O instagram do neto de Fidel Castro
Sandro herdou um dos apelidos mais sonantes da história: Castro. É neto de Fidel, “El Comandante”, do homem que derrubou o regime de Fulgêncio Batista e governou Cuba com mão de ferro durante quase 50 anos. Com a vida pessoal sempre envolta em secretismo, diferente de Sandro. Afinal, enquanto o avô fez política, o descendente faz publicações nas redes sociais. Tem cerca de 152 mil seguidores no Instagram e move-se num território ambíguo entre o desejo de uma Cuba livre — que ninguém sabe se é uma metáfora para o país ou para a bebida — e uma Coca-Cola que, em Cuba, é quase um artigo de luxo. Suspira por ela como quem sonha com liberdade engarrafada. “Quando tiveres, avisa-me”, diz a um barman num dos seus vídeos enigmáticos.
Tem 33 anos, cabelo estiloso e barba por fazer. Parece que lhe corre nas veias o mesmo ímpeto pelo manifesto público. Fidel fazia panfletos para espalhar a palavra comunista de igualdade para todos; Sandro faz vídeos que deixam sempre no ar a dúvida: se defende e acredita no lema do avô ou se, de forma camuflada e excêntrica, critica o regime. Dá sempre uma no cravo e outra na ferradura.
É apaixonado por óculos de sol; o avô era por relógios Rolex — usava dois no mesmo pulso. E, apesar da ideia de uma Cuba fechada, o influencer está a enviar mensagens para o mundo. Usa uma linguagem gestual muitas vezes sexualizada. Um dos momentos virais é quando pega num bidão de gasolina — símbolo de escassez — e o transforma numa espécie de personagem enamorada, levando-o até à praia e sentando- -o numa espreguiçadeira à beira- -mar. Não é amor, é sátira.
Noutro vídeo, um sósia de Donald Trump aparece à porta de uma casa — talvez a sua — com a proposta de “comprar Cuba”. Chama-o de “louco” e leva-o a passear de mota, enquanto o presidente dos EUA diz que adoraria construir mansões à beira-mar em Havana. O tom é leve, mas o pano de fundo mantém-se: o isolamento, a negociação e a dependência externa de Cuba.
Entre música, álcool e consumo visível, os seus vídeos mostram um nível de acesso a bens que não é transversal à sociedade cubana, como cerveja, cocktails e pizza, quando muitos habitantes nem leite conseguem comprar aos filhos. O seu bar, abastecido, surge como um contraponto implícito a uma economia marcada pelo racionamento, filas de espera e apagões. O salário médio, segundo o cibercuba, ronda os 7.000 pesos, ou seja, 17 dólares por mês. Isto quando, segundo a mesma fonte, o economista Javier Pérez Capdevilla revela que o custo de vida em Cuba ultrapassa os 50 mil pesos, ou seja, oito vezes o salário médio atual.
Sandro Castro não desafia abertamente o sistema que herdou, mas também não o protege por completo. Num regime assente no controlo da mensagem, essa diferença — entre o que se diz e o que se mostra — pode ser, por si só, um sinal de mudança. A verdade é que muitos observadores de Cuba estão de olho no seu instagram, talvez à procura de mensagens políticas subliminares ou de disputas de poder entre a elite
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