Exposição da banca aos concelhos afetados ascende a 13,5 mil milhões nas empresas e 20,8 mil milhões a particulares
O Banco de Portugal revelou hoje a exposição do setor bancário aos concelhos em situação de calamidade na sequência da tempestade Kristin no contexto da publicação do “Sistema Bancário Português: Desenvolvimentos recentes do 4º trimestre de 2025”.
Os bancos têm mais de 34 mil milhões de euros em empréstimos a concelhos em situação de calamidade, segundo o Banco de Portugal, que alerta para potenciais riscos futuros ainda por quantificar.
A exposição dos bancos em termos de em empréstimos aos concelhos afetados é, no que toca a empresas 13,5 mil milhões de euros, o que representa 18,5% do total do crédito a empresas no país.
Destes empréstimos, 4,1 mil milhões de euros estão associados a empréstimos com a garantia de um ativo fixo, imóvel ou outro (por exemplo equipamento/maquinaria).
Já a exposição dos bancos ao crédito à habitação nos concelhos afetados ascende a 20,8 mil milhões, o que representa 18,7% do total de crédito à habitação no país.
O banco central detalha ainda que a exposição da banca ao crédito à habitação própria e permanente (que está abrangida pela moratória de crédito), soma 15,8 mil milhões de euros, o que representa 17,9% do crédito a este segmento no país.
Os números não incluem o impacto mitigante da cobertura de seguros.
O Banco de Portugal considerou 90 concelhos com declaração de “calamidade” na sequência das tempestades que afetaram o país nos meses de janeiro e fevereiro e que causaram graves perdas económicas, o que poderá aumentar potencialmente o risco de crédito da banca. No entanto esse potencial aumento de risco ainda não está calculado.
“Antes do impacto das tempestades, estas exposições não evidenciavam um nível de risco de crédito superior ao da carteira total de empréstimos”, sublinha o BdP.
“Os indicadores de risco de crédito associados aos empréstimos nos concelhos afetados não apontam para diferenças face ao total da carteira de empréstimos, no período anterior às tempestades”, segundo o supervisor bancário.
Os canais de contágio à banca são a destruição de ativos físicos e a disrupção das cadeias de valor, no caso das empresas, e destruição do
património e diminuição do rendimento, no caso dos particulares.
A proporção das empresas da indústria nos concelhos afetados supera a média do país. O banco central revela ainda que as empresas daqueles concelhos são 20% do total das empresas em Portugal; 13% dos ativos totais; 17% do total de pessoas ao serviço; 16% do valor acrescentado bruto (VAB) nacional; e o peso do setor industrial nestes concelhos é de 36% do VAB (21% no conjunto do país).
No relatório é referido que “as empresas com residência fiscal nestes concelhos representavam cerca de 20% do total das empresas em Portugal (13% dos ativos totais e 17% do total de pessoas ao serviço) e contribuíram para 16% do valor acrescentado bruto (VAB) nacional, tendo como referência informação da Central de Balanços para 2024. A distribuição por setor de atividade revela um peso superior do setor industrial nestes concelhos (36% do VAB, face a 21% no conjunto do país)”
Os empréstimos concedidos a empresas, tendo em conta as 20 maiores exposições, estão mais concentrados em Leiria que acumula 1,1 mil milhões de euros e 8,4% do total dos 13,5 mil milhões. Segue-se Coimbra com 600 milhões e 4,4% do total da exposição.
Os empréstimos nos concelhos afetados estão principalmente associados aos setores da indústria (32%), comércio (22%) e construção e atividades imobiliárias (13%). Estes três setores representam dois terços do total da exposição nos concelhos afetados.
No que toca aos particulares, o perfil de risco dos empréstimos à habitação nos concelhos afetados é semelhante ao do total dos empréstimos à habitação no país, antes do efeito da tempestade, constata o BdP.
Estes concelhos representavam 22% da população residente em Portugal em 2024 e apresentavam, em 2023, um valor médio de rendimento líquido anual por habitante (9.255 euros) inferior ao do conjunto do país (10.367 euros).
O banco central lembra ainda que em resposta à destruição causada pelo ciclo de tempestades, o Governo introduziu diversas medidas de apoio, algumas delas diretamente relacionadas com o setor bancário. “Destacam-se a moratória de crédito e as linhas de crédito com garantia pública”, diz o BdP que remete para o Relatório de Estabilidade Financeira, a ser publicado a 27 de maio, dados concretos sobre moratórias concedidas.
“A adesão dos devedores ao regime de moratória não conduz, por si só, à reclassificação automática de risco das suas obrigações de crédito, para efeitos contabilísticos ou prudenciais”, lembra o BdP.
