Música para responder às grandes questões
Como será sentir música crescer dentro de nós? O pianista norueguês Leif Ove Andsnes sentiu esse arrebatamento e decidiu dedicar quatro anos à obra de um único compositor, Beethoven. E assim foi. Durante 1460 dias, interpretou exclusivamente peças do compositor alemão. A escolha, disse à BBC, baseou-se na convicção de sentir esta música crescer dentro de si desde a sua descoberta na infância. “O caráter revolucionário desta música” continuou a cativá-lo nos seus anos de estudante. Mais tarde, foi o lado humano e a busca de “respostas às grandes questões” de Beethoven que reforçaram a sua intensa relação com a música do compositor.
O ser humano, como se vê, é feito de ímpetos e Ludwig van Beethoven não foi uma exceção. Entre os seus ímpetos criativos figura o Concerto para Piano Nº 3. Terá começado a ganhar forma depois de se fixar em Viena de Áustria, em 1792, um ano após a morte de Wolfgang Amadeus de Mozart. Nunca escondeu a sua admiração por Mozart, mas nesta composição deixou bem explícita a vontade de ir mais além. De plasmar na sua criação o ideal do génio romântico, esgrimindo o seu talento, a sua capacidade de aprender e de transformar em composições próprias as influências que ia bebendo. E queria, também, ir mais além do estatuto de pianista virtuoso que lhe reconheciam. Queria voar bem alto. Afirmar-se como compositor. Protagonizar ruturas. Vestir a pele de homem moderno e fazer reverberar os ideais da Revolução Francesa.
O Concerto para Piano Nº 3 foi estreado em abril de 1803 com o próprio compositor ao piano, no mesmo programa em que foi tocada a Sinfonia Nº 1, a Sinfonia Nº 2 e a oratória Cristo no Monte das Oliveiras. A beleza das melodias é extraordinária, mas parece já revelar o desassossego que viria a manifestar-se poucos anos mais tarde. Beethoven consegue neste Concerto para Piano Nº 3, em Dó menor, op. 37, conciliar as raízes no século que acabara de terminar com um caráter pioneiro para o século que se iniciava. Sempre em busca das “respostas às grandes questões”. A 7 e 8 de maio, o pianista Leif Ove Andsnes prosseguirá essa demanda, na Gulbenkian Música, sob a direção de Hannu Lintu.
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