde (ERS), sobre os impactos da pandemia Covid-19 no sistema de saúde, entre março e junho de 2020, é referido um “aumento muito relevante do número de unidades de telemedicina”, o que pode ter acontecido como a forma de se assegurar, em tempos incertos, a continuidade de prestação de cuidados aos utentes. Nos Cuidados de Saúde Primários (CSP), as teleconsultas mais do que duplicaram em dois anos de pandemia: em 2019, fizeram-se 9,2 milhões de teleconsultas, ao passo que em 2021, o número foi acima dos 20,1 milhões. Este adaptar forçado permitiu que mais pessoas tivessem acesso a cuidados de saúde ainda que à distância. Um benefício para quem, sobretudo, não tem acesso mais facilitado a profissionais de saúde, dado o seu lugar geográfico.
Visão para 2036
A medicina tem evoluído a passos largos. E nos últimos 10 anos, a tecnologia e a partilha de dados em tempo real parecem estar a transformar a saúde, levando a que os profissionais apostem mais na prevenção do que no tratamento. A medicina preventiva traz benefícios tanto para o doente, como para o próprio SNS: ao detetar-se uma doença na fase inicial, aumentam-se as probabilidades de cura, especialmente se se tratar de uma doença grave; ao prevenir-se e tratar-se precocemente, diminui-se a mortalidade e melhora-se a qualidade de vida; e tratar uma doença numa fase inicial tem muito menos custos para o serviço de saúde do que tratá-la numa fase mais avançada. Apostar na saúde preventiva é aderir aos programas nacionais de vacinação e de rastreios — estes últimos como forma de fazer despiste a algumas doenças —, mas também apostar num estilo de vida mais equilibrado, tendo cuidado com a alimentação e bem-estar psicológico, e praticando exercício físico.
A tecnologia aliada a análise de dados é já uma grande ajuda, que pode ainda progredir. Smartwatches, braçadeiras cardíacas ou pulseiras desportivas fazem parte do dia a dia de muitas pessoas. A IoT (Internet of Things – “internet das coisas”) veio para ficar e para facilitar a nossa vida e a nossa saúde. Não serve apenas para momentos lúdicos: ela pode ajudar muitos pacientes de forma remota.
Mas não são apenas a prevenção e o rastreio as únicas apostas no futuro da saúde. Também o diagnóstico e o próprio tratamento de doenças começa a entrar numa nova fase: a da biotecnologia. Adaptar o tratamento à doença, tornando-o mais direcionado à mesma, através da terapia genética e celular, é uma realidade que pode ganhar ainda mais terreno. Também o recurso à medicina regenerativa (em que se utilizam componentes biológicos do próprio paciente para estimular a reparação de tecidos) e à medicina personalizada (integra a caracterização fenotípica e genómica do indivíduo para um diagnóstico e prognóstico mais precisos) podem ser as grandes apostas da próxima década.

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