Lições de golfe: como a política interfere no trabalho
Num campo de golfe profissional, onde cada tacada é analisada ao milímetro e cada erro custa milhares de dólares, há um novo adversário silencioso: a política. Um estudo recente conduzido por investigadores da University of California, Berkeley e da Yale School of Management concluiu que jogadores de golfe profissionais tendem a jogar pior quando são colocados em grupos com colegas com preferências políticas diferentes.
A investigação, publicada na revista científica “Management Science”, analisou mais de 25 mil rondas de torneios do circuito PGA Tour entre 1997 e 2022. A conclusão pode parecer saída de uma conversa de café, mas os números são claros. Em média, jogadores que partilham o grupo com rivais políticos fazem resultados cerca de 0,2 tacadas piores por ronda, caem algumas posições na classificação e têm menos probabilidades de passar o “cut” (a linha que separa quem continua no torneio de quem vai mais cedo para casa).
No mundo do golfe profissional, uma diferença de décimas pode significar milhares de dólares. Segundo os autores do estudo, essa pequena quebra de desempenho representa perdas potenciais entre 13 mil e 23 mil dólares por torneio. Curiosamente, o problema não parece ser discutido em campo, até porque, no golfe profissional, falar durante a tacada é quase tão mal visto como mexer na bola.
O efeito surge sobretudo em momentos em que os jogadores estão fisicamente próximos, como no “drive” inicial ou no “putt” final no green. Nas fases intermédias do percurso, quando cada um está mais disperso pelo campo, o impacto quase desaparece. A interpretação dos investigadores é simples: a mera presença de alguém com posições políticas opostas pode gerar tensão psicológica suficiente para distrair. Não é preciso debate aceso nem troca de argumentos. Basta saber que a pessoa ao lado vota “noutro candidato”.
Embora o estudo se concentre no golfe, os autores acreditam que o fenómeno pode estender-se a outros contextos profissionais. Ambientes como open spaces, equipas comerciais que trabalham lado a lado ou salas de trading — onde as pessoas estão próximas e o desempenho individual é medido de forma rigorosa — podem ser particularmente sensíveis a este tipo de tensão. E há outro fator: a política sinaliza valores e identidades de forma muito direta, criando rapidamente a sensação de “nós” e “eles”.
A solução, contudo não é separar “tribos”. Entre as possíveis alternativas destacam dar mais espaço físico aos trabalhadores em períodos politicamente tensos, reforçar práticas de inclusão e criar ambientes psicologicamente seguros. Ou, dito de forma: talvez seja prudente deixar a política fora da conversa quando alguém está prestes a fazer uma tacada decisiva — ou a terminar um relatório importante. Porque, aparentemente, tanto no golfe como no trabalho, a polarização pode mesmo fazer falhar a jogada. Teresa Cotrim
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