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Thales quer exportar 50 milhões por ano a partir de Lisboa

Thales quer exportar 50 milhões por ano a partir de Lisboa

A instabilidade geopolítica está a aumentar a procura de sistemas de defesa e, à boleia disso, tem feito crescer os resultados da francesa Thales. Os números relativos ao primeiro trimestre de 2026 atingiram os 5,3 mil milhões de euros, um aumento de 7,2% (+9,7% em crescimento orgânico) face ao período homólogo de 2025. Estes são números globais, uma vez que a empresa não especifica resultados por país ou regiões. A Thales atua também nas áreas aeroespacial e da cibersegurança e viu o negócio ligado à Defesa crescer 13,2% (14,3% em variação orgânica) para os 3.047 milhões de euros no primeiro trimestre de 2026. A guerra dos Estados Unidos-Israel com o Irão, a guerra na Ucrânia e a instabilidade geopolítica trazida pela administração Trump deram uma ajuda.
Já em 2025 a empresa tinha crescido 8,8% com as vendas e atingiram os 22 mil milhões de euros. Em Portugal, o negócio tem uma especificidade apenas replicada no país de origem da empresa, França: a presença do Estado como acionista. A Thales Portugal é comparticipada pelo estado em 35%, divididos entre a Nav – Empresa Pública de Navegação aérea e o Ministério da Defesa Nacional, através da IDD. Isso dá ao Estado português “vantagens”, ou como salienta Sérgio Barbedo, CEO da empresa, tem “uma palavra a dizer naquilo que são as decisões acionistas do que se faz na Thales.” “A defesa é sinónimo de soberania, o que é muito importante em momentos críticos e anormais. O acesso à Thales garante que, em caso de stress ou forte procura de equipamentos, as necessidades do país serão uma prioridade”, reforça Barbedo. “Depois de alguns anos de travessia no deserto na aquisição de equipamento de Defesa, Portugal está agora numa fase inicial de recuperação de algum subinvestimento que houve no passado”, afirma o responsável ao Jornal Económico. E acrescenta: “as Forças Armadas Portuguesas, durante muitos anos, viveram bastante limitadas em termos de acesso ao investimento e, neste momento, têm grandes necessidades de recuperar e de estabelecer as suas capacidades”.
Toda esta dinâmica tem criado milhares de vagas de trabalho na Thales, ao ritmo de oito mil pessoas por ano, nos últimos cinco. Recentemente, a empresa anunciou que irá contratar mais de nove mil trabalhadores em todo o mundo, dos quais 200 em Portugal na área da engenharia.
Os negócios que crescem em Portugal
Nos resultados globais da Thales, Portugal ainda representa “muito pouco, a nível de percentagem”, no entanto, segundo Sérgio Barbedo, as encomendas à unidade portuguesa têm aumentado. “Temos o objetivo de exportar, a partir de Portugal, na ordem dos 50 milhões de euros anualmente a partir deste ano. Em encomendas vamos crescer mais 100%”, sustentados nos sistemas de controlo de tráfego aéreo e de combate e controlo naval. “É uma área muito forte onde temos vindo a apostar em Portugal. Estamos a trabalhar com muitas marinhas internacionais, nomeadamente a inglesa, a alemã, e a polaca.” A aposta em Portugal é “no crescimento orgânico”, sublinha o CEO. “Existe agora uma geração de empresas portuguesas que estão a emergir e a ganhar escala, e que poderão vir a ser interessantes se ganharem em maturidades e dimensão.”
O futuro quântico
Sobre o futuro, Sérgio Barbedo aponta como inevitável o caminho da computação quântica. A empresa, que investe quatro mil milhões de euros por ano em investigação tecnológica, tem direcionado parte para o setor quântico. O responsável dá exemplos do que aí vem: “as tecnologias de radar serão fortemente influenciadas pela revolução quântica que vamos viver nos próximos 20 anos”. Mas há uma outra área na qual a Thales está envolvida que requer especial atenção. “Fornecemos sistemas de proteção para o sistema bancário mundial e temos a grande maioria dos bancos mundiais a trabalhar em cima das nossas soluções de segurança.” Uma prova em como a computação quântica é uma das grandes preocupações do sistema financeiro mundial. “Estamos a trabalhar do lado da defesa e a desenvolver chaves quânticas para garantir a segurança dos nossos clientes, porque a tecnologia quântica irá permitir quebrar as chaves de encriptaçao atuais”.
 

 
“Durante anos existiu uma indústria de Defesa à antiga”
Como classifica o setor da Defesa em Portugal?
Durante muitos anos existiu no país uma indústria de Defesa à antiga e ocorreu uma espécie de travessia do deserto. Em 2000, com o ministro Mariano Gago são criadas uma série de empresas tecnológicas que começam a criar de uma nova geração de recursos humanos bastante rica, não só em qualidade como em volume. A partir daí, começa-se a ter uma indústria portuguesa, sobretudo no domínio do espaço, que, simultaneamente, trabalha na defesa e na aeronáutica. Depois, começam-se a assinar parcerias internacionais, com os grandes gigantes europeus e mundiais., com a Thales e a Embraer, através da Ogma. E inicia-se todo um ecossistema que hoje alberga cerca de 40 mil pessoas.
A engenharia portuguesa é reconhecida pelas multinacionais?
Sou um grande defensor da qualidade das universidades portuguesas. A Thales tem hoje muitos engenheiros portugueses a trabalhar em outros países. E a partir de Portugal temos equipas a trabalhar simultaneamente no aeroportos da Tailândia, no Cazaquistão, na cidade do México e São Paulo, no Brasil. Nomeamos Portugal como um dos seus principais polos de investimento ao nível de reforço de capacidades em alguns domínios. Somos hoje, em Portugal, um dos principais centros de engenharia base na parte de sistemas de controlo de tráfego aéreo.
 

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