Álvaro Cassuto: morreu o maestro sem fronteiras
A 1 de abril de 1933, no mesmo dia em que o recém-eleito regime nazi decreta o boicote ao comércio detido por judeus, a família Cassuto abandona a Alemanha e, depois de uma breve passagem por Amsterdão, regressa a Portugal, a sua terra ancestral. Alfonso Cassuto, historiógrafo e ávido colecionador de manuscritos antigos, estuda e escreve sobre a herança histórica e cultural dos judeus portugueses. Instala-se no Porto, onde nasceu, em 17 de novembro de 1938, Álvaro Leon Cassuto. Cresceu em Lisboa, tendo iniciado muito cedo os estudos de violino e piano. Ainda na adolescência, estuda composição com nomes reputados na área, como Fernando Lopes Graça.
A música sempre o habitou, ao ponto de nem a Licenciatura em Direito, na Universidade de Lisboa, o ter desviado das pautas musicais. Ele que ainda poderou uma carreira diplomática, rumou à Alemanha onde, em 1960, frequentou os cursos internacionais de Darmstadt, trabalhando de perto com nomes maiores da composição: Gyorgy Ligeti, Pierre Boulez, Olivier Messiaen e Karlheinz Stockhausen.
Em 1961, com 22 anos apenas, estreou-se como maestro à frente da Orquestra do Porto e obteve o diploma de Kapellmeister no Conservatório de Viena. Posteriormente, foi maestro assistente (1965-1968) e subdiretor (1970-1975) da Orquestra Gulbenkian. Mais uma vez, estudou direção de orquestra com um dos melhores, Pedro Freitas Branco, internacionalmente reconhecido como um dos intérpretes mais virtuosos da música de Maurice Ravel, e depois com o renomado maestro Herbert von Karajan (1908-1989), em Berlim.
A sua admiração pelo maestro alemão não foi apenas verbalizada. Também a registou no livro “Álvaro Cassuto: Maestro sem Fronteiras”. “Para mim, nunca tive outro maestro no meu panorama que admirasse tanto como Karajan. Era um dos pouquíssimos que fazia essa ‘fusão’ de sons de uma maneira absolutamente espantosa, sem dizer uma palavra, só pelo gesto e pela sua personalidade”, frisou Álvaro Cassuto.
Nesse mesmo livro, explica o porquê de partir para os EUA. “Rapidamente cheguei à conclusão de que não tinha grande futuro em Portugal”, portanto, esta era “a melhor decisão que podia tomar”. Se dúvidas houvesse, um ano depois de fixar residência do outro lado do Atlântico, Cassuto recebia o Prémio Serge Koussevitzky, para jovens maestros, atribuído pelo Tanglewood Music Center, fundado pelo maestro de origem russa, histórico diretor da Orquestra Sinfónica de Boston. Entre 1968 e 1986 os EUA foram a sua casa. Lecionou na Universidade da Califórnia, de 1974 a 1979, foi maestro titular da Filarmónica de Rhode Island, de 1979 a 1985, e da Orquestra Nacional de Nova Iorque, entre 1981 e 1986.
Mais. Ao longo da sua extensa carreira, esteve ligado a dez orquestras, seis das quais em Portugal. A Orquestra Gulbenkian, como acima referido, enquanto sudiretor, a que se somam a Orquestra Sinfónica da RDP (Maestro-Diretor), a Nova Filarmonia Portuguesa e a Orquestra Sinfónica Portuguesa, como Maestro-Fundador, e posteriormente também da Orquestra do Algarve, sem esquecer a sua passagem pela Orquestra Metropolitana de Lisboa, na qualidade de Diretor Artístico.
A fundação da Nova Filarmonia Portuguesa foi o motivo pelo qual regressou a Portuga em 1988. Cassuto deu 635 concertos à frente da Nova Filarmonia, que dirigiu até 1993, ano em que o governo o convidou a formar a Orquestra Sinfónica Portuguesa (OSP), que reuniu os músicos da Filarmonia e da Orquestra do Teatro Nacional de São Carlos. Da OSP foi maestro titular e diretor artístico entre 1993 e 1999.
O imparável maestro desenvolveu ainda um trabalho pioneiro na gravação e divulgação internacional dos grandes compositores portugueses contemporâneos com a editora Naxos, evitando que caíssem no esquecimento, mas sobretudo dando a conhecer ao mundo esse reportório, em grande parte desconhecido até então. Na sua vasta discografia inclui-se a integral das Sinfonias de Joly Braga Santos, compositor e também seu amigo e colega, de cuja obra se tornou um dos principais divulgadores.
A escrita também marcou o seu percurso, embora de uma forma mais discreta. Talvez “contida” seja a expressão certa. Em 1999, publicou uma autobiografia intitulada “Sinfonias Incompletas. A Odisseia de um Maestro Português” (Hugin Editores) e, em 2016, José Jorge Letria, presidente da Sociedade Portuguesa de Autores, publicou uma longa conversa com o maestro, que intitulou “Álvaro Cassuto: Maestro sem Fronteiras”. Em 2018, Cassuto deu à estampa uma biografia do seu compositor de eleição, “Joly Braga Santos, Uma vida e uma obra”, publicada pela Caminho. Em 2021, foi a vez de novo relato de cariz autobiográfico, “Memórias de Um Maestro”, editado pela Guerra & Paz.
Álvaro Cassuto morreu esta segunda-feira, 6 de abril, aos 87 anos. Deixa editados mais de 30 álbuns por diferentes ‘labels’, com centenas de obras, na maioria de compositores portugueses. Um divulgador por excelência que nunca abdicou da sua grande vocação: a direção de orquestra.
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