Cimeira Espanha-Brasil: Sánchez e Lula elogiam acordo UE-Mercosul
Reunidos numa cimeira inédita, mas que os seus ‘autores’ querem continuar bianualmente, o chefe do governo espanhol, o socialista Pedro Sánchez, e o presidente do Brasil, o não menos socialista Inácio Lula da Silva, mostraram-se favoráveis ao acordo assinado 26 anos depois entre a União Europeia e o Mercosul. “Eu acho que é muito importante do ponto de vista económico, comercial, mas também do ponto de vista político, porque estamos diante da fragmentação, dos confrontos, das guerras”, disse o primeiro-ministro espanhol, Pedro Sanchéz, citado pela Lusa. Pedro Sanchéz sublinhou que os dois blocos ambicionam “transmitir é uma mensagem totalmente diferente, de cooperação, de abertura, de confiança para os dois, de prosperidade compartilhada”.
Também Lula da Silva, que foi um dos principais impulsionadores do acordo do outro lado do Atlântico, disse que “a união entre Brasil e Espanha foi decisiva para a aprovação do acordo”. “E eu quero aproveitar e agradecer em público ao companheiro Pedro Sanchez pela dedicação para que se conseguisse concluir esse acordo. Mostrámos ao mundo que é possível chegar a resultados vantajosos para todos por meio da negociação”, afirmou.
As relações económicas entre o Brasil e Espanha – o segundo maior investidor estrangeiro no Brasil, logo a seguir à China – são, disse Lula da Silva, sólidas: “Espanha tem sido um dos maiores investidores no Brasil, com destaque nos setores das telecomunicações, finanças, energia e infraestruturas”.
Recorde-se que o acordo só pode ser plenamente concluído e implementado na sua totalidade quando for votado e aprovado pelo Parlamento Europeu, processo que está parado desde janeiro, quando os eurodeputados decidiram enviar o texto para o Tribunal de Justiça da União Europeia para verificar a sua conformidade com a legislação comunitária – e evidenciando que o projeto está longe de ser unânime. Mais ainda, os Estados-membros que não apoiam o acordo têm feito tudo para o impedir, ao mesmo tempo que alguns outros mostram pouco empenho na resolução do impasse político que motivou. Apesar disso, está previsto que entre em vigor a 1 de maio próximo.
Esquerda-direita
Mas a importância da cimeira vai bem além do acordo. O encontro tem lugar como uma espécie de aliança política sem precedentes entre a esquerda europeia e sul-americana, num contexto em que, tanto na Europa como na América do Sul, uma onda aparentemente imparável da direita e de extrema-direita evolui em vários países.
Segundo a imprensa espanhola, os dois líderes demonstraram total harmonia, reconhecendo-se mutuamente como dirigentes com um papel importante no embate com Donald Trump – tanto na questão da guerra no Médio Oriente, como na das tarifas e, de uma forma mais geral, na oposição à estratégia de defesa dos Estados Unidos, que Trump deu a conhecer há uns meses.
A presidente mexicana Claudia Sheinbaum, Gustavo Petro (Colômbia), Yamandú Orsi (Uruguai), Cyril Ramaphosa (África do Sul) e José Maria Neves (Cabo Verde) são alguns dos dirigentes mundiais de topo, que, em Barcelona, contaram ainda com a presença do ex-primeiro-ministro e atual presidente do Conselho Europeu, António Costa.
O objetivo do encontro é criar uma espécie de rede internacional de esquerda naquilo que tomou o nome de Global Progressive Mobilisation (GPM) – já há quem lhe chame a ‘Davos da esquerda’. A cimeira é organizada sob os auspícios do Partido dos Socialistas Europeus (PES), a Internacional Socialista e a Progressive Alliance — uma aliança transnacional de partidos socialistas, social‑democratas e progressistas.
A iniciativa foi lançada após meses de conversas entre líderes europeus e internacionais de centro‑esquerda, lideradas pelo presidente do PES, Stefan Lofven, e por Pedro Sánchez, que preside à Internacional Socialista desde 2022.
Esta aliança transcontinental progressista procura coordenar um discurso político comum sobre temas que vão desde a defesa da democracia e dos direitos humanos até às políticas económicas, transição climática, redes digitais e migrações.
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