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Vítor Constâncio acredita que BCE não terá de subir juros em resposta a choque energético

Vítor Constâncio acredita que BCE não terá de subir juros em resposta a choque energético

O antigo vice-presidente do Banco Central Europeu (BCE), Vítor Constâncio, acredita que a diplomacia entre Washington e Teerão dará uma ajuda nos preços da energia e, portanto, que a política monetária europeia não terá de responder ao que aparenta ser um choque temporário. Reconhecendo que se mantém um risco associado à crise gerada pelos ataques dos EUA e Israel ao Irão, o banqueiro apontou também à descida que já se está a verificar nas cotações internacionais da energia para explicar a sua visão de que as taxas de juro não terão necessariamente de voltar a subir.
À margem do 11º Congresso Nacional dos Economistas, realizado em Lisboa esta sexta-feira, o antigo vice-presidente do BCE manifestou esperança numa normalização dos preços da energia, que foram os principais responsáveis pelo disparo na inflação na zona euro e em Portugal na leitura mais recente, relativa a março.
Constâncio destacou que já se verifica uma correção significativa dos preços do barril de petróleo e do gás natural nos mercados relevantes para a Europa, isto depois de “terem subido muitíssimo” nas últimas semanas.
“Isto é já um sinal de que será muito difícil que os termos da guerra no Médio Oriente continuem na mesma escala que anteriormente, até por razões da própria política interna dos EUA”, afirmou.
Como tal, o banqueiro não prevê “que as taxas de juro tenham que necessariamente subir, até porque o ponto de partida da área euro antes desta crise petrolífera era já com a inflação abaixo de 2%”, ou seja, o objetivo de médio-prazo do BCE.
“No cenário que tracei, não haverá uma explosão da inflação e, consequentemente, das taxas de juro”, resumiu, embora reconhecendo que a autoridade monetária poderá ter de responder “se a crise no Médio Oriente se agravar”.
Recorde-se que, com o disparo nas cotações do barril de petróleo após o arranque da campanha de bombardeamentos norte-americanos e israelitas no Irão e a resposta de Teerão, o mercado passou a inclinar-se para 50 pontos base (p.b.) de subidas dos juros de referência na moeda única este ano, o que colocaria a taxa terminal de 2026 em 2,5%. No entanto, a expectativa para a reunião de abril, a realizar entre os dias 29 e 30, é de manutenção do atual nível, de acordo com dados da LSEG.
Na leitura mais recente da inflação na moeda única, o indicador de preços acelerou consideravelmente de 1,9% em fevereiro para 2,6% em março, o valor mais alto desde julho de 2024. A energia foi quase exclusivamente responsável por esta evolução, registando a primeira subida homóloga em quase um ano e o maior aumento desde fevereiro de 2023, com 5,1%.
No caso nacional, a inflação também acelerou significativamente, saltando de 2,1% em fevereiro para 2,7% em março, o valor mais elevado desde agosto do ano anterior. Também em Portugal a componente energética explica quase totalmente esta evolução, tendo registado a primeira subida homóloga em meio ano.
Europa como potência económica
Apesar do risco criado pelo colapso aparente da ordem mundial unipolar e assente em regras definidas, a Europa tem capacidade para manter a sua posição como uma potência económica internacional num “quadro de reduzido conflito geopolítico”, projetou ainda o antigo vice-presidente do BCE.
O antigo governador aproveitou a sua intervenção no 11º Congresso Nacional dos Economistas para explicar as ramificações globais – embora focadas no Velho Continente – do declínio da “fase unipolar de domínio hegemónico dos EUA”. Neste cenário, em que as instituições internacionais vão perdendo influência, o autoritarismo e protecionismo crescem, a dissuasão nuclear ganha importância e a tecnologia agrava as desigualdades sociais, a “Europa será essencialmente uma potência económica”, projeta.
Nesta hipótese, o antigo vice-presidente do BCE vê a emergência de “um regime multipolar fragmentado”, levando ao declínio da globalização, embora “sem desaparecer completamente”, combinado com “uma tendência para a formação de blocos comerciais e financeiros”. E, comparado com um cenário mais otimista de reversão das tendências populistas e nacionalistas dos últimos anos, Constâncio vê uma maior probabilidade de materialização deste cenário adverso.
“A Europa não tem comunidade política suficiente para transformar o euro numa moeda global ou para se tornar uma superpotência militar, mas pode garantir a sua própria resiliência económica e prosperidade, mesmo que permaneça abaixo, mas perto, da fronteira tecnológica”, resumiu.
Em concreto, Vítor Constâncio ressalva as diferenças menores entre a economia europeia e norte-americana quando analisadas numa ótica de paridade de poder de compra do que em termos nominais, o que ajuda a ilustrar algumas das vantagens comparativas do bloco europeu.
Assim, e dada a “menor duração do trabalho, maior equidade social e maior esperança de vida do que nos EUA”, a UE “proporciona aos seus cidadãos um elevado nível de vida, com os seus equilíbrios orçamentais e externos, em melhor situação do que os EUA e a crescer num contexto aberto à concorrência internacional”.
Por outro lado, e apesar do estatuto em termos económicos, o espaço europeu arrisca, no plano geopolítico, tornar-se no “mais fraco dos poderes regionais, sem grande peso internacional, porque não tem unidade política suficiente para poder dispor de uma política de defesa comum e, sobretudo, do regime de dissuasão nuclear coletivo”.

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