Um em cada três jovens europeus não quer ter filhos
Entre 2015 e 2025, o mundo perdeu mais de 14,3 milhões de crianças com idades compreendidas entre os 0 e os 9 anos. A tendência não só não será revertida como se aprofundará na década seguinte: as projeções do Banco Mundial indicam uma nova diminuição global de 10,4 milhões até 2035. “Em termos percentuais, trata-se de uma quebra de apenas 2%, mas este número esconde realidades profundamente assimétricas. O chamado ‘inverno demográfico’ não se distribui de forma homogénea: concentra-se sobretudo na Europa, na Rússia e na China, enquanto África permanece como a única grande exceção”, explicou Luísa Canto e Castro Loura, diretora da Pordata, da Fundação Francisco Manuel dos Santos, numa sessão de esclarecimento dirigida a jornalistas, organizada pela empresa farmacêutica Merck.
A Europa é o epicentro deste declínio. Entre 2015 e 2025, o continente perdeu mais de 9,2 milhões de crianças, o que corresponde a 12% da sua população nesta faixa etária. A década seguinte será ainda mais difícil, com uma nova quebra de 9,3 milhões, ou 13%. A contração da pirâmide etária europeia pela base desafia a sustentabilidade dos sistemas sociais, desde as escolas até às pensões, e exerce uma pressão crescente sobre políticas migratórias que continuam a ser politicamente sensíveis.
A Rússia e a China seguem um padrão semelhante, mas com percentagens ainda mais severas. “Entre 2015 e 2025, perdeu 2,26 milhões de crianças, o que corresponde a uma diminuição de 13%. As projeções para 2025-2035 apontam para uma queda ainda mais acentuada: menos 2,77 milhões, o que corresponde a 18%”, alerta a especialista em estatística. A conjugação de baixa natalidade, emigração e instabilidade económica agrava um declínio que já era estrutural, empurrando o país para um envelhecimento acelerado.
A China, porém, é o caso mais determinante para o saldo global. Nenhum outro país contribui tanto para a diminuição da população mundial como a segunda maior economia do planeta. “Entre 2015 e 2025, a China perdeu mais de 48 milhões de crianças, o que corresponde a uma quebra de 27%. A década seguinte não será diferente: prevê-se uma nova redução de 44,2 milhões, equivalente a 35%”, calcula Luísa Canto e Castro Loura. A política do filho único deixou um legado demográfico difícil de inverter, mesmo após a sua flexibilização. A China entra agora numa fase de contração populacional que terá um impacto económico e geopolítico profundo, desde o mercado de trabalho até à capacidade de manter o atual modelo de crescimento.
No subcontinente indiano, que inclui a Índia, o Paquistão, o Bangladesh e outros países vizinhos, a tendência é mais moderada, mas igualmente reveladora de uma transição demográfica em curso. “Entre 2015 e 2025, a região perdeu 17,6 milhões de crianças, o que corresponde a cerca de 6% do total. Para o período de 2025 a 2035, as projeções apontam para uma diminuição de 6,7 milhões, ou 2%”, explica. Embora o peso populacional continue elevado, o ritmo de crescimento abrandará, aproximando a região de padrões que, até há pouco tempo, eram exclusivos de economias mais desenvolvidas.
Nas Américas, o declínio é generalizado, embora menos dramático. Entre 2015 e 2025, o continente perdeu 11,8 milhões de crianças, o que corresponde a uma diminuição de 8%. A década seguinte deverá trazer uma nova quebra de 7,3 milhões, equivalente a 6%. A América Latina está a aproximar-se rapidamente dos níveis de natalidade europeus, ao passo que os Estados Unidos dependem cada vez mais da imigração para equilibrar a sua pirâmide etária.
África surge como a única grande exceção num planeta que está a envelhecer. “Entre 2015 e 2025, o continente ganhou 56,8 milhões de crianças, um crescimento de 16%. Para o período de 2025 a 2035, prevê-se um aumento adicional de 49,5 milhões, ou 12%”, afirma. Num mundo em contração, África expande-se e torna-se o centro demográfico do século XXI. Este crescimento coloca enormes desafios em termos de educação, emprego e urbanização, mas também redefine o mapa global da juventude e do potencial económico.
O retrato que emerge deste conjunto de dados é o de um planeta profundamente desequilibrado. A Europa, a Rússia e a China puxam o mundo para baixo, as Américas e o subcontinente indiano estabilizam e África cresce. A geografia da infância desloca-se para sul, enquanto o norte global enfrenta uma escassez estrutural de nascimentos. A demografia não explica tudo, mas condiciona quase tudo: da economia à política, da inovação ao bem-estar social. Os números mostram que a próxima década será decisiva para compreender como cada região responderá a esta transformação silenciosa, mas inevitável.
E Portugal?
No contexto europeu, o nosso país destaca-se pela rapidez da sua transformação. As pirâmides etárias revelam uma mudança estrutural profunda ao longo das últimas décadas. “Passámos de uma pirâmide clássica para algo mais próximo de uma ‘bomboneira’”, descreveu, referindo-se ao aumento do peso das faixas etárias mais idosas face à redução das mais jovens, o que faz com que a forma da pirâmide mude, ficando com a forma de um recipiente, uma taça mais abaulada.
A taxa de fecundidade é um dos indicadores mais críticos. Atualmente, na Europa, esta taxa situa-se nos 1,34 filhos por mulher, valor muito inferior aos 2,1 filhos por mulher necessários para assegurar a renovação das gerações. Em Portugal, o cenário é semelhante e historicamente marcado por uma queda abrupta desde os anos 60: “As mulheres foram tendo cada vez menos filhos, até atingirmos níveis muito baixos”, explicou.
Portugal seguiu uma trajetória particularmente acentuada. “Nos anos 60, estava entre os países com maior número médio de filhos por mulher. Desde então, registou uma queda contínua, com uma quebra abrupta nas últimas décadas do século XX. As mulheres foram tendo cada vez menos filhos até se atingirem níveis muito baixos”, afirma a responsável da Pordata.
Esta evolução está também associada a mudanças sociais estruturais, nomeadamente o aumento da escolaridade e da participação das mulheres no mercado de trabalho. “As mulheres estão cada vez mais qualificadas e não estão a investir na sua formação para depois se dedicarem exclusivamente à família”, sublinhou. Outro indicador relevante é o adiamento da maternidade. Em Portugal, a idade média ao nascimento do primeiro filho já ultrapassa os 30 anos, acompanhando uma tendência europeia.
Segundo o IV inquérito internacional sobre o Estado de Saúde dos Europeus da Merck, realizado em 12 países europeus com mais de 2.500 jovens das gerações Z e millennial, incluindo portugueses, um em cada três não quer ter filhos, 27% só quer ter um filho, 33% querem ter dois filhos e apenas 9% deseja ter três ou mais filhos.
Quanto ao tema da saúde reprodutiva e fertilidade, o mesmo estudo diz que apesar de 80% dos jovens estar satisfeito com a informação que têm sobre contraceção, apenas 67% acredita estar bem informado sobre fertilidade, incluindo os fatores que influenciam a sua capacidade de engravidar. Entre os inquiridos, 49% discutiram o tem da fertilidade (preservação e tratamentos) com o médico e 70% considera que ter acesso a opções de preservação da fertilidade numa idade mais jovem lhes daria mais liberdade para decidir se e quando querem ter filhos.
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