Canadá é a primeira nação a ‘trocar’ a América pela Europa
O Canadá tornou-se o primeiro país não europeu a participar numa reunião da Comunidade Política Europeia (EPC, criada em 2022 depois da invasão da Ucrânia): o primeiro-ministro canadiano, Mark Carney, está na cimeira que teve início esta segunda-feira em Yerevan, Arménia, onde se encontram mais de 48 países. O primeiro-ministro Luís Montenegro era um dos líderes europeus esperados, mas acabou por não comparecer.
Carney afirmou estar determinado em construir uma nova rede de alianças comerciais e diplomáticas, depois dos desentendimentos que manteve com o presidente dos Estados Unidos Donald Trump – que no início do seu segundo mandato alegou querer transformar o Canadá no 51º Estado da federação que dirige. Trump já tinha dito algo do género no primeiro mandato, mas a repetição da ideia promoveu um forte desentendimento entre Washington e Otawa. Os desentendimentos começaram quando o anterior primeiro-ministro canadiano, Justin Trudeau, ainda ocupava o cargo, mas não desapareceram quando Mark Carney, um ex-banqueiro de investimentos, o substituiu.
Na altura dos desentendimentos com o seu vizinho e das consequentes tarifas que os exportadores canadianos tiveram de enfrentar nas vendas para os Estados Unidos, Carney não perdeu tempo: visitou vários países europeus e tratou de encontrar forma de, paulatinamente, ir substituindo a importância económica que os EUA assumem desde sempre na economia canadiana. Nada que seja possível de um dia para o outro, evidentemente, mas Carney mostrou-se sempre ter uma agenda política, económica e diplomática completamente diversa da de Trump e não se deixou ‘amedrontar’ pela questão das tarifas. O apoio incondicional à Ucrânia, que Carney tem mantido, foi um dos pontos da discórdia com os EUA.
Já na Arménia, Mark Carney disse que a Europa não se submeterá a um “mundo mais brutal” e, em vez disso, poderá ser a base a partir da qual uma nova ordem internacional pode ser reconstruída. “Não achamos que estamos destinados a submeter-nos a um mundo mais transacional, fechado e brutal, e reuniões como esta apontam para um caminho melhor a seguir”, disse. Era uma sugestão muito pouco disfarçada à liderança norte-americana de Donald Trump, enfatizada mais adiante: “É minha forte opinião pessoal que a ordem internacional será reconstruída, mas será reconstruída fora da Europa. “Estamos a demonstrar não apenas a força dos nossos valores na defesa de uma ordem internacional baseada em regras, mas também o valor da nossa força”, acrescentou.
A reunião da EPC, a oitava desde a criação da organização, acontece em Yerevan, Arménia, uma forma de a organização mostrar a determinação da Europa em evitar que o pequeno país do Cáucaso seja ‘sugado’ de volta para a órbita russa. Mas, para além dessa espécie de ‘statement’ que os países europeus quiseram deixar à Rússia, o evento realiza-se num quadro de uma forte preocupação dos europeus com o compromisso dos Estados Unidos para com a NATO. Donald Trump anunciou a retirada de mais de cinco mil militares dos EUA estacionados na Alemanha, uma medida que confirmou os piores temores dos europeus sobre a confiabilidade da aliança transatlântica. Itália e Espanha também podem estar na mira da redução de efetivos norte-americanos.
Um dos intervenientes na cimeira, o presidente do Conselho Europeu António Costa, defendeu a “forma europeia de fazer as coisas” através do multilateralismo e com respeito pelo direito internacional. “A história da paz na Europa, num mundo onde a escalada e a guerra parecem dominar, é algo que deve ser celebrado. Existe uma forma europeia de fazer as coisas: através do multilateralismo, com o sistema das Nações Unidas no seu centro e com respeito pelo direito internacional”, afirmou António Costa, citado pela agência Lusa.
Para o antigo primeiro-ministro português, esta reunião de alto nível de líderes europeus “foi verdadeiramente histórica” por ser a primeira realizada na região do Cáucaso do Sul, pelo que “será para sempre lembrada como a cimeira da paz no Cáucaso, alcançada através de escolhas políticas corajosas e de esforços diplomáticos pacientes”, dados os esforços de paz da Arménia e do Azerbaijão relativamente ao território de Nagorno-Karabakh.
“No atual contexto geopolítico, é cada vez mais claro que o nosso continente precisa de uma visão de segurança a 360 graus. Reunir-nos aqui na Arménia, tão perto do Médio Oriente, é um lembrete claro de que a guerra na vizinhança da Europa tem um impacto direto na nossa segurança comum, no nosso abastecimento energético e na nossa economia”, salientou António Costa.
