Seguro ou não seguro?
Após a série de catástrofes que arrasaram Portugal, o Governo decidiu mobilizar 22,7 mil milhões de euros, o equivalente a 7,1% da riqueza produzida num ano para reconstruir, recuperar e preparar o país para este tipo de eventos climáticos extremos, no chamado PTRR.
O plano, bem-intencionado, começa por esbarrar num horizonte temporal longínquo, de 9 anos. São vários os exemplos de anúncio de investimentos a longo prazo que, excedendo várias legislaturas e sem consenso político, são facilmente anulados por governos futuros.
Umas das propostas que mais ruído pode gerar é a da obrigatoriedade de seguro multirriscos habitação. Ora, segundo os censos de 2021, Portugal tinha quase 6 milhões de casas, das quais 4,1 milhões eram residência habitual, 1,1 milhões casas de férias ou de emigrantes, e 723 mil correspondentes a alojamentos vagos.
Grande parte das casas de residência habitual compradas com crédito à habitação têm seguro multirriscos, ou seja, já estão cobertas por esta proposta do PTRR, enquanto as casas de férias ou de emigrantes e as vagas terão menos seguros associados.
No total, 47% das casas em Portugal não têm qualquer tipo de seguro, o que deixa a sociedade, no seu todo, bastante vulnerável, como pudemos ver este ano. As pessoas ficam sem apoio e o governo vê-se na contingência de utilizar dinheiro de todos os contribuintes, agindo como se fosse uma seguradora para cobrir riscos de privados.
É aqui que a medida preconizada é bastante positiva, mas enfrenta o obstáculo que é a literacia financeira dos portugueses. Entender e explicar às pessoas o que é o conceito de risco é algo absolutamente vital antes da implementação de qualquer medida.
É necessário explicar o custo associado de não ter seguro e o aumento da probabilidade associado a eventos extremos climáticos que vão afetar-nos a todos, e trazer prejuízos que apenas podem ser colmatados com seguros que mitiguem esses prejuízos. Nesse sentido, é urgente alterar a cultura de não pagar por um serviço que vai revelar-se essencial.
Há a questão das famílias mais vulneráveis que não conseguem pagar um seguro, mas é aqui que o Governo pode fazer a diferença. Criar um plano de adesão dos portugueses, como se de uma central de compras se tratasse, e pedir cotação a seguradoras nacionais e internacionais. Quem não quisesse aderir teria de ter o seu seguro pessoal. As vantagens na centralização de volumes é conseguir preços mais baixos, com vantagens para quem pretendesse aderir a um seguro básico. Para 250.000 euros, um seguro médio ficaria a menos de um euro por dia.
O maior problema não é o investimento, muitas vezes visto como um custo, mas sim a literacia e o hábito. E esse tem mesmo de mudar.
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