O peso da burocracia
“Burocracia” é aquela designação que não reúne grande simpatia da maioria dos cidadãos, mesmo que, teoricamente, seja um sistema ordeiro, transparente e promotor de melhor funcionalidade do Estado. É, de facto, assim? Para mais quando é evidente que há rigidez e excesso de “regras”, que a morosidade é frequente e, pior, a ineficiência não é rara e atola-se no “papel do papel” – a burocracia, assim, imersa numa “inútil papelada de mão em mão”, ofícios, informações, despachos, sentenças, formulários, escrituras, convocatórias, minutas, relatórios… e tantas outras formalidades e documentos administrativos.
Pessoalmente, não partilho a visão de que esta é uma estrutura necessária e menos ainda “democrática, além de serem evidentes os seus múltiplos custos, financeiros e humanos a burocracia pode ser uma das faces da desumanização quando falta a sensibilidade quer nas relações interpessoais quer na resolução de problemas. Os burocratas, em si, tendem a complicar o que à partida é simples, e aplicam (tantas vezes) regras capazes de dissimular a sua ineficiência, aceitável sob a capa da confiabilidade da burocracia, sem deixarem de exercer um poder consubstanciado no dos “pequenos ditadores” – é o poder da burocracia e as suas armas de papel (ou electrónicas) com elevado impacto económico. Sem ignorar que o excesso burocrático e a corrupção constituem um conluio nocivo para as sociedades…
É impossível, neste contexto, não remeter ao Processo Kafkiano e às suas legiões de funcionários, desde os poderosos aos menos perspicazes e mesmo ineptos, todos hierarquizados numa pirâmide de poder omnipresente e frágil, com transmissão de ordens e fluxos de informação que desaguam, inevitavelmente, em excesso de papel e em duplicados do papel – ou seja, numa sobrecarga do sistema que o fragiliza e não muito diferente da avalanche de emails diários, máquinas e algoritmos.
Sim, estamos na era digital e o modelo clássico burocrático de papel e hierarquia de poderes, na realidade não se perde, apenas se altera, com igual controlo, agora sem regulação humana, mas com uma eficiência tecnológica (e burocrática) desprovida de controlo democrático…e assustadoramente provida de despotismo digital.
Toda esta máquina de engrenagens dissimuladas traduz um sistema rígido, desumanizado e impessoal. Para não falar de exageros de formalismo, excesso de regulamentos, enfatização da hierarquia e poder.
Share this content:



Publicar comentário