‘Tiro’. Trump e o Irão jogam à batalha naval no estreito de Ormuz
O petróleo e o gás voltaram a disparar esta segunda-feira, 13 de abril, após o contra-bloqueio decidido por Donald Trump ao estreito de Ormuz. O barril voltou a superar a marca dos 100 dólares.
O crude chegou a disparar mais de 8%, para 103 dólares, com o gás a valorizar 9% para quase 48 euros/MWh durante a negociação na segunda-feira.
O mundo prepara-se para assistir a uma verdadeira batalha naval no estreito de Ormuz, por onde passava 20% do petróleo e gás mundial antes da guerra.
Os Estados Unidos já têm 15 navios de guerra estacionados no estreito de Ormuz, incluindo um porta-aviões, vários contratorpedeiros, um navio de assalto anfíbio, entre outros.
O Irão tem mantido o estreito semi-aberto, cobrando cerca de dois milhões de dólares por cada navio que deixa passar. Com o contra-bloqueio, Trump pode cortar uma fonte importante de financiamento para Teerão. A navegação marítima ficou proibida nos portos iranianos a partir de segunda-feira.
Donald Trump disse que outros países estariam envolvidos na operação, mas os membros da NATO já avisaram que não vão participar na operação. Tanto o Reino Unido como França garantem que não vão participar. A ideia destes países seria participar numa operação de segurança no estreito, mas apenas quando a paz for assinada.
Por seu turno, a Guarda Revolucionária iraniana garante que vai atacar os navios que se aproximarem do estreito.
A China já criticou o bloqueio do estreito, pedindo “calma e restrição” aos EUA, apelando a um cessar-fogo imediato.
Pequim é o maior comprador de petróleo ao Irão. Um bloqueio efetivo dos EUA ameaça diretamente a economia chinesa.
Donald Trump já avisou que os navios de “ataque rápido” do Irão que se aproximem dos navios dos EUA serão eliminados recorrendo ao “mesmo sistema” com que atacaram aos “traficantes de droga” no mar das Caraíbas e no Pacífico. “É rápido e brutal”.
A marinha iraniana foi destruída em grande parte pelos ataques dos EUA e de Israel, mas a Guarda Revolucionária ainda tem muitas opções, incluindo navios de ataque rápido, minissubmarinos, minas e jet skis com explosivos.
Nunca os EUA venderam tanto petróleo para o exterior
“Compre quando houver sangue nas ruas”… a famosa frase do Barão de Rothschild é usada como mote para comprar ativos desvalorizados em momentos de crise na esperança de vender mais tarde por preços mais altos, mas também serve para demonstrar que em tempos mais sombrios há sempre quem consiga fazer bons negócios, em detrimento de quem perde.
É o caso dos Estados Unidos da América (EUA) que estão à beira de atingir um recorde de exportações de petróleo à boleia da corrida mundial ao crude devido à guerra no Médio Oriente.
O recorde deverá ser atingido durante este mês de abril com os clientes asiáticos à procura de novos fornecedores devido ao fecho do estreito de Ormuz.
“Uma armada de petroleiros está a caminho” dos EUA, disse ao “Financial Times” o analista da Kpler Matt Smith.
As exportações devem subir dos quatro milhões de barris diários em março para mais de cinco milhões de barris por dia. O peso dos clientes asiáticos vai subir mais de 80%, segundo dados da Kpler, citados pelo “Financial Times”.
Neste momento, existem quase 70 petroleiros vazios a caminho dos EUA, uma subida face aos 24 registados na semana antes ao início da guerra. A média semanal de 2025 foi de quase 30 petroleiros.
Os EUA são atualmente o maior produtor mundial de petróleo e de gás. O aumento na procura asiática deverá aumentar os preços da energia americana, podendo provocar uma nova vaga de inflação causada pela guerra no Médio Oriente.
A Ásia compra 80% do seu petróleo e combustíveis a países do estreito de Ormuz, com destaque para a China.
“A China é menos vulnerável do que outros países a fecho do Estreito de Ormuz’, disse Christiaan Tuntono, economista da AllianzGI.
“O fecho do Estreito de Ormuz deverá ter um impacto menor na China do que em outros países asiáticos, já que o antigo Império do Meio depende pouco da energia importada, tem uma matriz energética bem diversificada, acumulou reservas mais elevadas e os preços domésticos dos combustíveis para os consumidores finais flutuam dentro de uma estrutura controlada pelo Estado”, segundo o analista.
Já a Schroders destaca que o “volume de navios que atravessam o estreito terá de aumentar significativamente nas próximas duas semanas para que o mercado petrolífero se convença de que a crise terminou”.
