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A literatura exigente já não cabe na escola

A literatura exigente já não cabe na escola

A notícia de que as obras de José Saramago, Prémio Nobel da Literatura, vão deixar de ser obrigatórias na escola em Portugal, passando a ser opcionais, deu origem a uma série de argumentos na praça pública bastante relevantes sobre o estado da literatura nas escolas.
Afastar o único Nobel da Literatura em Portugal das leituras obrigatórias é, certamente, uma opção questionável, quiçá ideológica, mas para além de todas essas considerações, há factos que importa considerar.
Hoje em dia, o aluno já está muito distanciado da produção literária portuguesa do século XX. É um tipo de literatura que exige domínio da língua, profundidade, leitura prolongada, capacidade de interpretar os símbolos e enorme atenção ao detalhe.
Por isso coloco a questão: a literatura mais exigente está a desaparecer dos currículos por decisão política ou por falta de alunos que a sustentam? Um aluno do 12.º ano é um aluno pré-universitário, que já dispõe de vastas ferramentas analíticas, mas também sabemos que é um aluno que vive na era do consumo rápido digital e tem preferência por narrativas visuais.
Os hábitos de leitura evoluíram e adaptaram-se para outros formatos e conteúdos mais ligeiros e, por isso, forçar Saramago nas escolas pode conduzir a uma rejeição pura e simples.
Outra questão se levanta. Queremos formar leitores ou apenas alunos que passam exames? Se é verdade que podemos fazer cedências no tipo de narrativas que mais motivam os jovens para despertar o seu interesse para a literatura, também é verdade que há riscos subjacentes a esta opção.
Na prática, estamos a empobrecer os nossos currículos e a simplificar demasiado. E, no entanto, não podemos só atribuir culpas e responsabilidades aos alunos. Pois vivemos alterações profundas na forma como lemos e consumimos cultura. E nenhuma faixa etária é imune a essa mudança.
A própria produção literária da atualidade já não atinge os mesmos níveis de qualidade e exigência que encontrávamos há 30 anos. O mundo editorial sofreu alterações massivas e uma aceleração rumo a objetos literários cada vez mais adaptáveis, mas também descartáveis.
Por mais que apreciemos os autores da atualidade, agora que faleceu António Lobo Antunes, nenhum outro escritor consegue ter, hoje, o nível de reconhecimento internacional de José Saramago. Não dizemos que este é um desafio fácil de superar, mas devemos ir além das divergências e repensar como preparamos os alunos para um futuro em que a literatura volte a ser central na sua formação.

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