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Quando o ‘Maestro’ parou Portugal: Memórias de uma noite com Fangio

Quando o ‘Maestro’ parou Portugal: Memórias de uma noite com Fangio

Relemos hoje, com o distanciamento que o tempo nos confere, uma crónica de 1978, e é impossível não sentir o peso da história. Naquelas páginas amareladas, o nome de Juan Manuel Fangio não era apenas o de um antigo piloto; era, como bem descrevia o autor da época, o símbolo máximo do volante.
Revisitamos a ideia de que, mesmo com a ascensão de colossos como Clark, Stewart ou Lauda, o argentino permanecia no imaginário coletivo como a bitola pela qual todos os outros eram medidos.
Quem de nós – os mais velhos – não recordam a expressão “pensas que és o Fangio?”, tantas vezes citada como prova da sua lenda viva?
Ao folhearmos o relato daquela entrega de prémios do Rali de Portugal, somos transportados para uma noite de gala onde a maior surpresa não foi um troféu, mas sim a presença física do pentacampeão. Fangio, em trânsito para França, decidiu fazer uma escala em Portugal para um anúncio que hoje sabemos ter sido histórico: o Rali da América do Sul, que antecipou o que viria a ser o Rali da Argentina.
Lemos com particular atenção a descrição da sua subida ao palco, apresentado por Adriano Cerqueira, e quase conseguimos ouvir a ovação vibrante que o texto original faz questão de sublinhar. Através das palavras do mítico Adriano Cerqueira, recuperamos o discurso direto do argentino, que, com a humildade típica dos grandes, pediu desculpa por se expressar em castelhano.
É fascinante notar como Fangio utilizou a sua memória pessoal para criar empatia com o público português. Ele recordou, no seu breve improviso, que já conhecia este “formoso país” há mais de duas décadas — referindo-se à sua passagem por aqui em 1957 — e comparou o ambiente festivo daquela noite à união que as corridas sempre souberam promover.
Ao interpretarmos o apelo que fez aos organizadores portugueses, percebemos que o seu objetivo ia além do desporto; era um convite diplomático. Fangio queria a bandeira de Portugal no Rali da América do Sul, invocando a forte presença da nossa comunidade emigrante na Argentina e no resto do continente.
Ao revisitarmos esta peça jornalística original, percebemos como o olhar atento daquele repórter nos permite hoje captar a dimensão humana de um ídolo que, mesmo décadas após o seu auge, ainda movia multidões. Recordar este texto é, no fundo, recordar como o desporto motorizado em Portugal sempre foi solo fértil para acolher os maiores da história.
Apresentado por Adriano Cerqueira, o piloto argentino foi vibrante e aclamado ao subir ao palco.
Eis a sua breve alocução: “Senhoras e senhores, quero pedir desculpa, porque eu não falo portuguès, mas farei os possíveis para que percebam o meu castelhano. Desde 1957 que conheço este formoso país, quando aqui corri. Recordo que também depois da prova houve uma festa como a desta noite. Que teve a virtude de unir as pessoas e de fazer recordar os tempos. Quero dar os parabéns aos organizadores deste rali e aproveitar a sua gentileza para lhes anunciar a realização do Rali da América do Sul, pelo Automóvel Clube Argentino, com a colaboração de todos os Automóveis Clube da América do Sul, Gostaríamos de ter a honra, neste momento em que fazemos o anúncio oficial, que repetiremos amanhã em Paris, seria uma honra, dizia, que Portugal estivesse representado. Há muitos emigrantes portugueses na América do Sul e também na Argentina. Penso que a bandeira de Portugal devia estar presente.
Este é um desporto que não tem fronteiras, não tem limites; por isso, agradeço ao Automóvel Clube de Portugal o ter-me permitido, nesta minha passagem por aqui, poder anunciar-lhes este rali que terá lugar em 18 de Agosto e que terminará em 24 de Setembro. Muito obrigado”.
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