“Levará semanas ou mesmo meses até que os níveis de produção regressem ao normal, tendo em conta os 10 milhões de barris por dia de produção suspensa e os danos causados a algumas instalações. Isto deverá significar que é improvável que os preços do petróleo do mês mais próximo caiam rapidamente para os níveis anteriores ao conflito”, segundo Malcolm Melville.
A XTB sublinhou que a “reação dos mercados é clara: qualquer progresso diplomático que permita aliviar ainda mais as tensões entre o Irão e os EUA tenderá a levar a novas correções nos preços do petróleo, ao mesmo tempo que terá um impacto positivo para ativos de risco”, referindo-se à queda nos preços após o anúncio do cessar-fogo.
“No entanto, enquanto subsistirem focos de tensão e ataques indiretos, a volatilidade permanecerá incorporada nos preços, particularmente nos mercados de energia e nas divisas associadas a matérias-primas”, segundo os analistas.
Apesar de estar em vigor um cessar-fogo, restam muitas dúvidas sobre se será duradouro e se as negociações entre Washington em Teerão, mediadas pelo Paquistão, conseguem chegar a bom porto.
Israel disse que o Líbano não estava sujeito ao cessar-fogo e voltou a atacar o seu país vizinho. O Irão não gostou e ameaçou voltar a fechar o estreito de Ormuz.
O fecho do estreito de Ormuz pelo Irão após os ataques do EUA/Israel provocaram uma nova crise energética mundial, com os preços do petróleo com subidas de 50% até o cessar-fogo ser anunciado.
Em ano de eleições intercalares, 70% dos inquiridos numa sondagem nos EUA revelou estar preocupada com a subida dos preços da energia. Enquanto os preços de energia dispararam, a taxa de aprovação de Trump tem afundado.
Os EUA anunciaram a libertação de mais de 170 milhões de barris de petróleo das reservas estratégicas, mas os analistas consideram que este petróleo pode vir a ser comprado por clientes estrangeiros desesperados por novos fornecedores.
“Dado que a administração americana está a tentar manter os preços do petróleo baixos, as suas ações têm tornado o petróleo dos EUA mais atraente”, disse Matt Smith da Kpler.
Crescem o número de pessoas a defender a suspensão da exportações dos EUA. Um congressista democrata defende uma medida para colocar os “consumidores americanos em primeiro lugar ao garantir que os recursos energéticos são usados para estabilizar preços” no país, segundo Brad Sherman.
A Casa Branca tem rejeitado banir as exportações, o que deveria provocar um corte de produção pelas refinarias.
Guerra no Médio Oriente custa 500 milhões por dia aos europeus
A fatura energética da Europa disparou com a guerra no Médio Oriente. O conflito já custou 22 mil milhões de euros em 44 dias aos países da Europa: são 500 milhões de euros por dia a serem pagos pelos europeus.
A União Europeia está a ser uma das vítimas colaterais desta guerra que continua sem fim à vista.
“Isto demonstra o enorme impacto desta crise na nossa economia”, disse a presidente da Comissão Europeia na segunda-feira no Parlamento Europeu.
Mesmo que o conflito terminasse hoje, “as disrupções de energia do Golfo Pérsico iriam persistir durante algum tempo”, segundo Ursula von der Leyen.
Entre as medidas anunciadas está a coordenação de compra de gás para o próximo inverno, “evitando que os estados-membros vão todos ao mercado ao mesmo tempo”, para evitar que os países compitam uns com os outros.
Outra medida é a libertação de reservas de petróleo, que também será coordenada.
A líder europeia pediu por mais “investimento” para acelerar “redes, armazenamento, baterias”, com a ajuda do dinheiro europeia. “Por favor, usem esse dinheiro agora, precisamos de melhorar o nosso sistema de energia”, defendeu, pedido também investimento privado, além do público.
Bruxelas também está a preparar um pacote para reduzir os impostos sobre a eletricidade e as tarifas das redes elétricas, com a proposta a ser apresentada a 22 de abril.
“Estamos a pagar um preço muito elevado pela nossa sobre-dependência dos combustíveis fósseis, e a realidade negativa para o nosso continente é que os combustíveis fósseis vão permanecer as opções mais caras nos próximos anos”, segundo a responsável, defendendo mais energias renováveis e mais nuclear.
Os preços do barril de petróleo já dispararam mais de 40% desde o início da guerra, tendo subido 9% na segunda-feira depois de Donald Trump anunciar o seu bloqueio naval ao estreito de Ormuz.
Dos países da UE, 22 introduziram 120 medidas avulso que custaram mais de nove mil milhões de euros para aliviar a fatura da crise energética.
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