Confiança digital? “Estado não pode ter papel de mero observador, tem de ser um catalisador da economia”, diz presidente da DSPA
O Estado tem de servir de exemplo para transmitir confiança na utilização dos sistemas tecnológicos por parte de todos os utilizadores e assim funcionar como um catalisador económico. Esta foi uma das ideias transmitidas no painel ‘Tecnologia, Regulação e Confiança’, inserido na conferência dedicada à confiança digital, organizada pelo Jornal Económico esta terça-feira. “O Estado não pode ter um papel de mero observador e regulador, tem de ser um catalisador de toda a economia. Esse exemplo acaba por fazer com que todos os outros também evoluam”, afirma Fernando Matos, presidente da Data Science Portuguese Association (DSPA).
O presidente defende que existe um determinado tipo de ferramentas e sistemas que o Estado cria, como por exemplo a chave-móvel que o resto das empresas têm de adotar. “Quando se fala em competitividade é importante perceber a relevância que o Estado tem”, realça
Por sua vez, Duarte Conceição, CEO da Contisystems considera que não há uma separação entre Estado, privados e sociedade civil, sendo que no caso do setor privado, é importante garantir uma autenticidade nas transações e na simplicidade das experiências. “Se o utilizador não entendeu o processo não vai confiar nele”, sublinhou, acrescentando que o Estado tem feito um esforço para dar às empresas um conjunto de tecnologias que lhes permitam desenvolver todo o tipo de serviços.
E neste ponto entra em campo a literacia digital, que de acordo com o CEO tem de ser um papel feito por todos os intervenientes e construído diariamente, apesar das empresas continuarem a viver numa transição entre dois mundos devido aos efeitos provocados pela Covid-19.
“A pandemia levou à criação de processos digitais que não foram revisitados. Hoje começamos a ver processos que são repensados e outros criados de raiz. Muitas empresas já só competem no mundo digital. É um tema estratégico não é tecnológico e temos de perceber isso o mais depressa possível”, referiu.
Já Fernando Matos, salientou que tem verificado estágios muito diferentes em organizações da mesma dimensão. “As novas tecnologias são muito diferentes das que se usavam há 30 anos atrás. Tem muito a ver com a literacia digital que cria um fosso entre a estratégia da empresa e aquilo que se está a fazer do ponto de vista da Inteligência Artificial. Algumas organizações olham para a IA como uma descentralização dessas ferramentas pelos seus utilizadores. Estas diferenças muitas vezes tem a ver com a falta de literacia digital”, afirmou.
O responsável destacou que para além da literacia digital o Estado deve também pensar na literacia da educação. “Muitos dos nossos líderes têm estado um bocadinho à margem desta revolução tecnológica e isso acaba por impactar a adoção de estratégias digitais. É como se dessemos um carro de Fórmula 1 a todos, mas nem todos têm carta de condução”, realçou.
A questão da segurança relacionada com a IA foi outro dos pontos abordados neste painel, com Duarte Conceição, a deixar o alerta para uma crise de “abundância tecnológica” que pode ser usada para criar modelos de negócios, mas também para atividades maliciosas. “Não vamos voltar ao tempo dos cadernos de papel, temos é de viver de uma forma segura e sem correr nenhum risco adicional”, sublinhou.
Por seu turno, Fernando Matos considera que em primeiro lugar é preciso entender que a Inteligência Artificial é um amplificador daquilo que fazemos. “Temos de revisitar os processos estando conscientes da importância que tem a ética nos mesmos. A questão muitas vezes é o receio do que vem atrás. Para as empresas que vão liderar o tema principal é chegar lá à frente e não ficar para trás”, concluiu.
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