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Santa Sé convida à coragem de abraçar a escuta

Santa Sé convida à coragem de abraçar a escuta

As diatribes de um certo líder, ruidosas e danosas para a humanidade, não pouparam sequer o Sumo Pontífice. A resposta de Leão XIV foi elegante e firme. Contundente. E até, achamos nós, coincidente com o repto de Koyo Kouoh, a curadora da 61ª Bienal de Veneza: transformar a arte num “sussurro poético” de resistência, introspeção e alegria perante tempos de exaustão global. “Em Tons Menores” (In Minor Keys) é o ponto de partida para as propostas artísticas que a Sereníssima se prepara para acolher de 9 de maio a 22 de novembro.
A Santa Sé volta a marcar presença, pela mão do seu comissário, o Cardeal José Tolentino Mendonça, numa participação que visa confirmar o compromisso da Santa Sé com o diálogo com a arte contemporânea. Tendo a escuta como epicentro da resistência e da alegria, e como antídoto para a voragem em que vivemos. Esse exercício da escuta espraia-se por dois espaços, entre os bairros de Cannaregio e Castello, sob o título “O Ouvido é o Olho da Alma”, que se quer uma “oração sonora” e um convite à escuta contemplativa.
Com curadoria de Hans Ulrich Obrist e Ben Vickers, em colaboração com o Soundwalk Collective, o Pavilhão da Santa Sé integra as obras encomendadas a 24 artistas, inspiradas na vida e no legado de Hildegarda de Bingen, proclamada santa e Doutora da Igreja em 2012 por Bento XVI. No Jardim Místico, espaço monástico do século XVII cuidado pelos Carmelitas Descalços, encontram-se as obras sonoras de vinte artistas, entre músicos, poetas e compositores, de Brian Eno a Patti Smith, de Jim Jarmusch a Meredith Monk, até às monjas beneditinas de Eibingen e à fadista portuguesa Carminho. ‘Poesia’ feita a partir de instrumento, voz e silêncio dialogam com os cantos e as visões de Hildegarda.
No bairro de Castello, o Complexo Nossa Senhora Auxiliadora está organizado em torno de três eixos: um arquivo vivo, a liturgia sonora das monjas de Eibingen e o derradeiro filme do cineasta alemão Alexander Kluge, falecido em março deste ano, autor de uma instalação monumental de doze estações, distribuídas em três espaços, integrando-se nas obras de restauro do edifício. Aqui se encontra, também, o arquivo, criado em parceria com a irmã Maura Zátonyi e a Academia de Santa Hildegarda, livros de artista da pintora portuguesa Ilda David e um projeto arquitetónico monástico do Tatiana Bilbao Estudio.
Convocamos, de novo, as palavras do Papa Leão XIV. “A lógica do algoritmo tende a repetir o que ‘funciona’, mas a arte abre para o que é possível. Nem tudo precisa ser imediato ou previsível”. Mas tudo envolve a escuta, a capacidade de ouvir o outro. Pilar do seu pontificado.
“O Ouvido é o Olho da Alma”, a Santa Sé na Bienal de Veneza | 9 de maio a 22 de novembro

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