A liberdade da moda invade o museu
A liberdade criativa da moda ocupa, cada vez mais, um lugar de destaque nos museus. Em 2026, a programação das principais instituições culturais sacudiu os pruridos e lembra-nos que a moda não vive sem a arte. Mas nem sempre foi assim. Basta lembrar a exposição, em 1983, que o MET, em Nova Iorque, dedicou a Yves Saint Laurent. A imprensa americana arrasou-a, dizendo que era indigna daquele ‘santuário da arte’. Em 2010, a retrospetiva de Saint Laurent no Petit Palais, em Paris, não fez estremecer uma pestana. De então para cá, as exposições dedicadas à moda não só conquistaram o Museu – com Paris e Londres a liderar essa tendência –, como o grande público. Um pormenor nada despiciendo quando as instituições também sofrem pressões económicas.
Lembremos os mais de 650 mil visitantes que, em 2011, acorreram ao Metropolitan Museum of Art, em Nova Iorque, para ver a retrospetiva do designer britânico Alexander McQueen. Ou o furor que esta causou no Victoria & Albert Museum (V&A), em Londres, a par de Balenciaga. Ou ainda a mostra dedicada à Casa Dior no Musée des Arts Décoratifs, na capital francesa, um ‘blockbuster’ que rivalizou de perto com os mestres da arte moderna e os génios da pintura clássica. Aliás, o V&A não abdica desse pedigree e volta agora a surpreender com a primeira exposição dedicada à designer de moda italiana Elsa Schiaparelli no Reino Unido. “Schiaparelli: Fashion Becomes Art” reúne cerca de 200 obras – desde figurinos, acessórios, joias, desenhos originais, fotografias, esculturas, mobiliário e material de arquivo — incluindo algumas das peças mais conhecidas da designer surrealista, algumas delas feitas em colaboração com Salvador Dalí e Jean Cocteau.
Em Paris, a Galerie Dior e a Azzedine Alaïa Foundation apresentam uma exposição que revela um lado menos conhecido do designer que, ao longo da vida e longe dos olhares públicos, reuniu mais de 20 mil peças de alguns dos mais prestigiados designers do mundo da moda, na qual Christian Dior ocupa um lugar central. Em Lisboa, a Fundação Calouste Gulbenkian integra nas celebrações dos seus 70 anos a exposição “Arte & Moda”, com curadoria de Eloy Martínez de la Pera. Uma viagem pela história da arte, reinterpretada pela moda contemporânea, na qual obras do Museu Gulbenkian estarão em diálogo com peças de vestuário assinadas por Dior, Yves Saint Laurent, Versace, Jean-Paul Gaultier, Balenciaga, Vivienne Westwood, Alexander McQueen, Givenchy e Azzedine Alaïa, e por criadores portugueses como Alves/Gonçalves, José António Tenente, Maria Gambina, Nuno Gama ou Nuno Baltazar (ver caixa).
No primeiro domingo de maio, o Costume Institute do MET, em Nova Iorque, promete agitar os fashionistas com a inauguração da sua exposição anual. “Costume Art” percorre um século de moda… com alguma provocação, antecipa-se. Se este é um marco no calendário nova-iorquino, a Tate Modern também ambiciona agitar Londres com a liberdade, otimismo e rebelião de “The 90s” quando chegar o outono. Sem esquecer as exposições dedicadas a Vivienne Westwood, Helmut Lang ou Jean-Charles de Castelbajac. A moda agita-se e os museus também.
Fundação Gulbenkian
‘Moda Gulbenkian’
Uma exposição inédita em Portugal. Ambiciosa e sedutora. Onde a arte respira moda e a moda desperta a arte. Onde coabitam muitas perguntas. Afinal, o que liga Vivienne Westwood ao século XVIII francês? Balenciaga a um baixo-relevo assírio? Guo Pei a uma máscara do Antigo Egito? Christian Lacroix a um Rembrandt? Ou Alexander McQueen e a Casa Givenchy a estampas japonesas? No fundo, “Arte & Moda” mostra-nos o vestuário enquanto espelho do desejo de narrar o ser humano. Uma grande surpresa nos 70 anos da Fundação Gulbenkian, que terá um catálogo ilustrado com fotografias de Jon Cazenave, realizadas exclusivamente para esta exposição.
