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O novo ecossistema em que a banca continua a ser crítica

O novo ecossistema em que a banca continua a ser crítica

Fragmentação. Reconfiguração. Hibridização. Cada um destes termos e todos em conjunto servem para descrever o que está a acontecer no sistema financeiro, que está a mudar de forma estrutural, mas longe do sentido clássico de substituição.
Luís Barbosa, partner da PwC, diz que se trata de uma evolução “de um modelo estruturalmente bancário para um ecossistema funcionalmente fragmentado”. A nuance é relevante, porque o centro do sistema não desaparece. A emergência de fintechs, fundos de crédito ou plataformas tecnológicas a assumirem partes da cadeia de valor está a reconfigurar o papel dos bancos. Não o elimina. Aliás, em muitos casos, reforça-o.
Transitamos de um modelo vertical para um modelo em ecossistema, em que diferentes entidades se especializam em funções específicas, como a originação, o financiamento, a distribuição ou a interface com o cliente. A intermediação é repartida. Ainda assim, os bancos continuam a concentrar funções críticas: balanço, liquidez, gestão de risco e, sobretudo, confiança sistémica.
“Os bancos enfrentam hoje uma decisão estratégica muito clara: que papel querem assumir dentro do ecossistema”, diz ao Jornal Económico (JE) Mário Trinca, managing partner da consultora Alvarez & Marsal Portugal. “Alguns poderão posicionar-se como plataformas tecnológicas de vanguarda, disponibilizando serviços a terceiros; outros poderão reforçar o seu papel como distribuidores, integrando na sua oferta produtos de diferentes players”, aponta.
Para a banca, isto obriga a um processo de adaptação, de especialização.
A relação com o cliente, especialmente no que respeita ao retalho e às PME, passa a depender, em muito, de quem controla as plataformas digitais, os dados e a experiência do utilizador.
“Quem, na verdade, assegurar a relação com o cliente será capaz de controlar o fluxo de dados e de ter maior capacidade de aconselhamento ou influência sobre a distribuição – incluindo cross-selling – de produtos financeiros, razão pela qual a generalidade dos bancos tem vindo a fazer investimentos significativos no domínio tecnológico para melhorar a experiência do cliente”, diz Luís Barbosa.
Não é uma disputa pelo controlo do sistema financeiro, “mas pode influenciar decisivamente o controlo sobre a definição do pricing, o conhecimento e o comportamento do cliente e, em última instância, a relevância estratégica da banca”, acrescenta.
Prós e contras
Para o cliente, esta evolução é, em geral, positiva, porque tem mais escolha, maior especialização dos agentes e acesso a maior personalização. “Introduz inovação, diversifica fontes de financiamento e aumenta a capacidade de resposta do sistema”, diz Mário Trinca. “Mas há também uma consequência importante: maior autonomia implica maior responsabilidade. O cliente passa a ter mais opções, mas também tem de compreender melhor o que escolhe”, avisa.
Para o setor financeiro, no geral, também há impactos positivos, com a distribuição do risco por mais agentes, através da crescente participação de investidores institucionais, fundos de crédito e estruturas alternativas. Mas com outro risco que se forma, que é a falta de regulamentação, a existência à margem do sistema.
“O Banco Central Europeu tem vindo a alertar que estas entidades desempenham funções semelhantes às dos bancos, mas sem exigências prudenciais equivalentes, criando riscos de opacidade e de contágio sistémico, em particular, através de fortes interligações com os próprios bancos”, diz Barbosa. “O regulador europeu, com destaque para a Autoridade Bancária Europeia, tem uma visão coincidente em termos da consciencialização de que esta fragmentação aumenta o risco de arbitragem regulamentar e de que exige uma supervisão mais consistente da cadeia de financiamento”, reforça.
Trinca considera importante que a regulação não iniba a inovação, numa fase inicial. E que as autoridades que supervisionam o sistema se centrem “em assegurar transparência, comparabilidade e um level playing field entre intervenientes, mais do que em substituir-se ao cliente na avaliação do risco”.
“O cliente deve ter a liberdade de escolher o nível de risco que pretende assumir, desde que disponha de informação clara, fiável e comparável sobre quem está do outro lado”, advoga.
Mas isso leva-nos à discussão sobre literacia, ou a falta dela, num quadro em que a relação com o cliente será cada vez mais disputada e, provavelmente, também mais partilhada.
“É absolutamente crítico”, diz o responsável pela Alvarez & Marsal em Portugal. “Países como Portugal ainda apresentam lacunas relevantes neste domínio. Num sistema mais aberto e com maior diversidade de escolhas, capacitar o cliente para tomar decisões informadas é, provavelmente, o fator mais importante para garantir um equilíbrio saudável entre inovação e proteção”, alerta.

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