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EUA-Reino Unido: Uma ‘relação especial’ cheia de desentendimentos

EUA-Reino Unido: Uma ‘relação especial’ cheia de desentendimentos

Poucos dias antes da visita oficial dos monarcas britânicos aos Estados Unidos, o presidente Donald Trump disse estar a considerar rever a reivindicação britânica sobre as Ilhas Malvinas – território de vez em quando também reivindicado pela Argentina do ‘amigo’ Javier Milei – como punição pela falta de apoio do Reino Unido na guerra contra o Irão. A pouco inocente declaração de Trump ensombrou a visita e, segundo alguns analistas, está na base de parte do discurso de Carlos III no Congresso norte-americano, onde quis deixar vincado sem margem para qualquer dúvida que os britânicos estão para ficar na NATO.
“Quaisquer que sejam as nossas diferenças, quaisquer que sejam as nossas divergências, permanecemos unidos no nosso compromisso de defender a democracia, de proteger o nosso povo de qualquer mal e de saudar a coragem daqueles que diariamente arriscam as suas vidas ao serviço dos nossos países”, disse Carlos III, antes de deixar evidente que a aliança atlântica é uma das ferramentas centrais desse entendimento.
Mais tarde, num banquete de Estado na Casa Branca, Trump disse: “Estamos a trabalhar um pouco no Médio Oriente agora e estamos a ir muito bem”. “Derrotámos militarmente esse adversário em particular e nunca vamos deixar – Carlos concorda comigo – nunca vamos deixar que ele tenha uma arma nuclear”. Depois disso, o monarca também interveio, mas não mencionou o Irão, a guerra com o Irão ou o interesse do Irão pelas armas nucleares.
 
Economia na agenda
Vão longe os tempos em que a monarquia britânica passava por cima da agenda da economia como se fosse um assunto menor. Assim, Carlos III tratou de, depois de despachar a agenda política, reunir com líderes do setor tecnológico norte-americano, num contexto em que Reino Unido quer aumentar a sua exposição enquanto destino para empresas de tecnologia. Entre os líderes com quem o monarca reuniu estavam a Amazon, Apple, Nvidia, Advanced Micro Devices, Salesforce e Alphabet.
Carlos III destacou “um ecossistema de capital de risco vibrante e de uma cultura de startups” como elementos necessários e suficientes para o Reino Unido acolher a comunidade tecnológica que quer estender os seus interesses à Europa. O que Carlos III não disse foi o poderoso íman que constitui a política fiscal da República da Irlanda (independente do Reino Unido) e os reveses que o Brexit – diretamente apoiado por Donald Trump – tem imprimido à economia britânica.
De qualquer modo, quando Donald Trump visitou o Reino Unido (em setembro do ano passado), o presidente dos Estados Unidos deixou a promessa de que empresas como a Microsoft, Nvidia, Google e OpenAI iriam investir 31 mil milhões de libras (cerca de 42 mil milhões de dólares) no Reino Unido nos próximos anos em inteligência artificial, computação quântica e energia nuclear civil.
Para já, apenas a Microsoft concretizou: anunciou em setembro um investimento de 30 mil milhões de dólares em infraestruturas de IA e operações contínuas no Reino Unido durante o período de quatro anos, de 2025 a 2028. “Este é o maior investimento financeiro que já fizemos no Reino Unido. Inclui 15 mil milhões em despesas de capital para expandir a infraestrutura de nuvem e IA do país. Esse investimento permitirá construir o maior supercomputador do país — com mais de 23.000 GPUs — em parceria com a Nscale”, adiantava o grupo fundado por Bill Gates.
Do outro lado está um projeto da OpenAI, que lançou o Stargate UK em parceria com a Nvidia e a Nscale, apresentado pela empresa como um “grande passo” em frente na parceria tecnológica entre os dois países, visando fortalecer as capacidades computacionais do Reino Unido e apoiar uma adoção mais rápida da IA no país. Mas o projeto está em ‘stand by’: “Continuamos a explorar o projeto Stargate UK e avançaremos quando as condições adequadas, como a regulamentação e o custo da energia, permitirem o investimento em infraestrutura a longo prazo”, disse a empresa em abril deste ano.
 
Um elefante na sala
Mas o tema que mais estava presente sem que qualquer das partes o mencionasse era mesmo o escândalo Epstein. O irmão de Carlos III, Andrew, cuja reputação e posição na realeza foram destruídas pelas suas ligações com o falecido criminoso sexual norte-americano, está atualmente a ser investigado. Peter Mandelson, ex-embaixador britânico nos Estados Unidos, não podia estar mais envolvido. E o tema é uma das grandes dores de cabeça de Trump. O deputado Ro Khanna, um dos autores da Lei de Transparência dos Arquivos Epstein, organizou um encontro com pessoas exploradas pelo magnata morto, para o qual, disse, convidou o rei. “”Achei que o rei devia isso aos sobreviventes, dadas as graves acusações de abuso feitas contra o irmão… Infelizmente, ele recusou o pedido”, disse Khanna.

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