Arte & Moda | Fundação Calouste Gulbenkian, Lisboa | 18 ABR a 21 JUN | Entrada: €8 – €12
Catwalk at Dundee
A arte do desfile
Se a maior parte dos museus levou tempo a render-se à moda (ver texto principal) como expressão criativa digna de ser
exposta nas suas salas, o mesmo não aconteceu com o Victoria & Albert Museum (V&A). A casa mãe, em Londres, foi
palco de verdadeiros blockbusters, como “Alexander McQueen: Savage Beauty”, “Christian Dior: Designer of Dreams” ou “Balenciaga: Shaping Fashion”. Agora, e até janeiro de 2027, o V&A Dundee, na Escócia, acolhe “Catwalk: The Art of the Fashion Show”, que nos mostra a transformação dos desfiles de moda ao longo de mais de um século. Peças originais, filmes e adereços de nomes icónicos, como Chanel, Louis Vuitton, Dior, Maison Margiela, Prada e Yohji Yamamoto, entre muitos outros, ilustram o frisson na passerelle.
Catwalk: The Art of the Fashion Show | V&A Dundee, Escócia | até 17 JAN 2027 | Entrada: €17
“Colar Pulmão”
A surrealista Schiaparelli
“Em tempos difíceis, a moda é sempre vista como escandalosa”. Palavras de Elsa Schiaparelli reproduzidas naquela que é a primeira mostra dedicada à designer de moda italiana no Reino Unido. Desde as origens da Maison, nos anos 20, até aos dias de hoje, sob a direção criativa de Daniel Roseberry, a exposição estrutura-se em torno de 200 peças: figurinos, acessórios, joias, fotografias, desenhos originais, esculturas, mobiliário e material de arquivo. Uma das mais emblemáticas é o famoso colar ‘pulmão’ da coleção de outono de 2021, que a atriz Bella Hadid levou ao Festival de Cannes. Mas não só. As suas colaborações com Salvador Dalí e Jean Cocteau também brilham no V&A.
Schiaparelli: Fashion Becomes Art | Victoria and Albert Museum, Londres | até 8 novembro | Entrada: €35
Lang, o visionário
O MAK, em Viena, apresenta a primeira grande exposição dedicada ao designer Helmut Lang. Pensada a partir arquivo oficial de Lang, integrado na coleção do museu desde 2011 e composto por cerca de 10 mil peças, a exposição propõe uma
nova leitura do impacto cultural do designer austríaco, do seu pensamento e processo criativo. A que se juntam peças criadas em colaboração com Louise Bourgeois, por exemplo, e fotografias da autoria de Robert Mapplethorpe.
Helmut Lang: Séance de Travail 1986-2005, MAK-Museum Applied Arts, Viena | até 3 maio | Entrada: €15,50
A lente de Rafael
O apelido lembrará um certo tenor italiano, presente na memória de muitos. Aqui a música dá lugar ao talento de Rafael para a fotografia. “Poder da Cor” é o título da exposição que o Musée des Arts Décoratifs, em Paris, dedica ao jovem brasileiro Rafael Pavarotti. Apesar da ainda curta carreira, o fotógrafo que cresceu na Amazónia é a nova coqueluche
do mundo da moda. E não só.
Color Power. Rafael Pavarotti | Musée des Arts Décoratifs, Paris | 2 OUT ‘26 a 2 MAI ‘27 | Entrada: €15
Dois grandes mestres
Mais de uma centena de criações da Dior estão agora em exibição na Galerie Dior, em Paris, numa mostra que enfatiza a admiração do designer franco-tunisino pelo fundador da marca e seus sucessores. Um diálogo que prossegue na Azzedine Alaïa Foundation, que exibe cerca de 70 peças dos dois designers, que partilhavam uma visão semelhante do que é a alta-costura.
Azzedine Alaïa et Christian Dior, Deux Maîtres de la Couture, Fondation Azzedine Alaïa | até 21 junho | Entrada: €28
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