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Como os trabalhadores estrangeiros têm sustentado o emprego em Portugal

Como os trabalhadores estrangeiros têm sustentado o emprego em Portugal

O crescimento do emprego em Portugal nos últimos anos tem tido um protagonista discreto: os trabalhadores estrangeiros. Apesar de continuarem a aumentar, o seu contributo começou a abrandar em 2025, levantando questões sobre o futuro da economia num país marcado pelo envelhecimento demográfico e pela escassez de mão-de-obra.
O mercado de trabalho português vive um paradoxo. Enquanto a atividade económica abranda — com o PIB a crescer a ritmos mais moderados no horizonte até 2028 —, o emprego manteve-se resiliente, atingindo máximos recentes. Por trás desta dinâmica está um fator estrutural: o peso crescente dos trabalhadores estrangeiros, que têm compensado a redução da população ativa nacional, segundo o Boletim Económico de março de 2026 do Banco de Portugal.

Fonte: Banco de Portugal
De acordo com o boletim, os trabalhadores estrangeiros representaram 17,6% do emprego por conta de outrem nos primeiros três trimestres de 2025, um aumento expressivo face aos 5,9% registados em 2019. Este crescimento reflete não apenas a atratividade recente da economia portuguesa, mas também limitações estruturais da oferta interna de trabalho, num contexto de envelhecimento demográfico.
Menos imigração, menos crescimento do emprego
Apesar do peso crescente, começam a surgir sinais de abrandamento. Segundo o Banco de Portugal, o contributo dos trabalhadores estrangeiros para a variação do emprego diminuiu em 2025, refletindo a desaceleração dos fluxos migratórios após os máximos observados em 2022 e 2023.
De acordo com o Boletim, esta evolução está associada a alterações legislativas nas regras de imigração e a um menor dinamismo da atividade económica, particularmente nos setores mais intensivos em trabalho. O contributo dos trabalhadores estrangeiros caiu de 3,0 pontos percentuais em 2024 para 1,9 pontos percentuais em 2025.
Entre as várias nacionalidades, destacam-se mudanças relevantes. Segundo o Banco de Portugal, os trabalhadores oriundos do Sul da Ásia — como Índia, Bangladesh, Nepal e Paquistão — registaram a maior desaceleração, com o seu contributo a cair de 0,9 para 0,3 pontos percentuais. Também os trabalhadores brasileiros viram o seu peso relativo diminuir.
Em contrapartida, de acordo com o mesmo relatório, os trabalhadores provenientes dos Países Africanos de Língua Oficial Portuguesa (PALOP) reforçaram o seu contributo para o crescimento do emprego.
Fonte: Banco de Portugal
Setores dependentes de mão-de-obra estrangeira
O impacto da imigração é particularmente visível em setores com salários médios mais baixos e maior intensidade de trabalho. Segundo o Banco de Portugal, alojamento e restauração, agricultura e pescas, comércio e indústria destacam-se como áreas onde o contributo dos trabalhadores estrangeiros foi determinante — e onde o abrandamento recente se fez sentir de forma mais clara.
O relatório indica que, em 2025, o contributo destes setores para o crescimento do emprego diminuiu, refletindo tanto a menor entrada de trabalhadores estrangeiros como a desaceleração da atividade económica. Em contraste, setores como a administração pública, saúde e educação — mais dependentes de trabalhadores nacionais — reforçaram o seu contributo.
Um desafio estrutural: menos pessoas, mais produtividade
A análise do Banco de Portugal aponta para um desafio estrutural: o crescimento do emprego em Portugal tem sido, em larga medida, sustentado pela imigração. No entanto, as projeções assumem uma redução dos fluxos migratórios nos próximos anos, o que deverá traduzir-se num abrandamento do crescimento do emprego.
Segundo o Boletim Económico de março de 2026, o crescimento do emprego deverá desacelerar progressivamente até 2028, num contexto de menores fluxos migratórios e de uma evolução demográfica desfavorável.
Neste cenário, o banco central sublinha que o crescimento económico terá de assentar cada vez mais em ganhos de produtividade. De acordo com a instituição, isso implica reforçar o investimento em qualificação, inovação, digitalização e automatização, bem como aproveitar o potencial da inteligência artificial.
Mais do que uma tendência conjuntural, o contributo dos trabalhadores estrangeiros revela-se assim um elemento central da economia portuguesa contemporânea. Segundo o Banco de Portugal, a sustentabilidade do crescimento e dos salários reais dependerá, no longo prazo, da capacidade de transitar de um modelo assente na quantidade de trabalho para um baseado na sua produtividade.

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