De que estão privados os portugueses?
Quantas pessoas não conseguem pagar a renda ou a prestação da casa a tempo e horas? Quantas não têm capacidade para substituir móveis ou roupa? Ou manter a casa aquecida? Ou tirar uma semana de férias? O número de portugueses que têm privação material ou social ainda está, como sabemos, acima de 1 milhão: 10,2% de toda a população, segundo os dados do Instituto Nacional de Estatística (INE). E a privação severa está em 4,3%.
O que pode ter escapado é a evolução na última década. Em 2014, à saída de um difícil período de ajustamento a que o país se viu obrigado depois de quase ir à bancarrota, a taxa de privação material e social atingia os 27% (2,8 milhões).
Nesse mesmo ano, a Grécia, que ainda estava em apuros, atingia 37,6%. Na Bulgária e na Roménia superava os 50%. Se há algo que temos como certo sobre as dificuldades e os desastres é que há sempre alguém pior. Para ser concreto, a nível europeu, sete países tinham, em 2015, uma taxa mais elevada do que a de Portugal.
Nos anos seguintes, na verdade, o país pouco melhorou no ranking (muitas vezes o 20.º pior, foi 19.º em 2018 e 2022 e 21.º em 2021). Em 2023, contudo, deu um salto de dois degraus para 17.º e assim se manteve em 2024. Já em 2025, promete ocupar uma posição similar — para já, está em 14.º lugar, mas quatro países ainda não revelaram os dados. A Croácia lidera (4,4%).
Seja como for, independentemente do ranking europeu, Portugal desceu quase todos os anos desde 2014 (as exceções são 2021, em que subiu para 13,5%, e 2023, em que estagnou nos 11,9%). Destaque para o período pós-troika, em que caiu para metade: de 27% em 2014 para 13,2% em 2019. Desde então, a descida foi mais moderada, mas os 10,2% de 2025 são a taxa mais baixa em pelo menos 12 anos.
Como habitualmente, é nos Açores que encontramos mais casos de privação material e social (15,7%). Seguem-se Madeira (13,3%), Área Metropolitana de Lisboa (10,6%), Norte (10,2%), Centro (9,8%), Alentejo (8,5%) e Algarve (8%).
Por idade e género, são as mulheres com pelo menos 65 anos que mais passam por privações (15,2%, contra 23,9% em 2015), enquanto os homens de 18 a 64 anos têm menos (7,9%). Sublinhe-se que há uma década eram as crianças e adolescentes (rapazes até 17 anos) que estavam na cauda do ranking (com 25%, contra 9,4% agora).
Claro que privações há muitas, umas mais graves do que outras, e os dados do INE permitem perceber as nuances: sem capacidade económica para ter dois pares de sapatos de tamanho adequado são 0,6% da população; sem capacidade para ter uma refeição de carne, peixe (ou equivalente vegetariano), pelo menos de dois em dois dias, está em causa 1,9% (mas cada região conta a sua história e nos Açores este valor sobe para 7,7%); sem capacidade para pagar atempadamente rendas ou prestações de crédito são 5,2% (mas na Área Metropolitana de Lisboa chega a 8,7%); sem conseguir manter a casa adequadamente aquecida são 15,6%; sem capacidade para substituir mobiliário usado há um terço dos portugueses (33%); tal como aqueles que não podem pagar uma semana de férias por ano (33,1%).
Depois, mais grave, há a chamada privação severa, em que Portugal manteve, no ano passado, o mesmo nível de 2024 (4,3%) e menos de metade do valor registado em 2015 (10,9%). Tal como na privação menos severa (chamemos-lhe assim), o país chegou a ser o 20.º pior no ranking europeu (entre 2015 e 2017 e em 2021). No entanto, nos últimos anos tem conseguido melhorar a sua posição relativa no contexto europeu, chegando a 15.º em 2019, 2022 e 2023 e a 14.º em 2024. Para já, Portugal está em 10.º lugar em 2025, mas é expectável que fique em 13.º quando todos apresentarem dados. Os Açores, mais uma vez, enfrentam as maiores dificuldades no país (6,7%), seguidos pela Madeira (5%).
Estes dados, no entanto, revelam apenas parcialmente as dificuldades de acesso a bens e serviços essenciais, como já sublinhou Carlos Farinha Rodrigues, professor do ISEG. O indicador do risco de pobreza, que é mais abrangente, mostra que ainda havia 15,4% da população nessa circunstância em 2024 (últimos dados disponíveis), apesar de estar a descer. Ou seja, apesar das melhorias no mercado de trabalho, do aumento do salário mínimo, da subida das pensões, entre outros, pelo menos 1,6 milhões de pessoas ganhavam menos de 723 euros por mês (o limiar de pobreza relativa em 2024). E a pobreza extrema estava em 5,2%.
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