Max Verstappen pode mesmo abandonar a F1?
Max Verstappen tem repetido aos quatro ventos que não está feliz e que pondera sair da F1. Mas será essa ameaça séria? E, a confirmar-se, o que poderá acontecer?
Regulamentos “anti‑piloto” e frustração
Os novos regulamentos têm sido uma desilusão, especialmente para os adeptos mais “old school”, aqueles que apreciam (e viveram) gerações anteriores, que olham para esta e encontram muito pouco que agrade. E, se falamos de “old school”, é normal que Max Verstappen esteja incluído no lote de desiludidos. Afinal, ele é o mais “old school” dos pilotos, às vezes até mais do que os veteranos.
Verstappen diz estar triste, que estes carros não são desafiantes. Aliás, são, mas de uma forma que não faz sentido na F1. Em várias ocasiões classificou os regulamentos de 2026 como “anti-corrida” e “como Fórmula E com esteróides”, criticando sobretudo a necessidade de levantar demasiado cedo antes das curvas para poupar energia. Para muitos fãs, o sentimento de ver uma volta de qualificação em que se desacelera a 400 metros da curva está algures entre a irritação e a tristeza profunda. Basta ver onboards do passado para entender que esta nova filosofia de corridas faz o que mais nenhuma fez: abalar os fundamentos do desporto.
Foto: Philippe Nanchino/ MPS Agency.
O peso das palavras de Verstappen
A desilusão do neerlandês é tanta que o melhor piloto da atualidade, tetracampeão do mundo e com contrato com a Red Bull até 2028 (à volta de 60 milhões de euros por ano), admite publicamente que pondera sair da F1. Em entrevista recente à BBC, falou de uma motivação que se esgota rapidamente ao volante dos novos carros:
“Todas as manhãs, quando acordo, digo a mim mesmo que vai ser um bom dia. Fico entusiasmado por trabalhar com a equipa, e depois entro no carro e começo a conduzir. A minha motivação nesse momento é como uma bateria – está cheia no início, mas esgota-se muito rapidamente. (…) Quero estar aqui para me divertir. Posso aceitar facilmente estar em sétimo ou oitavo, porque sei que não se pode dominar sempre. Mas, quando estás nessas posições e não desfrutas da Fórmula 1, não parece natural para um piloto.”
Mesmo as reações do piloto em pista mostram um desagrado indisfarçável. Alguns repórteres neerlandeses afirmaram que nunca viram Max Verstappen assim. Será a ameaça real?
Entre o sonho e o desgaste
Aqui entramos no campo da futurologia e das hipóteses. Só Max Verstappen saberá o que quer fazer e talvez até ele esteja indeciso. Não é fácil para o melhor da atualidade sair do maior palco, mesmo que a música não seja do seu agrado. Os 22 pilotos que estão agora na grelha têm algo em comum: todos lutaram arduamente para chegar à F1. O sonho concretizado após muitos desafios, muitos altos e baixos e uma vida inteira com um único propósito. Não é fácil abandonar esse sonho quando todas as portas estão escancaradas. Assim, seríamos tentados a dizer que, em circunstâncias normais, não acreditaríamos na possibilidade de Verstappen sair.
A arma mediática de Max
Há também a questão mediática. Verstappen sabe que, se ameaçar sair, sendo ele uma das maiores estrelas da companhia, a F1 e os seus responsáveis são obrigados a, pelo menos, sentar-se e avaliar outras opções que não continuar sem alterações a este regulamento. A base de fãs de Max é enorme e, se ele sair, a F1 perde muito em audiências, narrativa e tração junto do público. Portanto, Verstappen poderá estar a usar isso a seu favor, numa técnica que a Red Bull usou muito no passado (quantas vezes Christian Horner e Helmut Marko ameaçaram com a saída quando algo não agradava).
Team 🙌 pic.twitter.com/BwC9wGOvPx
— Max Verstappen (@Max33Verstappen) March 21, 2026
O “old school” que olha para fora da F1
No entanto, Max Verstappen tem algo que a maioria dos atuais pilotos da F1 não tem, ou não pode ter: interesse real por outras categorias e liberdade para as abraçar. O #3 da Red Bull nunca escondeu a vontade de ir a Le Mans, de fazer corridas de resistência, de competir noutras disciplinas. A paixão pelas corridas é indiscutível e só assim se entende que, menos de 48 horas depois do GP do Japão, já andasse em Nürburgring com um GT3. Nisso, Verstappen é verdadeiramente “old school” e não tem problema em sair da F1 e pegar num GT3 apenas porque também se diverte aí. Neste momento, não será absurdo pensar que se pode divertir mais com um GT3 a fundo no Nordschleife do que na F1.
Bit of fun before the break, looking forward to 2026 ✌️ pic.twitter.com/YIqg8FcHjX
— Max Verstappen (@Max33Verstappen) December 24, 2025
Pode mesmo sair?
E esse é outro fator que pode pesar. Verstappen já é quatro vezes campeão, tem o seu nome gravado a ouro na história da F1. Se quisesse sair agora, a lista de conquistas seria mais que suficiente: quatro títulos consecutivos, vários recordes em seu nome, o reconhecimento unânime, dinheiro para viver confortavelmente para o resto da vida. Max Verstappen deu tudo para chegar à F1 e já recebeu isso e muito mais. Não é descabido que saia da F1, seja definitivamente, seja apenas num ano sabático, para fazer outras coisas. Fernando Alonso já o fez e regressou. Verstappen terá sempre as portas da F1 abertas. Portanto, o cenário da saída de Verstappen não pode, de todo, ser descartado.
A F1 sem Verstappen
E se isso realmente acontecer? Bem, se acontecer, a F1 continuará. Não seria o primeiro nem o último grande nome a sair. O impacto mediático seria superior pelas circunstâncias em causa, mas o desporto seguiria, como sempre seguiu. Já vimos grandes nomes saírem de cena, uns de forma mais dramática do que outros, mas a F1 sempre se manteve. Umas vezes mais forte, outras menos, mas sempre presente. Porque há sempre quem queira chegar ao topo, há sempre quem queira cumprir o sonho de trabalhar onde os melhores estão, porque há sempre novos talentos a chegar. A saída de Verstappen seria um golpe forte, mas não seria o fim do mundo para a F1. Seria, mais uma vez, o início de novas oportunidades para outras estrelas brilharem.
O verdadeiro risco para a F1
Mas o cenário ideal é a permanência de Verstappen. Porque esse seria um sinal de que a F1 tomou medidas para minimizar os efeitos desta regulamentação, aproximando novamente o desafio do que os fãs mais puristas esperam. A F1 sobrevive com a saída das suas maiores estrelas. Mas pode ficar demasiado fragilizada se os fundamentos do desporto, aquilo que apaixonou milhões, forem colocados em causa. A F1 sobrevive sem Verstappen, mas dificilmente sobrevive à 130R feita a meio gás, sem a adrenalina da velocidade pura, sem o talento e a coragem dos pilotos.
Fotos: MPSA, Red Bull / Getty Images, Max Verstappen
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