Bancos endurecem critérios de crédito às PME e antecipam quebra na procura de habitação, revela inquérito do BdP
O Banco de Portugal divulgou hoje os resultados do Inquérito aos Bancos sobre o Mercado de Crédito, revelando que as instituições financeiras em Portugal tornaram os critérios de concessão de crédito às Pequenas e Médias Empresas (PME) ligeiramente mais restritivos no primeiro trimestre de 2026, ainda que a procura de crédito continue a crescer neste segmento.
Em contraste, o crédito a particulares manteve-se estável, embora se registe um aumento na rejeição de pedidos de empréstimo neste segmento.
Em resumo o novo Inquérito aos Bancos sobre o Mercado de Crédito mostra um setor bancário mais cauteloso com as empresas e alerta para uma inversão na tendência de procura de empréstimos pelas famílias.
No que toca aos crédito a empresas, o principal fator identificado foi a percepção de riscos associados à situação económica geral e às perspetivas de empresas e setores específicos. A tolerância ao risco por parte das instituições financeiras também contribuiu para este aperto, embora a concorrência entre bancos tenha funcionado como contrapeso, pressionando ligeiramente no sentido oposto.
Nos termos e condições, registou-se um ligeiro aumento do spread aplicado nos empréstimos de maior risco tanto a PME como a grandes empresas, bem como um aumento da restritividade associada à maturidade dos empréstimos no segmento das PME. Em sentido contrário, verificou-se uma ligeira redução da taxa de juro e do spread nos empréstimos de risco médio, assim como das comissões cobradas.
Apesar das condições mais exigentes, a procura de crédito por parte das PME aumentou, impulsionada pelas necessidades de financiamento de existências e de fundo de maneio. Já as grandes empresas registaram uma ligeira quebra na procura, influenciada pelo menor apetite para financiar investimento e pelo recurso a outras instituições bancárias como alternativa.
No crédito a particulares, a procura cresceu em ambos os segmentos — habitação e consumo. No caso da habitação, o regime regulamentar e fiscal do mercado imobiliário foi o principal fator impulsionador a par com as perspetivas de evolução de preços no mercado imobiliário. No consumo, a confiança dos consumidores e o recurso a empréstimos garantidos por imóveis contribuíram para o crescimento da procura.
Apesar do dinamismo recente, as previsões dos bancos para o segundo trimestre de 2026 apontam para uma inversão de tendência na procura por parte dos particulares. Antecipa-se uma diminuição da procura, com maior incidência no crédito à habitação. Já nas empresas, prevê-se que os critérios de concessão para PME continuem a tornar-se ligeiramente mais restritivos.
Isto é, para o segundo trimestre de 2026, os bancos antecipam a manutenção de critérios ligeiramente mais restritivos para PME e empréstimos de longo prazo, sem alterações no crédito a particulares. Quanto à procura, espera-se um aumento no segmento das PME, mas uma diminuição nos particulares, em especial no crédito à habitação.
Titularização não teve impacto nos critérios de concessão nem no volume de crédito concedido nos últimos 12 meses
O inquérito incluiu ainda uma questão especial sobre titularização de empréstimos. Os dados revelam que esta atividade é mais relevante para os bancos portugueses do que para a média da área do euro, sendo utilizada principalmente como instrumento para libertar capital e conceder novos créditos. As operações sintéticas com transferência significativa de risco (SRT) destacam-se como as mais importantes. Os principais compradores destes ativos titularizados em Portugal são fundos de investimento privados e companhias de seguros e fundos de pensões.
“A titularização afirma-se como um instrumento de gestão de capital, permitindo aos bancos otimizar os seus rácios prudenciais num quadro de uma supervisão que pretende ser mais segura e rigorosa”, refere o documento.
Nos últimos três meses assistiu-se a um “deterioração no acesso a financiamento através da emissão de títulos de dívida de médio a longo prazo e, em menor grau, da titularização de empréstimos para aquisição de habitação e da capacidade de transferência do risco para fora do balanço e nos próximos três meses é esperada yma deterioração no acesso ao mercado transversal às habituais fontes de financiamento por grosso e a retalho, em particular através da emissão de títulos de dívida de médio a longo prazo, seguido do financiamento via depósitos de curto prazo”, segundo o inquérito.
Os bancos portugueses indicaram que a atividade de titularização não teve impacto nos critérios de concessão nem no volume de crédito concedido nos últimos 12 meses, e não antecipam alterações para os próximos 12 meses — ao contrário dos bancos da área do euro, que reportaram um ligeiro afrouxamento nos critérios e um aumento do volume de crédito, sobretudo no segmento empresarial.
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