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A Natureza não espera – e a transição energética também não

A Natureza não espera – e a transição energética também não

Vivemos num momento de paradoxo civilizacional. A crise climática — nas secas prolongadas, nos incêndios que consomem os nossos solos, nas temperaturas que batem recordes ano após ano — exige uma resposta urgente e em escala. Essa resposta passa, inevitavelmente, pela aceleração das energias renováveis. E essa aceleração tem custos. Tê-los-á sempre. A questão que devemos colocar, com rigor, não é se existem impactes, mas se os impactes de agir são menores do que os de não agir.
A biodiversidade está no centro desta equação. E é precisamente por isso que não podemos tratá-la como uma formalidade de licenciamento, nem reduzi-la a um argumento de comunicação. A biodiversidade é a fundação silenciosa sobre a qual assenta toda a vida — incluindo a nossa.
Em Portugal, temos uma biodiversidade extraordinária. O Alentejo, aparentemente árido, é um dos territórios com maior riqueza em aves de rapina e em morcegos da Península Ibérica. O Tartaranhão-caçador, cujas populações nacionais caíram 80% na última década, reproduz-se nos campos de cereal desta região. O Morcego-rato-grande habita as grutas calcárias do interior. São realidades que nos interpelam — e que merecem ser levadas a sério por todos os que intervêm no território.
É, contudo, igualmente verdade que o maior fator de perda de biodiversidade em Portugal não são as infraestruturas de energia renovável. São as atividades agrícolas intensivas, o abandono rural, os incêndios florestais, as espécies invasoras e — acima de tudo — as próprias alterações climáticas. Um planeta que aquece 3 ou 4 graus acima dos valores pré-industriais é incompatível com a maioria das espécies que hoje conhecemos. Este facto não serve para relativizar responsabilidades. Serve para perceber que estamos todos do mesmo lado.
Há perguntas científicas que ainda não têm resposta consolidada: qual é, na prática, a perturbação que um parque solar causa numa colónia de morcegos? A que distância se alimentam estas espécies dos seus abrigos? De que habitats dependem prioritariamente? A honestidade intelectual obriga-nos a reconhecer que a ciência ainda está a construir as suas respostas. E é precisamente nessa lacuna que reside uma oportunidade genuína: a de usar a implementação de infraestruturas energéticas como laboratório de conhecimento, com monitorização contínua, gestão adaptativa e partilha de dados com a comunidade científica.
Integrar a biodiversidade desde o primeiro dia de um projeto — não como exigência regulatória, mas como critério de desenho — muda fundamentalmente a forma como se planeia e constrói. O conceito de desenvolvimento dos nossos projetos traduz exatamente isso: a ambição de que um território intervencionado saia, no final, com uma presença reforçada de natureza do que tinha antes.
A pergunta que raramente fazemos
Quando avaliamos o impacte de um projeto de energia renovável num determinado território, há uma pergunta que raramente é colocada com clareza: comparado com quê? O impacte de um parque solar tem de ser avaliado não em abstrato, mas em confronto com o cenário alternativo real — aquilo que aconteceria àquele território se o projeto não existisse. O terreno não fica em suspenso à espera de uma decisão mais nobre. A vida continua, e com ela surgirão outros usos e atividades económicas, o risco de incêndio, o abandono rural.
Não é uma pergunta fácil. Não tem uma resposta única. Mas é a pergunta certa.
O que a natureza nos pede
A biodiversidade não nos pede que paremos tudo. Pede-nos que pensemos melhor, que planeemos com mais rigor, que ouçamos a ciência — incluindo quando ela admite incerteza. Pede-nos que tratemos o território português não como um obstáculo à descarbonização, nem como um santuário intocável, mas como um sistema vivo, complexo e resiliente, capaz de coexistir com a energia que precisamos de produzir — desde que o façamos com inteligência, humildade e responsabilidade.
A transição energética, feita com critério, pode ser uma das maiores oportunidades de regeneração territorial que este país já teve. Mas essa oportunidade não se concretiza sozinha. Exige ciência aplicada, processos de decisão robustos, e vontade genuína de encontrar soluções em vez de apenas identificar problemas.
A natureza não espera. E nós também não nos podemos dar ao luxo de esperar.

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