António Costa: nuclear e renováveis são essenciais para a independência energética da União
As renováveis e a energia nuclear são essenciais para a União Europeia no quadro da transição energética, que tem obrigatoriamente que passar pela segurança na utilização das energias e assim contribuir para objetivos ambientais, mas, mais importante no quadro do caos global, para a independência energética. A opinião é de António Costa, presidente do Conselho Europeu, que utilizou uma conferência na Universidade Católica do Porto para falar sobre o tema do nuclear – que não lhe é costumeiro, mas está dia a dia mais presente no debate sobre o futuro energético da Europa.
Costa também falou, contidamente, sobre a NATO, para explicar que a organização faz ainda parte do todo global da segurança e defesa da União Europeia – apesar de nem todos os Estados-membros fazerem parte da aliança militar (são 23 em 27). O tema é claramente cada vez mais incómodo para a cúpula da União, Comissão Europeia incluída, uma vez que é cada vez mais difícil dar a entender as vantagens da eternização da aliança num quadro em que o seu principal responsável (e criador), os Estados Unidos, perderam o interesse em manter-se ao lado dos aliados europeus. Vários analistas têm dito que Comissão e Conselho preferem deixar o tempo passar até que Donald Trump deixe de ser o presidente dos Estados Unidos e o bom entendimento no interior da NATO regresse. Esquecem-se por certo que republicanos e democratas estão quase sempre muito alinhados no que tem a ver com questões de política externa e que o foco da defesa dos próprios Estados Unidos derivou do Atlântico para o Pacífico. Dito de outra forma: é muito improvável que a NATO (e a defesa dos países europeus) alguma vez volte a ter a importância que teve entre o fim da II Guerra e a atualidade – mesmo que a questão da Ucrânia surja em sentido contrário.
António Costa falou ainda do que chamou a estratégia do 5P como essencial para o futuro da União Europeia. Num contexto em que “duas novas realidades: a ordem internacional desde a II Guerra em crise e um mundo crescentemente multipolar”, que “chocam entre si” e promovem “a ausência de regras e o caos”, é preciso escolher. Para Costa, é preciso escolher “entre é o prolongamento do caos” e a imposição militar ou económica dos mais fortes; “voltar ao mundo da divisão das esferas de influência” que caraterizava a Guerra Fria”; o as parcerias de multipolaridade”. Parece que a resposta certa é a hipótese três.
Nesse contexto, a estratégia da União Europeia assenta em cinco regras, ou os 5P, como lhe chamou: princípios, paz, prosperidade, parcerias, poder.
O primeiro é a continuação das regras de direito. “A força é desfavorável à Europa”. Ora, soberania, integridade territorial, autodeterminação, continuam a ser princípios basilares do bloco. Sabendo que “não é fácil aplicar estes princípios com igual coerência em todo o mundo ou por parte de todos os Estados-membros”, é preciso fazer um esforço, “tanto na Ucrânia como mo Líbano. O direito é igual em todo o lado”. Mundo global não se resolve sem instituições multilaterais (ambiente, saúde, oceanos.
Quanto à paz “ela está no ADN da União Europeia” e foi pela paz que o bloco se manteve unido e bem-sucedido, “mesmo nos sucessivos alargamentos”. “Temos de garantir a paz, desde logo a leste, a sul, e na fronteira nórdica”, cobiçada “por vários países, ou antes, por um, não vale a pena estar a usar o plural”. Teria a NATO a ver com isto? Ainda não.
Quanto à prosperidade, Costa diz que “o sul olha para a europa como promotor da estabilidade” e, nessa medida, como o exemplo de prosperidade que todos quem atingir. É por isso que a União pretende promover parcerias o mais abrangentes possível, o mais diversificadas possível. “Em 2025, fizemos cimeiras de todos os BRICS (menos com a Rússia), com o Reino Unido, o Japão, o Canadá”, tendo sempre em vista as parcerias estratégicas, a grande arma da União. “Somos a maior potência comercial do mundo – que nos dá capacidade de afirmação à escala global. Temos 80 acordos globais (como a Índia e o Mercosul)”, e 27 acordos de livre comércio em análise. Instabilidade das tarifas dos EUA.
É neste quadro que surge a transição energética: “não é apenas uma questão de prioridade ambiental, é uma questão de segurança económica e global imediata”, exposta surpreendentemente, para alguns, com a crise no gás da Rússia, que gerou uma crise inflacionista. A crise do Médio Oriente é suficiente para gerar novo pico inflacionista. Ora, esta é “uma das maiores vulnerabilidades da europa. Podemos vencer com renováveis e o nuclear, essenciais para a segurança”.
Já o poder, terá necessariamente que ser armado, mas que não belicoso – uma tese que carece de prova, mesmo que a História seja madrasta para os pacifistas. Mas o bloco precisa também de vencer o défice de competitividade comercial com os EUA e a China – “será isso que manterá o poder na europa”.
Para fortalecer a Europa, “é preciso completar o mercado interno: nunca integrámos a energia, o sistema financeiro”, nunca soubemos cativar capital em vez de o ir investir nas praças norte-americanas – área em que a portuguesa Maria Luís Albuquerque, ministra de um governo fortemente contestado por António Costa num período longínquo, tem dado passos significativos.
De qualquer modo, concluiu o presidente do Conselho Europeu, “o próximo ciclo de fundos comunitários tem de ter em conta tudo isto” e promover a reindustrialização, mesmo que, por exemplo, os empresários têxteis tenham de perceber que talvez as prioridades sejam agora outras. Quais? A defesa – ou tudo o que tenha a ver com ela, nomeadamente minerais críticos, chips e uma panóplia de matérias e materiais que não existem na Europa. De qualquer modo, “somos uma grande democracia, uma potência no comércio, uma das três principais economias do mundo, temos o melhor estado social, resiliência face às crises”. Vistas as coisas deste ângulo, vale a pena perguntar: haverá alguma coisa que possa correr mal a um couraçado de tal ordem potente. Desgraçadamente, a resposta é: sim.
Share this content:



Publicar comentário