Agitar antes de usar, a arte que não busca o conforto
Paira na memória uma frase do filósofo e ensaísta José Gil. “Há uma inteligência que só a arte nos dá e que é fundamental.” Ocorre-nos quando somos recebidos pela obra sonora de Luísa Cunha, no MAAT Central, espécie de antecâmara ao percurso de ‘Turn around. Um olhar sobre a Coleção de Arte Fundação EDP’ – “Vira-te, olha para ti mesmo, roda, olha em teu redor”. E olhamos. E vemos uma escultura de Manuel Baptista e Jorge Molder que nos provoca com os seus gestos contidos (mas à beira da explosão?) na série ‘Condição Humana’. “Além do eco literário e filosófico que esta série tem, há muitas situações nesta exposição que são do foro da condição humana. Nem sempre as mais salutares, mas como todos sabemos, a arte existe, também, para tratar das questões difíceis”, diz João Pinharanda.
A mostra reúne perto de 90 obras de 58 artistas e constitui o segundo momento expositivo, ampliando o núcleo original, inaugurado em fevereiro, em mais de 60 peças. A pintura, a escultura e a fotografia ganham aqui relevância, assim como as “continuidades e ruturas na produção artística nacional”, reforçam João Pinharanda, Margarida Chantre e Sérgio Mah, o trio de curadores que idealizaram as duas exposições. Objetivo? Evidenciar “continuidades e ruturas na produção artística nacional”, numa leitura que “permite acompanhar a evolução da criação portuguesa nas últimas décadas.”
No segundo momento de ‘Turn around’, que assinala também os dez anos do MAAT, encontramos obras de artistas como António Areal, Álvaro Lapa, Ana Hatherly, Diogo Pimentão, Fernanda Fragateiro, Gabriel Abrantes, Helena Almeida, Joana Vasconcelos, João Onofre, José Pedro Croft, Leonor Antunes, Paulo Nozolino, Rui Chafes e Susanne S. D. Themlitz, entre muitos outros nomes que ilustram o diálogo entre gerações e linguagens numa coleção que não se quer acomodar.
Convocamos novamente José Gil. “Génese quer dizer o que se passa na cozinha própria de um artista. A cozinha muito vasta que é a sua cabeça, que são os materiais, as sensações, a natureza das sensações, os acontecimentos.” E prosseguimos viagem pelas sensações e estímulos que outros espaços dedicados à arte nos proporcionam ao longo do eixo Alcântara-Belém, em Lisboa. No ano do seu 18º aniversário, o Museu do Oriente celebra as múltiplas expressões artísticas resultantes dos encontros entre Oriente e Ocidente. No MACAM, a coleção Armando Martins, que inclui mais de 600 obras, desde o final do século XIX até à atualidade, propõe ‘Uma coleção a dois tempos’. Próxima paragem, o intimista Pavilhão Julião Sarmento, onde pode ver ‘Depois de Para Sempre’, uma exposição que reúne obras de Fernando Calhau e Rui Chafes, com curadoria de Isabel Carlos. Já na Cordoaria, Jorge Martins brinca com o tempo e o espaço.
Alguém disse que a grande arte tem péssimos modos. E não gosta de reverência. Fica o convite: exploramos?
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