Maria Luís Albuquerque defende a tokenização e a IA para construir o sistema financeiro do século XXI
A Comissária Europeia responsável pelos Serviços Financeiros, Maria Luís Albuquerque, discursou esta quarta-feira no 24.º Simpósio Anual de Harvard, onde apresentou uma visão clara e ambiciosa para o futuro dos mercados de capitais europeus e globais. Sob o tema da transformação digital do setor financeiro, a Comissária destacou que a tokenização de ativos e a inteligência artificial (IA) já não são prioridades futuras, mas realidades em plena implementação.
“Hoje, em Washington, falei num simpósio liderado pela Harvard Law School (PIFS) sobre a construção do sistema financeiro do século XXI, com foco no impacto da tokenização e da inteligência artificial nos serviços financeiros. Esta transformação já está em curso e estamos agora a avançar firmemente para a fase de implementação”, escreveu na sua página do Linkedin Maria Luís Albuquerque.
“A tokenização pode tornar os nossos mercados de capitais mais eficientes, acessíveis e líquidos. Ao mesmo tempo, a IA está a reformular o funcionamento dos serviços financeiros — melhorando a tomada de decisões, reduzindo custos e ampliando o acesso”, acrescentou.
Segundo Maria Luís Albuquerque, esta tecnologia elimina barreiras históricas, como os cinco dias de espera para uma transferência transfronteiriça ou as comissões ocultas, democratizando o acesso à finança e alargando o “círculo interno” a um grupo muito mais vasto de cidadãos e empresas.
No que respeita à Inteligência Artificial, a Comissária reconheceu que a Europa se encontra ainda nos “primeiros capítulos” desta transformação, mas diz que o salto já é visível: da simples deteção de fraudes para agentes IA autónomos capazes de gerir liquidez, reequilibrar carteiras em milissegundos e executar contratos inteligentes sem intervenção humana. “A IA reduz a complexidade, torna os serviços financeiros mais intuitivos e acessíveis, e alarga o acesso a grupos subatendidos”, explicou. “Ao mesmo tempo, reforça a confiança no sistema através de uma melhor deteção de riscos e operações mais resilientes”.
Maria Luís Albuquerque recordou as iniciativas europeias já em curso: a Estratégia de Finanças Digitais de 2020, o regulamento MiCA para criptoativos, o regime-piloto DLT e o pacote de dezembro passado, que reforça e expande o piloto de tecnologia de registo distribuído (DLT) para acelerar a adoção da tokenização em toda a União Europeia. “Estamos a garantir que, onde a inovação pode tornar os nossos mercados mais eficientes, as regras não constituam um obstáculo”, afirmou.
A Comissária defendeu ainda a importância do open finance para fornecer os dados de alta qualidade necessários ao desenvolvimento da IA na Europa, garantindo simultaneamente salvaguardas fortes de privacidade e segurança.
Tokenização + IA: a combinação vencedora
Para Maria Luís Albuquerque, o verdadeiro potencial surge quando as duas tecnologias atuam em conjunto: “A tokenização oferece uma infraestrutura em tempo real, programável e interoperável; a IA traz a capacidade de a operar de forma dinâmica e à escala, utilizando todos os dados disponíveis.” Juntas, podem criar mercados mais acessíveis, eficientes e resilientes.
“Olhando para o futuro, a combinação da tokenização e da IA oferece uma oportunidade poderosa para construir mercados mais dinâmicos, resilientes e inclusivos. Mas, para concretizar este potencial, precisamos de escala e de uma forte coordenação internacional”, defendeu garantindo que a Europa “está pronta para desempenhar o seu papel e ajudar a moldar um sistema financeiro global que reflita os nossos valores, reforce a nossa competitividade e traga benefícios para os nossos cidadãos”.
A Comissária Europeia foi clara quanto aos limites: “Na Europa, o nosso enfoque é inequívoco: apoiamos a inovação, mas salvaguardamos a estabilidade financeira, a integridade dos mercados e a proteção dos investidores. A confiança continua a ser o alicerce do sistema financeiro”,
Maria Luís concluiu apelando a uma forte coordenação internacional: “Os mercados são globais e operam em tempo real. A fragmentação entre jurisdições arrisca sufocar a inovação. A Europa está pronta para desempenhar o seu papel e ajudar a moldar um sistema financeiro global que reflita os nossos valores, fortaleça a nossa competitividade e sirva os nossos cidadãos”.
O discurso, proferido perante líderes da indústria e decisores políticos americanos, foi recebido com otimismo cauteloso e reforça a posição da União Europeia como pioneira regulada na transição digital do setor financeiro.
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