“Estas medidas deverão contribuir para adequar o serviço de dívida dos mutuários ao impacto negativo das tempestades no rendimento e contribuir para suprir as necessidades de financiamento decorrentes da recuperação gradual da atividade das empresas”, lê-se no documento.
Recorde-se que as estimativas preliminares da Estrutura de Missão para os prejuízos totais apontam para montantes superiores a 5 mil milhões de euros. Segundo estimativas da Associação Portuguesa de Seguradores (APS) com referência a 26 de fevereiro de 2026, os prejuízos totais com cobertura por seguros ascendiam a mais de 750 milhões de euros, sendo que 80% das perdas económicas em empresas e habitações não estão cobertas por seguros.
Sistema bancário português demonstra resiliência apesar da descida das taxas de juro
O sistema bancário português mostrou-se robusto e resiliente no quarto trimestre de 2025, mesmo após as descidas das taxas de juro oficiais verificadas na primeira metade do ano, revela o Banco de Portugal na sua análise.
O supervisor do setor reconhece que a rentabilidade sofreu uma ligeira moderação, com o retorno sobre o capital próprio (ROE) a recuar 0,61 pontos percentuais para 14,52%, pressionado pela compressão da margem financeira.
Ainda segundo os dados divulgados pelo BdP, o balanço das instituições bancárias cresceu 1,7% em termos de ativo total, impulsionado principalmente pelo aumento dos empréstimos a clientes, com destaque para o segmento da habitação. A qualidade dos ativos manteve-se sólida: o rácio de empréstimos não produtivos (NPL) desceu ligeiramente para 2,1% e o de empréstimos em stage 2 reduziu-se para 8%.
Este desempenho ocorreu num contexto de crescimento económico mais moderado em Portugal, ainda assim acima da média da área do euro. O produto interno bruto (PIB) cresceu 1,9% no 4.º trimestre e no conjunto do ano de 2025, acima da área do euro (1,2% e 1,4%, respetivamente).
A inflação abrandou para níveis próximos dos 2% e o mercado de trabalho continuou favorável, com o desemprego em valores historicamente baixos. As descidas das taxas de juro tornaram as condições de financiamento mais acessíveis tanto para empresas como para famílias, refere o BdP.
No 4.º trimestre de 2025, a taxa de desemprego cifrou-se em em 5,8%, menos 0,9 pp do que no período homólogo. No conjunto do ano, a taxa média de desemprego fixou-se em 6,0%, mantendo-se uma evolução positiva do mercado de trabalho, refere o BdP.
Os indicadores das empresas não financeiras revelam que a rentabilidade operacional se manteve em níveis elevados no terceiro trimestre de 2025. O endividamento continuou a reduzir-se em relação ao PIB, a autonomia financeira estabilizou em máximos históricos e a liquidez permaneceu elevada. No caso das famílias, o rendimento disponível aumentou 6,9% face ao mesmo período de 2024.
No mercado imobiliário residencial, os preços mantiveram um ritmo de crescimento significativo, com uma variação homóloga de 18,9% no quarto trimestre.
“No 4.º trimestre de 2025, o mercado imobiliário registou uma forte aceleração nos preços, que subiram 18,9%, contrastando com uma quebra de 4,7% no volume de vendas. Este cenário foi marcado pelo domínio das habitações usadas (80% das trocas) e por um recuo expressivo de 20,9% no investimento de não residentes. Em contrapartida, o recurso ao crédito ganhou peso, representando 53,6% do montante das transações. No que toca à oferta, o licenciamento de novos fogos cresceu significativamente (21% no acumulado do ano), enquanto a conclusão de obras abrandou. Já os custos de construção estabilizaram no final do ano, fixando-se numa subida média anual de 4%”, lê-se no relatório.
Riscos acentuam-se no início de 2026
Apesar dos bons resultados de 2025, os riscos para a estabilidade financeira agravaram-se no arranque de 2026, alerta o Banco de Portugal. A intensificação das tensões geopolíticas, aliada à maior incerteza quanto à orientação das políticas comerciais internacionais e à evolução dos preços da energia, contribuiu para este cenário.
As taxas Euribor e as yields da dívida pública subiram, enquanto os riscos relacionados com a sustentabilidade da dívida soberana em várias economias relevantes aumentaram, nomeadamente devido ao previsível acréscimo de despesas militares e em infraestruturas. Nos mercados financeiros globais, as carteiras de títulos permanecem vulneráveis a correções abruptas de preços, com potencial efeito de contágio sobre as instituições financeiras domésticas.
Esta conjuntura eleva a probabilidade de impactos negativos na rentabilidade, especialmente para as empresas mais dependentes dos mercados externos ou com maior consumo energético. Embora o mercado de trabalho se mantenha resiliente, com desemprego baixo, um eventual agravamento do contexto macroeconómico poderá dificultar às famílias o cumprimento das suas obrigações de dívida.
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