O presidente da instituição que junta os chefes de Governo e de Estado da União Europeia (UE) frisou que “mais do que nunca”, o bloco comunitário “precisa de trabalhar lado a lado com a Arménia e com a região em prol da paz e da estabilidade”. “Uma paz e estabilidade duradouras devem assentar em instituições democráticas resilientes e em fortes laços económicos entre os povos”, afirmou ainda.
Quanto à Ucrânia, Costa defendeu avanços no processo de adesão à UE, pedindo que se abra “o primeiro conjunto de negociações o mais rapidamente possível”. E prometeu que a UE “permanecerá ao lado da Ucrânia durante o tempo necessário para alcançar uma paz sustentável, justa e duradoura, com pleno respeito pela integridade territorial da Ucrânia”.
Falando em Yerevan, Keir Starmer, o primeiro-ministro britânico, disse que “não podemos negar que algumas das alianças das quais passámos a depender não estão no lugar ponto em que gostaríamos que estivessem. Há mais tensão nessas alianças do que devia.” A forma como os líderes europeus responderam a essas tensões “definirá o que acontece por muitos anos, possivelmente por uma geração”, acrescentou.
O presidente francês, Emmanuel Macron, disse por seu turno que “os europeus estão a tomar a defesa nas suas próprias mãos, aumentando seus gastos em defesa e segurança, e construindo as suas próprias soluções comuns.”
Também presente, o presidente ucraniano, Volodymyr Zelensky, disse que a Rússia enfrentaria um momento crucial no verão; “um momento para expandir a guerra ou migrar para a diplomacia”. Se a Rússia não escolher acabar com a guerra, será ainda mais vital a manutenção da pressão europeia sobre Moscovo, nomeadamente por via dos pacotes de sanções. E defendeu um formato diplomático viável em que os europeus devem estar à mesa em qualquer negociação.
A chefe de política externa da União, Kaja Kallas, também falou sobre a retirada de tropas norte-americanas, para dizer que, apesar de há muito se falar dessa retirada, “o momento desse anúncio é uma surpresa. Acho que isso mostra que precisamos realmente de fortalecer o pilar europeu na NATO.” Questionada sobre se acreditava que Trump está a punir o chanceler alemão, Friedrich Merz, por dizer que os Estados Unidos foram “humilhados” pelo Irão, Kallas disse apenas que “não vejo a cabeça do presidente Trump, ele mesmo tem de explicar.” Curiosamente, o chanceler Friedrich Merz é um dos ausentes da cimeira.
Já o secretário-geral da NATO, o neerlandês Mark Rutte – cada vez mais acusado de bajulação a Trump e de total submissão aos interesses de Washington – admitiu que houve “alguma deceção do lado dos Estados Unidos” diante da relutância da Europa em apoiar a guerra no Irão. Mas os europeus “ouviram a mensagem”, e estão agora a fornecer apoio logístico às operações dos EUA e pré-posicionando “ativos-chave próximos ao teatro de operações, para a próxima fase”.
Pouco depois, e face a mais esta tirada de Rutte, Emmanuel Macron reforçou que os países europeus não vão apoiar a guerra dos Estados Unidos e de Israel.
O primeiro-ministro da Arménia, Nikol Pashinyan, o anfitrião, lidera o partido Contrato Civil, que enfrenta eleições parlamentares em junho. A formação quer manter o país do lado da Europa – tentando por isso uma vitória que lhe permita manter essa linha. Mas o grande objetivo do país é a continuação dos esforços de paz com o Azerbaijão. Depois da cimeira da EPC, a Arménia realizará esta terça-feira a primeira cimeira bilateral entre com a União Europeia. Quando a comissária para o Alargamento da União, Marta Kos, visitou o país (em março), declarou que “Arménia e a UE nunca estiveram tão próximas”.
O país de três milhões de habitantes assinou um acordo de parceria abrangente com a UE em 2017. No ano passado, declarou formalmente o seu propósito de aderir ao bloco. Mas é de recordar que a Arménia é membro da União Económica Eurasiática e da Organização do Tratado de Segurança Coletiva (OTSC), ambas lideradas pela Rússia. Em abril, Vladimir Putin afirmou que a Arménia não pode ser ao mesmo tempo membro da UE e da OTSC.
A Comunidade Política Europeia é uma plataforma de diálogo e cooperação que junta países da UE e vários Estados vizinhos do continente, criada em 2022 (por impulso de Macron), em contexto de invasão russa da Ucrânia. O lema da cimeira é ‘Construir o futuro: unidade e estabilidade na Europa’. Da lista oficial de participantes, que são mais de 40, constam 14 dos 27 chefes de Estado e de Governo da UE.
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